Oficina de Jornalismo

Em busca de novos leitores

Com 75 livros publicados e presença marcante em escolas e feiras literárias, o autor e ilustrador Carlos Augusto Pessoa de Brum reafirma a força da literatura infanto-juvenil na formação de leitores desde cedo

Cadu, ao lado do escritor Fernando Cafferati, em sessão de autógrafos na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre
Cadu, ao lado do escritor Fernando Cafferati, em sessão de autógrafos na 71ª Feira do Livro de Porto Alegre Foto : Arquivo Pessoal / CP

Por Yasmin Reinehr (PUCRS)*

Referência na literatura para crianças e jovens, “Cadu dos Livros” voltou a ocupar o coração da Feira do Livro de Porto Alegre em 2025. Na sessão de autógrafos realizada em 8 de novembro, ele celebrou não apenas as obras “Muitas Histórias, Nenhuma Palavra”, “Desenhos, Dibujos, Drawings” e “Capitão Caoelho e o Tesouro Perdido”, mas a própria essência do que move sua trajetória: a arte como maneira de encantar, acolher e abrir portas para novos mundos.

Ilustrador e escritor de histórias, Cadu já ultrapassou a marca de 70 livros publicados, muitos protagonizados pelo pequeno Cadu e seu parceiro imaginário, Pino. O apelido que o acompanha nasceu justamente deste encontro com os pequenos leitores: as crianças começaram a chamá-lo de “Cadu dos Livros”, e ele nunca mais utilizou outro nome.

Ao longo de sua carreira vem construindo obras que celebram a criatividade, a descoberta e o olhar curioso dos mais jovens. Autores como Lya Luft, Moacyr Scliar, Alexandre Brito, Dilan Camargo e Luiz Antônio de Assis Brasil já apresentaram seus livros, e “Esquisita é a Tua Vó” ganhou uma apresentação teatral. Mas, apesar do reconhecimento literário, é no contato direto com o público que Cadu se sente completo.

“Todo evento literário é um espaço de encontro. A Feira do Livro de Porto Alegre tem algo especial, um espírito de comunidade. É sempre um privilégio participar”, diz.

Apesar de estar presente na Feira todos os anos, o brilho nos olhos diante das crianças segue intacto. Neste ano, o registro foi de desenhos improvisados e conversas que só surgem quando um autor se mistura entre seus leitores. “Autografar na Feira é reencontrar quem acompanha meu trabalho. É sempre um momento muito feliz”, afirma.

A presença da literatura infantojuvenil em grandes eventos, segundo ele, cumpre uma função decisiva. “A troca entre leitores e autores estimula cultura, imaginação e pertencimento. E a Feira do Livro de Porto Alegre é um espaço que defende isso há décadas.”

Contudo, sua participação na Feira do Livro da capital gaúcha é apenas uma parte do trabalho realizado pelo autor. Há mais de 20 anos, ele circula por escolas de todo o país, levando palestras, oficinas e encontros que se transformaram em sua marca registrada.

Com o tempo, veio também um aprendizado pessoal: “No começo, eu falava demais. Hoje, prefiro escutar”, conta. Em suas Oficinas de Criatividade, ele desenha a partir das ideias dos alunos.

“Vejo meu papel como o de alguém que incentiva a imaginação. Eu convido o estudante a criar.”

Essa postura dialoga com a educação atual, cada vez mais voltada à autonomia dos jovens. Cadu também costuma lembrar que o incentivo à leitura começa dentro de casa. “É difícil uma criança querer ler quando todo mundo em volta está sempre no celular”, observa. Para ele, o contato com o livro físico é uma experiência essencial. Em um país onde a alfabetização ainda enfrenta obstáculos, ele acredita na literatura como uma faísca capaz de iluminar.

“A arte tempera o aprendizado. Quando descoberta na infância, acompanha a pessoa para sempre.”

Para ele, escrever para crianças e adolescentes é um exercício de delicadeza. “O desafio é transmitir grandes ideias de forma simples, sem transformar o vocabulário em uma barreira.” A recompensa, no entanto, compensa tudo: “Ver nos leitores aquela alegria verdadeira pela leitura.”

Nas feiras e nos corredores escolares, Cadu coleciona encontros que o marcaram. Ele recorda, emocionado, o relato de uma mãe: seu filho, em tratamento para depressão, encontrou conforto em um de seus livros. “Eu escrevi aquela história apenas para ser divertida e repleta de aventura. Essa é a faceta mais rica da arte: nunca sabemos a importância que uma obra terá para alguém.”

Para o escritor, aproximar autores do ambiente escolar é um gesto transformador. “Quando as crianças conhecem quem criou o livro, percebem que também podem criar. Isso fortalece a autoestima e abre um caminho de descobertas em um mundo que, muitas vezes, só nos pede para consumir.”

"Eu me convidaria para desenhar”

Questionado sobre o que diria ao seu “eu” criança, responde com simplicidade: “Acho que eu me convidaria para desenhar. Desenhar juntos é muito legal.” Cadu acredita que olhar para a criança como alguém em plena descoberta, e não como projeção de expectativas adultas, é fundamental. E deixa um conselho aos pais, professores e leitores: “Permitir que o jovem escolha o que quer ler é permitir que a leitura seja prazer, não obrigação.”

Entre oficinas, encontros e muitas histórias, Carlos Augusto Pessoa de Brum segue fazendo aquilo que o tornou querido por pessoas de várias gerações: transformar literatura em ponte, imaginação em diálogo e infância em território de criação. E, enquanto houver uma criança disposta a imaginar, o “Cadu dos Livros” seguirá abrindo cadernos, rabiscando mundos e convidando leitores para criar ao seu lado.

A Oficina de Jornalismo - Talentos do Futuro - é uma realização do Correio do Povo com o patrocínio da Corsan. Nossa natureza movimenta o Rio Grande. Apoios Ulbra "É Ultra, é Única, é Ulbra" e CIEE-RS "somos integração, inovação e possibilidades".

*Supervisão Luciamem Winck e Mauren Xavier

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