Especial

Extremismo digital avança entre os adolescentes

Foto : Alina Souza

Parte I
Parte II
Parte III
Parte IV
Parte V
Parte VI

Parte I – Diário e assustador

Há algumas semanas, ainda em agosto, o alerta na equipe do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve), do Ministério Público do RS, voltou a soar alto. O monitoramento nas redes sociais havia captado mais um caso grave. Em uma transmissão online, uma adolescente se automutilava como parte de um desafio lançado entre os integrantes de seu grupo virtual. O objetivo, em tese, não era tirar a própria vida, mas a violência era tamanha que, intencionalmente ou não, a tragédia se avizinhava.

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A urgência da situação era tal que os minutos pareciam ter bem menos do que 60 segundos. Em uma corrida contra o tempo, a equipe de promotores e servidores do Núcleo tentava contato com a plataforma utilizada pela jovem. Quando a conexão entre as partes foi enfim estabelecida, a transmissão foi interrompida de forma rápida. Sem plateia, o ato perdeu sua razão de ser e parou por ali. O desafio estava encerrado e, assim, a vida da menina havia sido salva. Contudo, por mais eficiente que tivesse sido a atuação, os integrantes do Nupve não se iludiam. Mais alertas como este logo apareceriam. Ao contrário da maioria das pessoas, eles sabem que esses casos têm sido cada vez mais frequentes.

“É um problema diário. Diário e assustador”, observa o procurador de Justiça Fábio Costa Pereira, coordenador do Núcleo. “Nós temos 270 casos que chegaram desde janeiro. Ou seja, é mais de uma denúncia por dia”, corrobora o promotor de Justiça Leonardo Rossi, titular da Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital (Proeve). Compreender o que leva ao crescimento desses grupos de extrema violência nas redes sociais é complexo porque implica, antes de mais nada, mergulhar em uma realidade na qual várias regras e conceitos impostos pela sociedade não se aplicam.

A própria definição de vítima, por exemplo, é uma imensa área cinzenta. Os rótulos de “bom” e “mau” se confundem, na medida em que os papéis são movediços: ora se está de um lado, ora de outro. Há casos em que existe, sim, uma espécie de aliciamento. Mas há também muitos adolescentes que não entram nos grupos de forma passiva, são eles que buscam tais comunidades, cientes do seu conteúdo nada recomendável. Uma vez lá dentro, a moeda de troca é sempre a mesma: agressividade, seja contra quem for, inclusive contra si. “Para se destacarem na subcultura em que estão inseridos, a dor, o sadismo e a violência desmedida tornam-se as grandes moedas sociais. É por isso que as pessoas ouvem falar tanto hoje em suicídio performático, automutilação e sadismo”, explica Pereira.

A banalização da violência nestes casos, assim como a presença de um discurso de ódio, não chega a ser novidade.

“Isso sempre existiu. O que vemos hoje são cada vez mais fragmentações desse discurso: pessoas com discurso de ódio de cunho racial, religioso, de gênero, com ações e perspectivas misóginas, e outras com um discurso focado em provocar o dano e a dor em outras pessoas”, explica Emerson Wendt, delegado e ex-Chefe da Polícia Civil no RS e especialista na área da cibersegurança.

O que surge como novo no cenário são as mudanças no perfil dos integrantes. De acordo com dados do monitoramento do Nupve, até 2024 e 2025, 80% dos integrantes eram adolescentes e destes, 20% eram mulheres. De um ano para cá, a proporção de adolescentes aumentou para 96%. “As meninas se mantêm na faixa dos 20%, mas com um dado extremamente preocupante: elas estão entrando nesse meio cada vez mais violentas, agindo contra si mesmas e contra os outros, algo que era muito raro até 2023”, revela Fábio Pereira. Para piorar a situação, a faixa etária tem se concentrado entre os 12 e 16 anos. Ou seja, o início tem sido cada vez mais jovem.

Outro elemento que traz mais complexidade ao tema é a ausência de um vetor específico para tanto ódio. Ao contrário do que muitos pensam, dentro dos grupos a ideologia política é um tema que passa quase que completamente batido, mesmo em tempos polarizados. Da mesma forma, não há distinções financeiras. “Como os adolescentes virtualizaram suas vidas, a classe social não importa. A moeda corrente apreciada nesse universo virtual não é o dinheiro ou o modelo de iPhone que você possui, até porque os outros nem conseguem ver isso. O prestígio, o hype é extraído pelo seu nível de sadismo e pela quantidade de violência que você espalha”, aponta o coordenador do Núcleo.

Parte II - Dois mundos, um mundo

Antes de virar caso no Ministério Público, a violência que circula nos grupos conquistou espaço entre os jovens sob o disfarce de piada. Ofensas que começam por memes, perseguições justificadas pela zoeira e um clima de brincadeira que torna aceitável o que seria inadmissível fora das telas. Foi assim com Felipe*, que passou a adolescência em plataformas de conversa online e conheceu de perto a banalização da perversidade e a tolerância ao discurso de ódio.

Com os amigos que fez jogando ainda criança, as interações começaram no game Minecraft, depois avançaram para o Skype e acompanharam a migração para o Discord quando a plataforma se popularizou no Brasil. Os encontros por voz, texto e, às vezes, vídeo passaram a fazer parte da rotina da turma que, em parte, não se conhece pessoalmente até hoje. A convivência não tinha nada de excepcional para eles. Era simplesmente a forma como as amizades aconteciam.

Para uma geração que cresceu sem conhecer o mundo antes das telas, a fronteira entre o que acontece dentro e fora delas sempre foi nebulosa. A psicóloga clínica e psicanalista Rosane Pereira ressalta, entretanto, que isso não é exclusividade dos mais jovens. A diferença está em como cada idade atribui peso às experiências, algo que vai se ajustando ao longo da maturidade. Essa fronteira, porém, deixou de ser tão óbvia também para os adultos, que passaram a organizar trabalho, afetos e parte da vida prática por meio de aplicativos.

“A gente fala hoje de um cérebro híbrido, no qual todos nós estamos sendo ativados de uma forma mista. Não há mais uma diferença nítida entre o que é real e o que é virtual. Isso já é um consenso na literatura científica, pois as experiências que ocorrem no ambiente virtual também são reais”, explica ela, também coordenadora do Núcleo de Adições Tecnológicas do Instituto Contemporâneo.

Se a experiência vivida diante de uma tela não é percebida pelo adolescente como menos real, a internet também passa a ocupar um espaço importante na construção de suas relações. E há, ali, algumas facilidades que a convivência presencial nem sempre oferece. O distanciamento pode fazer com que a timidez pese menos e as conversas, assim, fluam com maior facilidade. Um jovem que teria dificuldade para puxar assunto cara a cara encontra no chat de uma partida, em um servidor ou em uma rede social alguém disposto a falar justamente daquilo que ele mais gosta. Sem os constrangimentos, inseguranças e estranhezas das relações sociais ao vivo, o online se transforma em um espaço confortável para se abrir e se conectar com quem compartilha os mesmos interesses, o que, na adolescência, não é pouca coisa.

Ainda que já fizesse parte da rotina, o processo de “virtualização da vida”, como define Fábio Pereira, ganhou uma dimensão inédita em 2020, com a pandemia. Naquele ano, o ambiente digital passou a hospedar a maior parte das dinâmicas sociais em todo o mundo: das aulas ao trabalho, das consultas médicas aos momentos de afeto, quase tudo dependia de uma tela. Durante meses, a internet deixou de ser apenas um dos espaços de convivência para se tornar, para grande parte das pessoas, praticamente o único possível.

| Foto: Leandro Maciel

A psicóloga e psicanalista de infância e adolescência Rosangela Costa acrescenta uma camada menos evidente a esse fenômeno coletivo, vivido ao mesmo tempo por pessoas de idades diferentes e processado de maneiras distintas: a noção de tempo.

“A pandemia afetou a todos nós, e quando ocorre um fenômeno cultural dessa magnitude, misturam-se os efeitos do passado, do presente e do futuro. Para o adolescente, essa discriminação de tempo não é clara”, afirma.

Para Felipe, hoje com 22 anos, e seus amigos, porém, o efeito imediato parecia bem menos complexo. “Trancados na frente do computador”, como ele descreve, com tempo de sobra e pouca coisa acontecendo do lado de fora, passaram a procurar novidades dentro da própria rede. Foi nessa busca que alguns deles encontraram o que o jovem descreve como um lado mais sombrio do espaço virtual. Também foi naquele mesmo ano que ele recebeu o primeiro banimento de um servidor do Discord, após denunciar as ofensas que vinha sofrendo ali.

Dentro das comunidades, até então, algumas piadas passavam como zumbido. Comentários ofensivos eram ignorados em nome da harmonia e da diversão que o grupo representava, e reclamar parecia mais custoso do que deixar passar. Além da própria experiência, Felipe acompanhava o movimento em diversos servidores nos quais a agressividade vinha sendo tratada como entretenimento. Até que, em determinado momento, passou a ser o alvo, com xingamentos que não eram limitados a ele.

“Eram ofensas de todo tipo. ‘Vou estuprar a tua mãe’, ameaças a crianças, geralmente coagindo e querendo alguma coisa. Eu, quando menor, já tive conta roubada porque fui coagido e fiquei com medo”, revela. Ainda que no ambiente virtual as tentativas de constrangimento e intimidação fizessem parte de uma espécie de jogo de provocação, para quem estava do outro lado, as consequências eram bastante reais. Foi justamente ao expor esse tipo de comportamento que veio o banimento, aplicado logo por um moderador do servidor que, em tese, deveria conter os excessos, mas que, na prática, estava entre os que ofendiam.

Aos poucos, o que parecia apenas um comportamento adolescente exagerado foi ganhando uma linguagem própria.

“A sanidade de todo mundo já não estava muito boa. Eu sempre tive noção do que é certo ou errado. E ali comecei a ver se proliferar umas ideias muito erradas”, lembra.

Declarações criminosas envolvendo nazismo, racismo, homofobia e misoginia circulavam com normalidade entre os discursos e não era necessário sequer conhecer a pessoa atingida. Os participantes lançavam expressões racistas contra alguém cuja aparência, origem ou história nem podiam ver, pois do outro lado da tela havia apenas um nome de usuário.

Felipe não demorou a perceber que aquela lógica ultrapassava as ofensas “casuais” com as quais estava acostumado. As piadas passaram a se concentrar cada vez mais na agressão contra minorias. “Para eles, virou um hobby”, relata. Quanto mais extremo o conteúdo, maior parecia ser o interesse dos integrantes. O que para quem enxergava de fora ainda poderia parecer brincadeira de mau gosto, já funcionava, para quem estava dentro, como forma de ocupar espaço e ganhar atenção.

Era uma escala pequena diante das centenas de casos que chegam ao Ministério Público, mas guardava os mesmos elementos que aparecem nas ocorrências mais graves. Um grupo de adolescentes reunido em torno de uma tela, a violência convertida em diversão e a necessidade de ultrapassar limites. Felipe relata que, em um dos servidores em que participava, com cerca de 20 outras pessoas, as madrugadas eram sempre parecidas: jogos, conversas e, no momento em que o tédio batia, alguém aparecia com um link de outra comunidade organizando “raids”. Em poucos minutos, invadiam canais de áudio, importunando e proferindo xingamentos.

Segundo ele, alguns dos agressores reconheciam a vulnerabilidade dos grupos que escolhiam e se aproveitavam disso. As invasões podiam começar em tom passivo-agressivo, quase como quem quer conversa, mas terminavam frequentemente em pedidos que mais funcionavam como ordens, feitas para que o alvo passasse vergonha diante de todos ou para incentivá-lo a atos extremos. Em comunidades mais estabelecidas, as técnicas são conhecidas. “Essas organizações utilizam manuais estruturados que ensinam técnicas de aliciamento (grooming) para criar uma dependência emocional e uma escravização psicológica profunda na vítima. O aliciador se torna o centro do universo daquele adolescente, que passa a fazer qualquer coisa para não ser rejeitado ou descartado”, afirma o promotor de Justiça Leonardo Rossi.

A violência também não se encerrava no ao vivo. Felipe conta que havia uma cultura forte de registrar aqueles momentos em capturas de tela e as imagens voltavam a circular várias vezes como uma espécie de prêmio para quem tivesse conseguido levar a vítima até ali. Ele ressalta que nunca entrou nessas chamadas, mas conta que um conhecido esteve presente durante um ato de automutilação e relatou a história. No começo, não acreditou. Achou que era conversa para contar vantagem, descrevendo algo maior do que era, mas não.

| Foto: Leandro Maciel

Parte III - Sem fronteiras

Não foi o primeiro ataque do tipo no país, mas quando um homem invadiu uma creche em Blumenau, em abril de 2023, matou quatro crianças entre 4 e 7 anos e deixou outras cinco feridas, a pressão sobre as autoridades para que algo mais efetivo fosse feito tomou outra dimensão. As discussões, principalmente no âmbito da Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) e do Conselho Nacional de Procuradores-Gerais de Justiça (CNPG), deram origem, no Rio Grande do Sul, ao Núcleo de Prevenção à Violência Extrema (Nupve).

A estrutura foi inicialmente dividida em duas frentes: estratégica e operacional. À primeira, cabe o desenvolvimento de projetos e ferramentas que auxiliem na rotina diária. A segunda fica com a questão prática e atua na prevenção de atentados a escolas, assim como na identificação de crimes de violência extrema no mundo virtual. As mudanças mais recentes no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA Digital) ampliaram de tal forma as atribuições que, em agosto, por iniciativa do Procurador-Geral de Justiça do MPRS, Alexandre Saltz, o braço operacional tornou-se a Promotoria de Justiça de Enfrentamento à Violência Extrema e ECA Digital (Proeve), conduzida pelos promotores de Justiça Leonardo Rossi e Rodrigo Mendonça.

À frente de uma equipe ainda reduzida, ambos lidam com um tipo de violência que uma parcela significativa dos adultos tem dificuldade de entender: as comunidades de niilistas extremistas violentos, onde o ódio impera sem justificativa.

“Nesses grupos virtuais, o prêmio máximo ou o fator de maior status é conseguir induzir um dos integrantes do próprio grupo ao suicídio”, conta Rossi, que logo completa: “E em 99%, para não dizer 100% dos casos, os pais não faziam a menor ideia do que os filhos estavam fazendo na internet”.

A morte é o destino mais trágico nesses círculos, mas aparece com bem menos frequência do que outras situações, como indução à automutilação e violência contra animais ou planos de ataque a escolas ou outras instituições. Para que se tenha ideia da proximidade do problema, apenas este ano, o Nupve conseguiu intervir e impedir 26 casos iminentes no Rio Grande do Sul que levariam a fatalidades. Os limites no mapa, no entanto, pouco valem quando se fala de uma convivência virtual, na qual as fronteiras já não mais existem. “Só descobrimos se o agressor está no Rio Grande do Sul, Santa Catarina ou São Paulo depois. Se pararmos para discutir competência geográfica antes de agir, nós perdemos a vida do jovem”, explica Fábio Pereira.

Um bom exemplo da Pangeia em que se transformou a esfera virtual foi visto em abril. Ao investigar um adolescente no Estado, os promotores descobriram que ele mantinha conversas com um jovem na Europa, que tentava convencer o brasileiro a, junto com ele, coordenar um ataque simultâneo a mesquitas. Com as informações em mãos, as autoridades entraram em contato com a Europol (Agência da União Europeia para a Cooperação Policial). “Passamos os dados e os dois planos foram contidos, lá e aqui. Não tínhamos a localização exata do outro rapaz, mas sabíamos que era no Leste Europeu. Depois, a Europol nos passou que o outro adolescente estava no Kosovo”, conta Mendonça.

Chegar aos casos, contudo, nunca é fácil, dado o escopo do tema. Para o MPRS investigar os casos, geralmente são dois os caminhos possíveis. Um deles são as denúncias que chegam por uma rede de contatos preparada para identificar sinais. O outro são as redes de monitoramento, como a do próprio Nupve ou do Laboratório de Operações Cibernéticas (Ciberlab), vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Ambos utilizam metodologias que identificam eventuais riscos. “Por questões operacionais, as técnicas não são divulgadas”, informa a assessoria do Ciberlab, que indica apenas que o trabalho busca identificar padrões de comportamento, assim como formas de organização e interação entre os integrantes, além de estratégias utilizadas para dificultar o trabalho policial. “A análise não se limita a um conteúdo isolado. O objetivo é compreender o contexto, as conexões entre os envolvidos e o modo de atuação dos grupos, qualificando as informações e auxiliando as polícias estaduais nas investigações e na identificação dos responsáveis”, complementa.

No Nupve, o monitoramento acontece por turnos. Sob a condição de anonimato, a pessoa responsável aceitou falar com a reportagem e explicar um pouco mais da dinâmica, que consiste em ligar os pontos.

“Não é uma palavra ou um conteúdo isolado que determina o risco, mas a combinação entre discurso, comportamento, relações e contexto. Por exemplo, glorificação de ataques e de perpetradores, desumanização de determinados grupos, incentivo ou normalização da violência (incluindo a autodirecionada), busca por status dentro da subcultura, isolamento, coerção, zoosadismo, recrutamento e sextorsão”, explica.

Parte IV - Pertencimento

Promotores, psicólogas e educadores ouvidos pela reportagem convergem para a mesma resposta quando questionados sobre o que mantém um adolescente nesses círculos violentos: senso de pertencimento. “Eles começam a validar discursos extremistas, a ganhar uma sensação de pertencimento e, para continuar pertencendo a esse grupo, passam a reverberar ainda mais ódio, que é a moeda apreciada ali”, observa o coordenador do Nupve, Fábio Pereira.

Como lembra o professor do Colégio Anchieta, Thiago Gruner, a internet não inventou a necessidade de pertencer a uma comunidade, mas “opera e potencializa ao extremo essa mesma lógica humana”, para o bem e para o mal. “Por um lado, é uma ferramenta magnífica, pois permitiu unir pessoas em torno de interesses e hobbies extremamente específicos e saudáveis. Por outro, essa mesma estrutura técnica é capaz de gerar processos violentos de exclusão, bolhas sectárias e reforçar severamente tendências comportamentais extremamente nocivas e autodestrutivas.”

Essa busca pode estar relacionada à experiência da adolescência, marcada por medo, solidão, desorganização e confusão. “O acesso constante à rede funciona como uma busca por acalanto, por uma vida mais leve”, afirma. É nesse terreno de vulnerabilidade que, para Rosangela Costa, o ódio pode cumprir uma função inesperada e funcionar como um escudo.

“O ódio passa a ser uma defesa para se sentir pertencente a algum lugar, nem que seja pelo sentimento compartilhado de desvalia ou por meio de um grupo violento”, afirma.

A identificação tampouco precisa começar pela adesão ativa e consciente a uma ideologia. Uma rejeição, uma frustração ou a sensação de não se encaixar encontram, nesses espaços, explicações e conceitos prontos, além de outras pessoas dispostas a confirmá-los. Logo, a experiência individual vira argumento coletivo baseado em discursos de ódio contra determinados círculos sociais. “Muitas vezes eles nem se apropriam, eles só reproduzem”, observa a psicóloga Indianara Sehaparini. O que sustenta essa reprodução é também a própria dinâmica do grupo, pois, para permanecer nele, é preciso falar sua linguagem, compartilhar as referências e, em alguns casos, demonstrar até onde se está disposto a ir. “Para continuar dentro desse grupo, tu tens que te provar”, explica a doutoranda em psicologia na Ufrgs, que integra o Núcleo de Pesquisa e Intervenção em Famílias com Bebês e Crianças (Nufabe).

Para Fábio Pereira, essa dinâmica ajuda a explicar por que a radicalização não depende necessariamente de uma liderança ou de uma estrutura organizada para acontecer. O vínculo se forma de maneira muito mais espontânea do que a ideia de recrutamento costuma sugerir. “Você está procurando uma entidade recrutadora organizada, como se fosse um CNPJ, mas isso não existe”, afirma. “Um adolescente com muito ódio no coração, agindo por impulsividade, o que é normal na adolescência, vê um post de que não gosta no TikTok ou no Instagram e escreve um comentário extremamente ofensivo, misógino, racista ou antissemita. Outro jovem que compartilha desse mesmo sentimento de isolamento e rejeição social lê e diz: 'Cara, em ti eu me reconheço'. Eles se conectam”, descreve. A partir dali, a conversa pode sair do espaço público, migrar para mensagens diretas ou servidores do Discord. Nesses espaços, longe da exposição inicial, os jovens passam a validar uns aos outros e a encontrar uma comunidade para aquilo que sentem.

| Foto: Leandro Maciel

Os algoritmos também possuem um papel importante nesse processo. Segundo Indianara, nem sempre a interação inicial com um conteúdo significa interesse ou concordância; porém, a atenção retida em uma publicação, ainda que provocada pelo choque, pode ser interpretada pelo sistema como sinal de interesse e acabar devolvendo o usuário ao “scroll infinito” com recomendações semelhantes. A partir daí, quanto mais ele vê, mais tende a receber. Esses espaços podem ser nomeados como “ecossistemas de pertencimento”, explica Rosane, nos quais pessoas que compartilham determinadas dores e experiências acabam reunidas em torno das mesmas referências.

Na outra ponta dessa dinâmica, quem acompanhou essa espiral de perto sabe que sair dela não é um caminho simples. Ao tentar explicar por que cortar os laços com esses espaços é tão difícil para quem cai neles, Felipe destaca: “A carência de alguns jovens é tão profunda que eles aceitam permanecer nesses ambientes mesmo sendo humilhados, apenas para não ficarem sozinhos. Funciona como um relacionamento tóxico”.

É nesse ambiente de repetição e validação que, segundo Indianara, os conceitos podem acabar sendo incorporados também à vida “real”. Felipe conta, com pesar, a história de um amigo que conhece desde a infância. Os dois cresceram jogando juntos, mas a relação foi se desgastando à medida que Arthur* passou a assumir novos comportamentos. O que Felipe define como “dementação” começou com piadas aparentemente inofensivas e foi escalando. Vieram os ataques de raiva nos jogos, muitos acompanhados de comentários racistas e referências nazistas, e depois os próprios marcadores passaram a aparecer no nome de usuário que o colega adotava nas plataformas.

Para Felipe, a maioria dos integrantes dessas comunidades não tem uma compreensão elaborada daquilo que reproduz. “Eles apenas replicam o comportamento do grupo”, diz. Ainda assim, a repetição imprime marcas. “Isso deixa sequelas gravíssimas na forma como a pessoa passa a enxergar o mundo”, alerta. Em 2023, Arthur percebeu até onde aquilo havia chegado. Em uma conversa com o amigo, contou que havia sentido nojo de uma pessoa na rua apenas por causa da cor da pele. Foi quando se deu conta de que havia de fato sido radicalizado e que “as brincadeiras tinham se tornado racismo real”.

Parte V - Espetáculo

Um dos equívocos mais comuns quando se trata dos casos de extrema violência nas redes e plataformas digitais envolvendo adolescentes é supor que tudo acontece de forma secreta. Ainda que uma parcela significativa ocorra em grupos fechados, muito dessa relação fica mais perto do que se imagina. “Está tudo à mostra. Quando as pessoas pensam em radicalização e extremismo, imediatamente associam à dark web ou à deep web, mas a verdade é que eles atuam na surface web”, revela o promotor Leonardo Rossi, referindo-se à internet comumente usada por todos no dia a dia.

O destemor dos jovens se baseia em alguns alicerces, frágeis ou não. O primeiro deles está ligado ao volume de informações. As redes sociais movimentam um fluxo constante de dados tão alto que há uma crença de que a probabilidade de suas publicações e transmissões chegarem às autoridades é muito pequena. Como complemento, há técnicas que tentam driblar o monitoramento. “Eles utilizam códigos, trocam letras por números e empregam emojis específicos para camuflar o teor das conversas. Além disso, migram suas interações para plataformas com criptografia de ponta a ponta, como canais fechados no Telegram, Discord, servidores no Twitch ou fóruns no 4chan”, explica o promotor Rodrigo Mendonça.

Mar calmo, no entanto, nunca fez bom marinheiro. E é justamente essa confiança exacerbada que muitas vezes deixa brechas.

“Não existe 100% de segurança e nem 100% de anonimato na internet. Depende de vários vetores. O ser humano é um animal de hábitos, ele tem uma rotina e, mesmo quando desvia dela, deixa rastros. A internet e a comunicação digital potencializam esses rastros no próprio dispositivo, nas aplicações ou na nuvem. O grande desafio da investigação é encontrar o padrão de conduta. Encontrando o padrão, consegue-se estabelecer um bom resultado”, conta o delegado Emerson Wendt.

A questão, entretanto, traz mais camadas de complexidade. Ser descoberto pelas autoridades pode frustrar planos, mas também agregar status dentro da comunidade que, de um modo enviesado, encara aquele jovem como herói. Não por acaso, principalmente nos casos ligados a ataques a escolas, há uma exaltação de criminosos que perpetraram tragédias semelhantes. As vestimentas utilizadas pelos responsáveis do massacre de Columbine, em 1999, nos Estados Unidos, por exemplo, são replicadas até hoje nestes grupos, inclusive no Rio Grande do Sul. Em outro caso, um indivíduo detido no Estado não negou seus atos, nem seus planos. Sua primeira pergunta ao delegado, contudo, foi: “A que horas é a minha entrevista para a imprensa?” Não houve entrevista.

A lógica é parecida para o adolescente que aceita se automutilar ou, em casos extremos, tirar a própria vida em uma transmissão ao vivo. Aqui, é o sofrimento que serve de degrau na busca pelo status. “Vivemos a sociedade do espetáculo, na qual o indivíduo corre o risco de desumanizar-se ao transformar a sua própria dor em entretenimento midiático para terceiros”, aponta a psicóloga Rosangela Costa, visão corroborada pela colega de profissão Indianara Sehaparini: “Esses atos são celebrados, são colocados como: ‘Uau, olha o que você fez’. É justamente onde existe esse perigo maior e esse incentivo maior para isso continuar.”

Seja qual for a intenção ou o status, todos os casos que chegam ao conhecimento do Nupve são investigados. O processo consiste em algumas frentes. Uma demanda um levantamento do histórico familiar e escolar do jovem em questão e posterior análise do conteúdo nas redes sociais. “Se identificamos que o nível de risco é baixo, a abordagem foca no acompanhamento ou em uma entrevista técnica diretamente conosco”, explica Mendonça. Se não for tão baixo assim, o caso pode dar origem a um pedido de busca e apreensão para uma investigação mais avançada.

Vale para uma entrevista com promotores, uma visita inesperada das forças de segurança ou uma situação mais trivial no cotidiano escolar. Todas cristalizam um termo que nem sempre é de fácil compreensão para os jovens no trajeto de volta do mundo virtual para o real: responsabilização. Compreender que a realidade não é uma terra sem lei tende a ser para os adolescentes um desafio menos óbvio do que imaginam seus pais e familiares.

“Para muitos alunos, essa perspectiva de responsabilidade legal e moral é uma grande novidade. De certa forma, é uma novidade para nós adultos também, mas é sobretudo uma novidade para eles”, afirma o professor Thiago Gruner. “Eles ficam impressionados ao entender que existem consequências reais que eles e a família terão de enfrentar”, confirma Sabrina Garbelotto, orientadora educacional dos anos iniciais no Colégio Marista Rosário.

Se essa é a visão de quem está de fora, a de quem estava dentro não muda muito. “Ninguém achava que ia dar nada”, revela Felipe. Passados alguns anos desde que deixou de frequentar aquelas comunidades virtuais, a leitura é um retrato que só o afastamento e o tempo proporcionam: “Eu não tinha dimensão de que aquilo ganharia proporções reais fora da tela. Achava incômodo e chato, mas pensava que era apenas comportamento de adolescente fazendo besteira”. De acordo com ele, entretanto, o cenário ainda é preocupante, já que ao final da pandemia, com a volta de um convívio maior em sociedade, algumas atitudes foram percebidas como inaceitáveis. Ocorre que em vez de sumirem, apenas trocaram de lugar. “O problema migrou para bolhas ainda mais fechadas, restritas e odiosas”, aponta.

| Foto: Leandro Maciel

Parte VI - Esperança

Há entre os especialistas no tema da violência extrema uma expressão que dificilmente não será citada ao longo de uma entrevista: “Triângulo Maldito”. São três características que, quando combinadas, aumentam consideravelmente a possibilidade de que o discurso de ódio seja abraçado por aquele jovem. Uma delas é o histórico de uma família disfuncional, incapaz de identificar e/ou lidar com o sofrimento da criança; outra é o excesso de tempo de tela sem mediação dos pais; e, por fim, o bullying, no qual a vítima é empurrada para o isolamento. “Em absolutamente todos os nossos casos graves investigados, esses três fatores estavam integralmente presentes”, revela o coordenador do Nupve, procurador Fábio Costa Pereira.

Não é possível mensurar o peso de cada um dos três aspectos citados. Existe, contudo, um consenso de que a solução passa por campanhas eficazes contra o bullying.

“A tristeza decorrente de ver que milhares de pessoas não te curtiram, que milhares te deletaram ou que estão na rede te desprezando é real. A potência dessa dor e dessa tristeza é absolutamente real, mesmo que as suas circunstâncias de origem sejam virtuais ou ilusórias”, explica Rosangela Costa.

Diante de um cenário em que o cinza é bem mais presente do que o preto ou o branco, a abordagem das autoridades junto aos adolescentes não segue o mesmo modelo que seria utilizado com outro tipo de criminoso. Aqui, é levado em conta o risco de que um jovem fique rotulado frente a uma sociedade que espera dele ressocialização. “Para os casos graves, desenvolvemos um protocolo chamado ‘Cumprimento sem Dano’, que é totalmente diferente de uma operação policial invasiva tradicional. Nos deslocamos em carros descaracterizados e com equipes reduzidas para evitar a estigmatização do adolescente. Chegar com viaturas ostensivas e armas em punho em uma rua residencial poderia arruinar a vida dele perante a comunidade, e a maioria dos casos não exige esse nível de força ostensiva”, conta Mendonça.

Nos mais de três anos de atuação do Nupve, a experiência tem mostrado que as taxas de ressocialização são muito superiores àquelas de criminosos adultos. O campo teórico ecoa essa mesma visão. Em um artigo publicado em dezembro de 2024 na revista Plos One, a pesquisadora alemã Sandy Schumann aponta que, mesmo em altas frequências, uma exposição incidental a conteúdos de violência extrema gera menos engajamento do que uma busca ativa por esse tipo de material, ainda que em níveis mais baixos.

Esperança existe. É preciso, no entanto, que o assunto não vire tabu e as famílias tenham noção de que o tema precisa ser discutido sem amarras ou preconceitos. Quem já esteve do outro lado sabe a importância desse diálogo. “Deixei claro para meus pais que eles tiveram sorte comigo por causa das circunstâncias, mas que esse ambiente virtual hoje é uma roleta russa para qualquer criança”, conta Felipe, que agora controla rigidamente o acesso do irmão mais novo à internet.

*Os nomes foram alterados por questões de segurança.