Oficina de Jornalismo

Os livros além do Centro

Livreiros lamentam que a maior circulação da Feira do Livro se restrinja à Praça da Alfândega, mas estão prontos para o que der e vier

Obras na parte interna da Bibilioteca Pública do Estado devem estar finalizadas em 2027
Obras na parte interna da Bibilioteca Pública do Estado devem estar finalizadas em 2027 Foto : Rafael Luz / Especial / CP

Por Rafael Luz (Unisinos)*

Chegou o trimestre final do ano. Junto dele, o calor começa a aparecer com mais frequência, levando ao “descongelamento” de artistas como Roberto Carlos, a americana Mariah Carey e também Simone, que sempre nos faz refletir ao perguntar “e o que você fez?” em sua música natalina.

Mas antes das luzinhas e dos papaiS-noéis tomarem conta das ruas, lojas, shoppings e por onde mais quer que se olhe, a tradição porto-alegrense pede licença para organizar algo que é nosso em essência, mas acolhe ao mundo inteiro e às infinitas vidas e histórias presentes nas milhares de páginas das estrelas da festa: a Feira do Livro de Porto Alegre, sempre realizada na Praça da Alfândega, coração do Centro Histórico da capital dos gaúchos.

Todos os caminhos levam até ali. Independentemente de ser pela primeira vez ou se a visita já é frequente, a ponto de conhecer os livreiros como se fossem amigos, e as barraquinhas como se fossem uma extensão de casa. E a “festa do livro” torna-se uma febre, contagiando mesmo aqueles que não têm o hábito de ler ou, no mínimo, de colecionar livros na sua estante.

No entanto, infelizmente enganam-se aqueles que pensam que esta febre se espalha com a mesma intensidade para além da Praça da Alfândega. Nas ruas próximas ao ponto de encontro de leitores e livreiros, outros lojistas até entram no clima, com promoções e descontos atrativos para os clientes, mesmo que não estejam presentes no evento, mas reconhecem que o movimento maior mesmo é no local da Feira.

É o caso do Sebo Só Ler, apenas alguns metros adiante da Praça, no número 870 da rua dos Andradas. Na entrada, o cartaz já é bem apelativo: “A Feira do Livro também é aqui!”. E, segundo a gerente do sebo, Sabrina Nekel, o fluxo de clientes é bem instável, com dias mais e menos agitados na loja, com o pico do movimento, e faturamento, sendo nos finais de semana.

“O cartaz ajudou, mas o pessoal quer o desconto da Feira, e nem sempre a gente consegue dar né. Mas os finais de semana têm sido maravilhosos e a gente consegue ter um bom movimento”, afirma Sabrina.

Avançando um pouco mais na rua dos Andradas, em outro ponto turístico da Capital, fica a Livraria Taverna, criada em 2020. Por estar localizada junto à Casa de Cultura Mario Quintana, não é preciso muito esforço para achar ou lembrar onde é. A livraria, no entanto, é uma das ausências sentidas pelos clientes na Feira.

“O movimento aqui dá uma baixada. Mas também, tudo o que eles não encontram ali, vêm aqui na loja procurar”, é o que diz Bruno Aneres, atendente da livraria.

Subindo a ladeira e chegando à rua Riachuelo, na Biblioteca Pública do Estado (BPE), a casa está em obras, obrigando as bibliotecárias a usarem máscaras e protetor auricular devido ao pó e à barulheira que as máquinas fazem. No entanto, nada disso afasta os usuários, que ocupam os lugares da mesa para estudos e trabalho, localizada no centro do salão. Porém, de acordo com a bibliotecária Neusa Schumacher, as visitas à BPE têm diminuído nesta época do ano, assim como os empréstimos, apesar dos ótimos números de todo o restante de 2025.

“As pessoas às vezes acham mais barato o livro lá na Feira e acabam comprando lá, depois vêm para devolver o que pegaram emprestado aqui. Acho que pelas reformas, também, o movimento anda um pouco mais fraco do que o habitual.”

Apesar de se concentrarem na Feira, os clientes avaliam que as livrarias e sebos das ruas do Centro Histórico são bons, conforme afirma o professor Demétrius Ávila. “A gente tem o Sebo Café Riachuelo, a Ladeira Livros, na Andradas tem bons sebos também, assim como em Curitiba e em São Paulo”, avalia o educador. Demétrius elogia também o clima e a organização do evento, apesar de reconhecer que a Feira do Livro já foi maior em anos anteriores.

“Não me recordo de, em anos anteriores, haver um espaço para circulação entre uma barraquinha e outra. Isso mostra um desinteresse, por parte da administração municipal em manter o evento.”, afirma.

No entanto, nada abala a resistência dos “operários do livro”, dos bibliófilos ou apenas dos curiosos de plantão. Os lojistas continuam a arrumar suas lojas da melhor maneira possível para receber os clientes “fugidos” da Feira, atendendo-os com simpatia e indicando o que há de melhor em termos de livro. Fica provado, portanto, que a literatura porto-alegrense, gaúcha e brasileira está em ótimas mãos e que não devemos nos preocupar, pois Feira do Livro é todos os dias, não importa o lugar.

A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".

*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier

Veja Também