Por Izadora Hypólito (Ufrgs)*
A Feira do Livro, com seu burburinho característico e os diversos aromas das comidas que são vendidas ao redor, pode ser considerada muito mais do que um evento comercial, mas um palco de reencontros e resgates emocionais. A jornada dos leitores mais experientes alcança uma dimensão profunda, tornando-se um espaço afetuoso onde as ruas da Praça da Alfândega se misturam com as páginas da vida. Não apenas os livros, mas o espaço pode servir como uma poderosa ferramenta de curadoria da memória, costurando do passado ao presente.
É o caso de Aida Alves, 71 anos, frequentadora da Feira desde os anos 70. Após passar por um período sem visitar o evento, ela retornou buscando, literalmente, reconstruir sua biblioteca pessoal. "Eu tinha muitos livros. Em casa sempre comprei muito livro, e com a enchente eu perdi tudo. Não ficou nem uma folha de nada", compartilha, lembrando-se das perdas da enchente, enquanto moradora do bairro Sarandi, em Porto Alegre.
Ainda assim, a memória de Aida não falha e, ao ser questionada por um livro marcante, não hesita em citar "O Centauro no Jardim", de Moacyr Scliar. A perda de livros de Aida, devido à enchente, reflete o drama vivido por milhares de moradores e também pelo mercado editorial local, que chegou a registrar a perda de dezenas de milhares de exemplares em editoras e depósitos da capital.
A memória dela por "O Centauro no Jardim", um romance de realismo fantástico sobre um centauro nascido no interior do Rio Grande do Sul e escrito por um dos mais importantes autores gaúchos, sublinha a importância da literatura regional e da fantasia como forma de processar a realidade.
Incentivo à leitura
O reencontro com a Feira é, por vezes, um reencontro com o próprio passado familiar. Maria de Fátima Cañellas tem 72 anos, aposentada, e voltou a frequentar o evento neste ano acompanhada da sobrinha, o que a reportou imediatamente aos momentos em que vinha com a filha, na infância, um hábito de incentivo à leitura que ela cultivava. Dos livros que agradam Maria de Fátima, os de mistério ocupam primeiro lugar no pódio. Mas, acima disso, ela carrega no coração o apego aos escritores brasileiros, como Érico Veríssimo e Guimarães Rosa.
Sua vitalidade literária, porém, se mantém no presente, mostrando o quão ativa e crítica é sua relação com as narrativas atuais. Maria confessa gostar de Jogos Vorazes mas reclama que as adaptações de Game of Thrones e Harry Potter não foram tão boas.
Essa capacidade de transitar entre o clássico da literatura brasileira (como Veríssimo, que inspirou a Casa de Cultura Mario Quintana, um dos pontos da Feira) e a cultura pop jovem demonstra o dinamismo dos leitores. Eles não se limitam ao passado, mas se engajam ativamente na cultura contemporânea, mantendo o senso crítico aguçado.
Paixão pela leitura
A curiosidade é um elemento que não têm prazo de validade. E se engana quem pensa que os leitores mais idosos já abandonaram essa paixão. Vitor Bassani, 73 anos, vem todos os anos e adora as palestras com escritores, além de revelar que sua paixão pela leitura não tem categoria. Sua sacola, carregando um livro sobre nutrição e outro sobre religião, demonstra que o aprendizado e a ampliação de horizontes continuam sendo o motor da sua busca. Assim, a terceira idade busca na Feira não apenas o prazer da história, mas o conforto e o estímulo que a literatura proporciona, fazendo do estande um ponto de encontro entre o que se foi e o que se deseja ler.
Para quem vive e produz livros, essa época do ano carrega um significado ainda maior. Marco Nedeff, 68 anos, que é fotógrafo, escritor, editor e livreiro da banca Libretos. Ele está presente na feira há 14 anos, desde a primeira participação da Libretos no evento, e vê o momento como o ápice de seu calendário.
“A melhor fase, a melhor época do ano. Vender livros, estar no meio de livros, estar no meio de escritores, de gente que gosta de livro.”
É relevante notar que a editora Libretos também foi severamente afetada pelas enchentes, perdendo milhares de livros em seus depósitos. A presença e o entusiasmo de Marco na Feira, mesmo após tais perdas, representam a resiliência de todo o setor editorial gaúcho que vê no evento um vital "recomeço".
Em sua banca, onde os autores são quase 100% de Porto Alegre, Marco comenta que o público é fiel e normalmente já chega com uma busca definida, reflexo do trabalho de curadoria. “Os nossos livros realmente são bons. São muito pensados, são muito bem editados.” Ele sintetiza a devoção de quem produz cultura e, apesar do cansaço do período, ama estar ali.
Diferencial histórico
A ênfase na curadoria e nos autores locais é um diferencial histórico da Feira de Porto Alegre, que sempre buscou fortalecer a produção literária do Rio Grande do Sul, criando uma relação de fidelidade e identidade com seu público. O livreiro Guima Beineke, 71 anos, da banca Entrelinhas, que trabalha há 21 anos, complementa essa visão, resumindo o papel da Feira na vida da comunidade.
“A feira é indispensável. Movimenta todo ano o mercado, movimenta as pessoas, enfim, é uma ferramenta indispensável hoje em dia. A Feira de Porto Alegre é o ponto alto do afeto e da memória".
Longevidade se manifesta
O mosaico de histórias de Aida, Maria de Fátima e Vitor ilustra a crescente relevância da terceira idade no cenário cultural e social brasileiro, refletindo o fenômeno do envelhecimento populacional. A longevidade se manifesta na Feira do Livro não como um declínio, mas como uma fase de intensa vitalidade literária e curiosidade inesgotável, com leitores buscando ativamente a reconstrução de memórias afetivas, a transmissão de hábitos familiares e a ampliação contínua de seus horizontes intelectuais.
Essa presença robusta e engajada desafia o estereótipo de que o público leitor se restringe a faixas etárias mais jovens, provando que o prazer da leitura e a busca por conhecimento são elementos sem prazo de validade, essenciais para o bem-estar e o estímulo à maturidade. Confirmando o que Guima diz com convicção:
"Leitores são leitores, os públicos são sempre leitores, né? Tem leitor de todas as idades, tem leitor jovem, meia idade, idade mais avançada."
A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".
*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier