Por Yasmin Reinehr (PUCRS)*
Referência na literatura para crianças e jovens, “Cadu dos Livros” voltou a ocupar o coração da Feira do Livro de Porto Alegre em 2025. Na sessão de autógrafos realizada em 8 de novembro, ele celebrou não apenas as obras “Muitas Histórias, Nenhuma Palavra”, “Desenhos, Dibujos, Drawings” e “Capitão Caoelho e o Tesouro Perdido”, mas a própria essência do que move sua trajetória: a arte como maneira de encantar, acolher e abrir portas para novos mundos.
Ilustrador e escritor de histórias, Cadu já ultrapassou a marca de 70 livros publicados, muitos protagonizados pelo pequeno Cadu e seu parceiro imaginário, Pino. O apelido que o acompanha nasceu justamente deste encontro com os pequenos leitores: as crianças começaram a chamá-lo de “Cadu dos Livros”, e ele nunca mais utilizou outro nome.
Ao longo de sua carreira vem construindo obras que celebram a criatividade, a descoberta e o olhar curioso dos mais jovens. Autores como Lya Luft, Moacyr Scliar, Alexandre Brito, Dilan Camargo e Luiz Antônio de Assis Brasil já apresentaram seus livros, e “Esquisita é a Tua Vó” ganhou uma apresentação teatral. Mas, apesar do reconhecimento literário, é no contato direto com o público que Cadu se sente completo.
“Todo evento literário é um espaço de encontro. A Feira do Livro de Porto Alegre tem algo especial, um espírito de comunidade. É sempre um privilégio participar”, diz.
Apesar de estar presente na Feira todos os anos, o brilho nos olhos diante das crianças segue intacto. Neste ano, o registro foi de desenhos improvisados e conversas que só surgem quando um autor se mistura entre seus leitores. “Autografar na Feira é reencontrar quem acompanha meu trabalho. É sempre um momento muito feliz”, afirma.
A presença da literatura infantojuvenil em grandes eventos, segundo ele, cumpre uma função decisiva. “A troca entre leitores e autores estimula cultura, imaginação e pertencimento. E a Feira do Livro de Porto Alegre é um espaço que defende isso há décadas.”
Contudo, sua participação na Feira do Livro da capital gaúcha é apenas uma parte do trabalho realizado pelo autor. Há mais de 20 anos, ele circula por escolas de todo o país, levando palestras, oficinas e encontros que se transformaram em sua marca registrada.
Com o tempo, veio também um aprendizado pessoal: “No começo, eu falava demais. Hoje, prefiro escutar”, conta. Em suas Oficinas de Criatividade, ele desenha a partir das ideias dos alunos.
“Vejo meu papel como o de alguém que incentiva a imaginação. Eu convido o estudante a criar.”
Essa postura dialoga com a educação atual, cada vez mais voltada à autonomia dos jovens. Cadu também costuma lembrar que o incentivo à leitura começa dentro de casa. “É difícil uma criança querer ler quando todo mundo em volta está sempre no celular”, observa. Para ele, o contato com o livro físico é uma experiência essencial. Em um país onde a alfabetização ainda enfrenta obstáculos, ele acredita na literatura como uma faísca capaz de iluminar.
“A arte tempera o aprendizado. Quando descoberta na infância, acompanha a pessoa para sempre.”
Para ele, escrever para crianças e adolescentes é um exercício de delicadeza. “O desafio é transmitir grandes ideias de forma simples, sem transformar o vocabulário em uma barreira.” A recompensa, no entanto, compensa tudo: “Ver nos leitores aquela alegria verdadeira pela leitura.”
Nas feiras e nos corredores escolares, Cadu coleciona encontros que o marcaram. Ele recorda, emocionado, o relato de uma mãe: seu filho, em tratamento para depressão, encontrou conforto em um de seus livros. “Eu escrevi aquela história apenas para ser divertida e repleta de aventura. Essa é a faceta mais rica da arte: nunca sabemos a importância que uma obra terá para alguém.”
Para o escritor, aproximar autores do ambiente escolar é um gesto transformador. “Quando as crianças conhecem quem criou o livro, percebem que também podem criar. Isso fortalece a autoestima e abre um caminho de descobertas em um mundo que, muitas vezes, só nos pede para consumir.”
"Eu me convidaria para desenhar”
Questionado sobre o que diria ao seu “eu” criança, responde com simplicidade: “Acho que eu me convidaria para desenhar. Desenhar juntos é muito legal.” Cadu acredita que olhar para a criança como alguém em plena descoberta, e não como projeção de expectativas adultas, é fundamental. E deixa um conselho aos pais, professores e leitores: “Permitir que o jovem escolha o que quer ler é permitir que a leitura seja prazer, não obrigação.”
Entre oficinas, encontros e muitas histórias, Carlos Augusto Pessoa de Brum segue fazendo aquilo que o tornou querido por pessoas de várias gerações: transformar literatura em ponte, imaginação em diálogo e infância em território de criação. E, enquanto houver uma criança disposta a imaginar, o “Cadu dos Livros” seguirá abrindo cadernos, rabiscando mundos e convidando leitores para criar ao seu lado.
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*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier