Por Lívia Bernardes Dutra (Uniritter Fapa) e Melissa Paz (Ufrgs)*
Na 71ª edição da Feira, a acessibilidade chama atenção para um debate: a maior feira literária a céu aberto da América Latina é acessível a todos? No dia 10 de novembro, a escritora Simone Saueressig falava sobre o romance histórico “O Ouro das Missões”. Mas, para um grupo de alunos da Escola Estadual de Ensino Médio para Surdos Professora Lilia Mazeron, a narrativa se perdia em gestos interrompidos. O intérprete prometido pela organização não apareceu.
“Os professores tiveram que fazer a tradução, o que não é adequado. A gente não consegue cuidar dos alunos e, ao mesmo tempo, fazer a interpretação de forma correta. Eles ficam chateados, porque acabam sempre em segundo plano”, desabafou a professora Juliane Nunes, que acompanhava a turma e precisou improvisar a comunicação. A escritora também lamentou o ocorrido e refletiu sobre a importância da comunicação.
“Se a gente não conversar, não vai entender o que move o universo, e o que marca o universo é justamente a nossa capacidade de trabalhar juntos, de dialogar. Tudo isso que estou dizendo é quase uma mea culpa, porque também acho que deveria saber conversar melhor com essa galera (alunos), olhar nos olhos e falar diretamente com eles”.
Em nota, a Câmara Rio-Grandense do Livro (CRL), organizadora da Feira, lastimou e garantiu que o fato está sendo apurado junto à empresa terceirizada. “Reforçamos nosso compromisso com a acessibilidade e a inclusão de todos os públicos”, declarou a entidade. Apesar do episódio, a Feira reitera seu compromisso com um espaço denominado Estação da Acessibilidade, localizado junto ao Balcão de Informações. Há 12 anos, o espaço integra às ações do evento, e promove movimentação próximo à área infantil e juvenil, sendo um dos que colabora na prestação de informações e serviços às pessoas com deficiência que visitam a Feira.
Os parceiros integram o Comitê de Voluntários pela Acessibilidade da Feira, que orienta a comissão organizadora, desde a etapa da elaboração do mapa para que sejam reduzidas as barreiras arquitetônicas, de comunicação e atitudinais que dificultam a inclusão de PCDs, de idosos e pessoas obesas. Por outro lado, a Feira porto-alegrense também é feita de outras pequenas resistências de pessoas que transformam a palavra “inclusão” em ação.
Estação da Acessibilidade 12 anos em busca de ações
O espaço, gerenciado pelo Comitê de Voluntários pela Acessibilidade da Feira do Livro, atua na divulgação da causa e oferece recursos de acessibilidade para Pessoas com Deficiência (PcD). Vinte entidades apoiam a iniciativa, incluindo os conselhos municipal e estadual das Pessoas com Deficiência.
A Associação de Familiares e Amigos do Down (AFAD), uma das organizações parceiras, completou 33 anos no dia 14 de novembro. O vice-presidente do Conselho Estadual da Pessoa com Deficiência (Coepede), Vicente Fiorentini, ingressou na associação há 29 anos, após o nascimento do seu filho João Vicente, que tem Síndrome de Down.
“A pessoa com deficiência é considerada como tal devido às barreiras que enfrenta para circular e se comunicar. Quando essas barreiras são removidas, a deficiência, como um impeditivo, deixa de existir”, afirma Fiorentini, enquanto segura uma cópia da Lei Brasileira de Inclusão. Essa é uma das visões que movem a Estação da Acessibilidade, que busca reduzir as barreiras arquitetônicas, de comunicação e atitudinais que dificultam a inclusão de PCDs.
No pequeno espaço reservado ao estande, decorado com cartazes e pilhas de livros, ele atua com Miriam Schacker Machado, que integra o Comitê de Cultura da Afad. Folhetos informativos, livros sobre os direitos das pessoas com deficiências, protetores auriculares, cadeiras de rodas e a programação completa da Feira em Braille são alguns dos elementos disponíveis na Estação.
Miriam relata ter como expectativa para as próximas edições a aquisição de mais recursos, com o objetivo de abranger um número maior de deficiências. “Além do Braille e da Libras, é preciso que a Feira considere a comunicação alternativa e a linguagem simples, que visam facilitar o entendimento e promover a acessibilidade para pessoas com deficiência intelectual. Esta é uma das nossas lutas atualmente”, afirma.
30 rodas de conversa
Neste ano, o Comitê também promove 30 rodas de conversa, no Ciclo Inclusivo, que abordam, entre outros temas, questões relacionadas com doenças raras que geram deficiências. A programação iniciou-se no primeiro dia de novembro, com uma roda de conversa sobre capacitismo digital e direitos humanos, e finaliza no dia 16 (último dia da feira), com o tema da parentalidade e das deficiências.
Na Estação da Acessibilidade, são disponibilizadas cadeiras de roda, tomadas de energia elétrica para o carregamento de cadeiras motorizadas e celulares, a programação da Feira em braile e mapa tátil do evento, entre outros serviços. Vicente e Miriam, ambos pais de pessoas com Síndrome de Down, relatam as dificuldades que ainda precisam ser superadas rumo a uma inclusão efetiva.
“O principal objetivo da Estação da Acessibilidade, em mais de uma década de atuação, é o acolhimento, para que todos saibam que têm o direito de estar no mundo exatamente do jeito que são”, finaliza Miriam.
A Feira do Livro na visão de uma pessoa em cadeira de rodas
Cadeirante, Antônio Viana Carboneiro, 78 anos, não conhecia a Estação, mas frequenta a Feira e se considera um leitor assíduo. Líder comunitário no Loteamento Santa Terezinha, conhecido como Vila dos Papeleiros, Antônio carrega no corpo a marca de um acidente sofrido há cerca de cinco anos.
Para Carboneiro, a experiência deste ano trouxe satisfação em um aspecto crucial: a acessibilidade. Rampas de acesso são o principal elemento que ele elogia. Há quase cinco anos Antônio utiliza uma cadeira de rodas para se locomover, devido a um acidente de trânsito que resultou na amputação de sua perna direita.
Ele relata que, antes do acidente, nunca havia notado as dificuldades de acessibilidade na cidade. "Quando eu tinha a perna, eu não notava a falta de acessibilidade. Depois que eu a perdi, eu entendi o que passa um cadeirante nas ruas de Porto Alegre", afirma, tecendo críticas à estrutura das ruas de alguns bairros.
Apesar dos desafios urbanos, mantém um espírito ativo e engajado com a cultura. Papeleiro por profissão, ele atua desde os anos 1990 em prol dos direitos dos catadores de materiais recicláveis. Além disso, ele busca promover a leitura através de sua iniciativa, a Biblioteca da Vila. O projeto consiste em um carrinho de catador adaptado para levar livros pelas ruas e praças do município. A biblioteca já passou pela Praça da Alfândega e em outros pontos da cidade.
Na visão de Carboneiro, as condições de acessibilidade que ele encontra durante a Feira deveriam ser replicadas em toda a cidade, transformando a experiência de vida de centenas de pessoas com deficiências. Entre falhas e conquistas, a 71ª Feira do Livro mostra que a literatura continua sendo esse espelho da sociedade: reflete o que já aprendemos e, principalmente, o que ainda precisamos aprender.
A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".
*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier