Por Alessandra Xavier (Uniritter) e André Maciel (PUCRS)*
A 71ª Feira do Livro de Porto Alegre tem gerado reflexos diretos na economia do Centro Histórico da Capital. Realizada na Praça da Alfândega, a tradicional programação literária atrai diariamente milhares de visitantes, o que amplia o fluxo de consumidores em estabelecimentos próximos ao evento. Lojas, cafeterias e restaurantes relataram aumento na circulação de clientes desde o início da feira, no fim de outubro.
Entre os empreendedores que aproveitam o período de maior circulação está Sílvia Menezes, dona da banca 38 de artesanato, instalada na rua dos Andradas desde 1982. A artesã conta que nessa época do ano costuma diferenciar seu portfólio de produtos para atender ao público atraído pelo evento.
“Eu coloco algumas outras peças para essa época, por conta da Feira do Livro. Então eu adiciono incenso, bandanas, algumas outras coisas para agregar junto com o meu trabalho de artesanato. Também tem as ecobags feitas à mão e os filtros dos sonhos. Acabo vendendo mais que o dobro do normal”, afirma.
Além disso, Sílvia destaca o caráter cultural e turístico da Feira do Livro, que atrai visitantes de várias partes do país e do exterior. “É bom porque a gente conversa com outras pessoas, conhece outras culturas e isso acaba sendo positivo para o ganho e para o dia a dia”, comenta.
Na mesma região, o movimento também é sentido por comerciantes como Perla Fonseca, funcionária há 10 anos da Revistaria Alfândega, localizada na rua dos Andradas. Segundo ela, a época literária na capital gaúcha traz um movimento especial e um clima de reencontros. “A gente sempre vê pessoas que aparecem uma vez por ano. Então têm visitantes que vêm de fora e trabalhadores que colocam estantes anualmente na feira vindos de Brasília e São Paulo, por exemplo.”
No ambiente voltado ao mercado, a funcionária destaca que, com a alta demanda de vendas e fluxo de pessoas, é comum a contratação temporária de funcionários para dar conta do atendimento. Perla comenta também que o aquecimento de vendas não se restringe ao evento literário. Logo após a edição, a realização da Noite dos Museus, em novembro, mantém o movimento intenso no Centro Histórico, gerando um impacto positivo para os restaurantes e lojistas. Na sequência, seguido dessa demanda, os estabelecimentos enfrentam o aumento de compras no final do ano, com datas que sinalizam a chegada da Black Friday e Natal.
O crescimento no número de vendas também foi registrado dentro da própria Feira do Livro. Nos primeiros 12 dias, o evento alcançou a marca de 144.956 exemplares vendidos. O resultado representa 11,75% a mais em comparação ao mesmo período de 2024, que encerrou as atividades somando 241 mil obras comercializadas.
COMÉRCIO PRESENTE DENTRO NA FEIRA
Durante a Feira do Livro, o movimento nas barracas dentro da praça era maior do que a expectativa dos vendedores, segundo a Suelen Dutra, da Toca do Açaí, um dos comércios presentes no evento. “A gente esperava uma demanda até não tão grande quanto este ano, nos surpreendeu bastante. Está bem agitado para nós. Desde a hora que abriu até a hora que fechou”.
Sobre a demanda, Suelen explicou que o local também favoreceu o alto fluxo de pessoas em sua tenda. “Sim, bastante. Porque a gente tem a parte da alimentação mais centralizada ali, e aí tinha essa ausência aqui na parte da Andradas, então nós viemos para suprir isso”. A demanda durante a semana tem surpreendido muito os vendedores, que inclusive tem superado o movimento dos sábados.
Pela manhã o público mais comum eram alunos vindos de passeios proporcionados pelas escolas, já à tarde, famílias, casais e grupos de amigos foram mais notados por quem comercializa no local. Além disso, dentro da feira há barracas com vários tipos de alimentos, desde produtos gelados até churros e pipoca.
ENCHENTE DE 2024
Apesar do saldo positivo nas vendas durante a época do ano, a enchente Guaíba em abril de 2024 abalou os estabelecimentos do Centro Histórico. De acordo com a prefeitura de Porto Alegre, por meio da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET), 45 mil atividades econômicas foram impactadas pelas cheias na Capital. O resultado representa 17% das empresas e 35% da força de trabalho da cidade, além de indicar 30% do espaço da metrópole.
Apenas no entorno da Praça da Alfândega, restaurantes e lojas somam mais de 30 organizações. Sílvia Menezes relembrou as dificuldades enfrentadas durante as cheias de 2024 na região e reclamou que não obteve o apoio suficiente das autoridades públicas. No período, ela relata ter conseguido mais suporte por meio de uma faculdade que atuava com estabelecimentos independentes.
Após o período de desastre, alguns comerciantes mudaram de local para evitarem novas perdas decorrentes das águas. No entanto, a artesã e outros proprietários preferiram permanecer, apoiados pela expectativa de recomeçar, especialmente com o impulso proporcionado pela Feira do Livro, período em que o movimento aumenta e renova as esperanças de recuperação econômica.
“Eu já estou aqui há mais de 39 anos e não iria para outro lugar. É muito bom estar no centro rodeada por pessoas, principalmente agora nesse período que vem muita gente”, ressalta a proprietário da banca de artesanato.
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*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier
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