Oficina de Jornalismo

Meu livro, minha edição

Impressão sob demanda, editoras pequenas e editais culturais vêm aproximando autores independentes dos leitores

Para Manuela Ramalho, autora de “A Mãe Vulgar”, autografar o livro na Feira é realizar um sonho da sua criança interior
Para Manuela Ramalho, autora de “A Mãe Vulgar”, autografar o livro na Feira é realizar um sonho da sua criança interior Foto : Gabriela Panassal / Especial / CP

Por Gabriela Panassal (Unisinos)*

A publicação independente tem ganho força no Brasil, com autores que escolhem, cada vez mais o caminho da autopublicação diante das dificuldades de entrar no mercado tradicional. Entre altos custos, ausência de contratos editoriais e o desejo de autonomia criativa, esses escritores formam um mercado que cresce ano após ano, e que só se sustenta quando políticas de fomento e espaços de circulação são viabilizados.

Na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, essa realidade ganha vitrine desde 2023, com um estande exclusivo para autores independentes que reafirma o papel da Feira como promotora de acesso e incentivo à cultura. Mantida pela Câmara Rio-Grandense do Livro, a Banca dos Independentes nasceu do olhar atento da organização do evento em acompanhar a tendência desse mercado.

O gerente administrativo da Câmara, Gerson Souza, explica que a iniciativa nasceu da própria demanda dos autores por visibilidade, e destaca a popularização da impressão sob demanda como principal fator para o crescimento da área. “De uma tiragem de mil livros antigamente, hoje o autor pode escolher imprimir 50 ou 100 exemplares. A Câmara percebeu esse movimento e a importância de assumir essa pauta, para ter um espaço organizado e que divulgue o autor independente”, relata.

Para organizar essa participação, a Câmara lança, todos os anos, um edital, cerca de dois meses antes da Feira. Nele, os interessados em expor suas obras no estande podem optar por dois tipos de participação no evento: realizar uma sessão de autógrafos, com vendas feitas no dia do encontro e também na Banca dos Independentes, ou apenas deixar seus títulos para comercialização no estande durante toda a programação.

O que é ser autor independente

Apesar da alta no nicho de editoras e escritores independentes, ainda é comum a dúvida sobre o que, de fato, caracteriza um autor independente. Dentro da própria Feira, esse questionamento pode surgir entre feirantes e visitantes. Gerson Souza explica que, no início da implementação da Banca dos Independentes, a ideia era abrir o espaço apenas para escritores sem editora, mas uma análise mais atenta do mercado mostrou que a definição não é tão simples, e que um selo pequeno na capa não determina o grau de independência da obra.

Na prática, publicar de forma independente pode acontecer de duas maneiras: produzir o livro totalmente por conta própria, contratando serviços como diagramação, revisão e gráfica; ou pagar uma editora prestadora de serviços para coordenar o processo de publicação. Em ambos os casos, é o autor quem arca com os custos do lançamento, seja pagando diretamente pelos profissionais envolvidos, seja contratando uma editora de apoio.

Em compensação, ele fica com a maior parte do lucro, diferentemente do que ocorre com autores contratados por grandes editoras, no qual o investimento inicial é baixo, mas a porcentagem dos royalties destinada ao escritor é igualmente menor. Entre os autores que escolhem trilhar um percurso próprio dentro da publicação independente está Manuela Ramalho, que estreia na Feira com o livro “A Mãe Vulgar”, exposto na Banca dos Independentes e lançado em sessão de autógrafos na tarde da quarta-feira (12).

A trajetória da obra começou a ser pensada por Manuela, que é mãe, com o desejo de investigar a maternidade e o que essa experiência representa socialmente. “Se observarmos bem, ser mãe nos coloca num espaço onde é possível sentir e vivenciar toda uma dinâmica de injustiça social. Nos pequenos percalços cotidianos que a maternidade traz, nessas pequenas injustiças que se somam, está a raiz de toda uma estrutura social desigual.”

Manuela começou o processo de escrita a partir da construção da personagem e de suas dores, desejos e contradições, começando em 2021 com textos soltos, até a revisão final em 2024. Por se tratar de sua primeira novela, a escolha da editora foi um ponto de atenção para ela. A autora conta que conversou com colegas de escrita em busca de recomendações até encontrar a Editora Urutau através de uma chamada direcionada a mães escritoras.

“Achei que um espaço compartilhado com outras mães seria rico para mim, e realmente tem sido uma boa escolha. É uma editora pequena, e o processo de lançamento é independente.”

Entre os desafios de lançar um livro por conta própria, ela aponta a divulgação como o mais significativo e destaca que a autopublicação exige organização e paciência. No entanto, participar da Feira, através do edital de incentivo da Câmara, tornou o processo mais especial. Depois da sessão de autógrafos, ela pode confirmar ainda mais esse sentimento. “Foi um ritual importante e cheio de afeto. Sinto que meu livro foi bem tratado na sua chegada ao mundo.”

Para Manuela, ver tantos autores novos ocupando a Banca dos Independentes reforça a importância de iniciativas de fomento: “Vivemos um momento muito rico, em que vários escritores estão surgindo e se arriscando a mostrar seus trabalhos. Criar espaços para quem está começando é fundamental nesse processo.” Estar na Feira, para Manuela, é realizar um sonho que nasceu ainda na infância. O mesmo que move tantos leitores que imaginam um dia lançar seu livro no mesmo lugar.

Recepção do público

Os livreiros da Banca dos Independentes têm acompanhado de perto os resultados dos sonhos de Manuela e dos outros escritores presentes no estande com seus títulos. O melhor tem sido perceber os resultados. Faltando poucos dias para o final da Feira, cerca de 500 exemplares já haviam sido vendidos desde o início do evento, uma média de 45 livros por dia. No melhor dia de vendas, quase 100 obras encontraram novos lares.

Bruna Tessuto, editora contratada para atuar no estande durante o evento, destaca a boa recepção do público com as vendas e explica como funciona a distribuição do valor arrecadado. “Dos títulos expostos, os autores recebem 70% do valor de venda. 10% é desconto obrigatório do público, conforme o regulamento geral da Feira, e os 20% restantes correspondem ao funcionamento da banca.”

Ao final do evento, os livros que não forem vendidos retornam aos seus autores. Segundo Bruna, a diversidade de participantes dá ao estande uma dimensão nacional. “Tem gente do Brasil todo, inclusive autores que vêm de São Paulo e Rio de Janeiro para autografar e expor”, comenta. Atualmente, o espaço reúne 260 títulos, de cerca de 240 autores diferentes, muitos deles enviando mais de uma obra para exposição.

A curiosidade dos visitantes também ajuda a movimentar o estande. A professora aposentada Noeli da Silva visitou a banca em busca de um livro específico, mas acabou surpreendida pela variedade de títulos independentes. “Um amigo meu escreveu um livro e disse que a obra estaria neste estande, então vim procurar. Quando cheguei aqui, acabei vendo outros títulos que despertaram o meu interesse”, conta. Ao folhear as obras expostas, Noeli admite que também cultiva o desejo de publicar um livro no futuro.

Fomento cultural

A presença da Banca dos Independentes integra um ecossistema maior de iniciativas que fortalecem a circulação literária. Apenas três bancas adiante, na Praça da Alfândega, o estande da Prefeitura Municipal de Guaíba oferece outro exemplo de fomento cultural: um espaço pensado para que escritores guaibenses apresentem suas obras, conversem com o público e divulguem a produção cultural do município. Além de expor livros já publicados, Guaíba também investe diretamente na criação literária, com a Mostra s.I.A.G da Literatura, atualmente em sua segunda edição, que seleciona cinco obras para custear a publicação.

Entre os autores que ocupam o estande está Irlanda Gomes, que tem alguns títulos expostos, incluindo “Face de Ébano: Vivências e Trajetórias Afros”. A autora conta que todos os custos da obra saíram do seu bolso, e o espaço que o seu município funciona como uma ponte, aproximando a comunidade e permitindo que narrativas regionais encontrem seus leitores.

A soma dos esforços de autoras como Manuela e Irlanda, de editoras como a Urutau e entidades como a Câmara Rio-Grandense do Livro, revela que, quando o olhar atento para a diversidade dentro da cultura existe, as mais variadas histórias — nascidas de vivências, pesquisas e afetos — conseguem sair do rascunho e de um sonho distante para chegar às prateleiras e às mãos de quem circula pela Feira. É dessa base que depende o fortalecimento da literatura, não apenas independente, mas brasileira como um todo. Aqui, todos ganham.

A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".

*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier

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