O adeus, a perda, a dor e a memória permanecem tão latentes quando se perde alguém que não há conforto capaz de cessar o coração. A saudade se disfarça de amiga, bate à porta, serve café e se senta no sofá como se tivesse sido convidada para ficar para o jantar. Por vezes, é no último minuto ao lado de um ente querido que se foi que as últimas juras de amor ou pedidos de desculpas não feitos, que os choros são externalizados ou que as últimas boas memórias são cultivadas. Ter o último contato com a imagem de alguém que se ama é guardar a sete chaves as conexões.
O que pouco se sabe é que existem pessoas que estudam e aperfeiçoam técnicas que são utilizadas para que o coração que ama e que dói ao mesmo tempo seja abraçado com afeto. Em uma funerária de Porto Alegre, o cuidado é o mesmo para todos que ali buscam conforto. O ambiente em tons de verde, cinza e branco, é o refúgio para filhos, sobrinhos, netos, cônjuges, amigos e pais que atravessam o luto. “O atendimento é individualizado porque cada pessoa sente a morte de uma forma diferente”, explica o diretor executivo Ruy Neto. Na recepção, poltronas, máquina de café, água e panfletos com os serviços colocados em cima de um armário estilo aparador. Ao longo do corredor lateral, as salas separadas por paredes se dividem entre as questões administrativas da gerência e o motivo pelo qual os clientes os visitam.
A sala do atendimento parece setorizar as decisões que precisam muitas vezes serem tomadas por quem fica, desde a remoção de um cadáver, o translado, a locação da capela para o velório, o cerimonial e a decisão pela cremação ou sepultamento. Até mesmo a escolha dos caixões (ou urnas funerárias, como os funcionários chamam) é separada por uma porta embutida atrás da mesa. Segundo Bárbara Moraes, responsável pelo atendimento, o motivo é simples: não causar impacto direto por visualizar o local onde alguém verá pela última vez um ente querido.
- Aposentadoria das mulheres: quais direitos podem ser recuperados?
- Projeto Remar para o Futuro segue mudando vidas
- Hospitais promovem educação continuada aos médicos
Mas é no anexo ao prédio principal, descendo dois lances de escada, que está o laboratório de tanatopraxia. É ali que começa a “homenagem” à trajetória de alguém que deixa de viver em vida e permanece na lembrança. Em termos técnicos, a prática é a higienização, a drenagem de fluidos naturais do corpo e a injeção de soluções no sistema arterial para a maior conservação dos tecidos. Num espaço com cerca de 25 metros quadrados, duas mesas esterilizadas estão colocadas de forma perpendicular à porta de entrada e, atrás da mesa, estão os reservatórios com os fluidos. Nas paredes, os equipamentos de biossegurança, como óculos, luvas e propés.
Em muitas situações, é necessário realizar trabalhos minuciosos para que haja a recomposição de expressões faciais e conjuntos estéticos, como nos casos de traumas físicos.
“É emocionante quando os familiares conseguem ver aquele corpo pela última vez de uma forma que não fiquem lembrando só do trauma. Muitas pessoas choram e nos agradecem por ter feito aquilo”, diz Carlos Eduardo Alves, funcionário e professor do curso de Tanatopraxia ofertado pela Funerária São Pedro.
Alves conta que também precisa de criatividade para o trabalho, como quando utilizou o cabelo para refazer uma barba desenhada que havia sido danificada num acidente de carro.
É evidente que viver a morte diariamente não é uma tarefa trivial. Apesar da rotina semelhante a qualquer outro envolvimento laboral, são casos particulares e situações específicas que somente o preparo psicológico cotidiano é capaz de desenvolver, estando frente a frente com a morte. Ronaldo Paiva começou a carreira como motoboy, se tornou agente funerário e hoje é gerente da funerária, ministra cursos e utiliza as redes sociais como forma de desmistificar a morte, já que, segundo ele, a finitude é uma certeza que todos esperam. O que muda é como esperar.
Utilizando um terno cinza, com barba bem feita e um sorriso simpático, Ronaldo percebeu na rotina a capacidade de aproveitar a vida ainda mais enquanto estiver vivendo. Após três décadas no ramo, ele presenciou as “homenagens” de casos que marcaram sua carreira, como a despedida aos jovens da Boate Kiss, a de um monge de Três Coroas e o cortejo de Leonel Brizola. Hoje, ele pondera pequenos estresses corriqueiros, seja com briga de trânsito ou discussões paralelas. “Não perco tempo com isso porque a gente acompanha aqui tantas coisas que nos fazem repensar algumas coisas.”
Para ele, se a cultura de negar a finitude da vida fosse menos explorada pela sociedade em geral ou se a forma como se vive fosse mais “branda”, a maneira como nos despedimos do viver seria diferente. Inclusive para quem convive diariamente com a morte.
Doulas de fim de vida
Embora faça parte do ciclo da vida, a finitude costuma ser deixada de lado até que uma doença grave, um acidente ou uma situação inesperada obrigue as famílias a tomar decisões difíceis. É neste momento que a atuação das doulas de fim de vida pode oferecer acompanhamento emocional, orientação e apoio a pacientes e familiares antes, durante e após a morte.
A doulagem de fim de vida não se limita a acompanhar os últimos dias de uma pessoa. O trabalho pode começar muito antes, quando alguém recebe o diagnóstico de uma doença grave ou passa a conviver com a possibilidade de perder a autonomia. Nesse momento, a doula ajuda o paciente a refletir sobre o que considera importante, quais cuidados deseja receber e como gostaria de organizar a própria vida diante das mudanças. Isso pode envolver desde a reconciliação com familiares até a organização financeira e patrimonial.
No Rio Grande do Sul, as enfermeiras Tatiana Barbiere Santana e Jamile Pedroso Soares estão entre as profissionais que trabalham para ampliar o conhecimento em nesta área de atuação. “Além da doença, existe um ser humano que tem uma história de vida, que é um ser social, um ser político e que executa um papel importante dentro da sociedade. A doula vai traçar esse planejamento a partir da perspectiva do que esse indivíduo entende como importante para sua vida”, afirma Tatiana.
Elas são especialistas em gerontologia (ciência multidisciplinar que estuda o processo de envelhecimento humano em todas as suas dimensões), cuidados paliativos, tanatologia e luto. Esse conhecimento foi adquirido ao longo de muitos anos à frente da empresa Humanis Care, que completa dez anos de atuação em 2026 e atende Porto Alegre, a Região Metropolitana, o Litoral e a Serra Gaúcha. Ao longo desse período, cerca de 2 mil famílias passaram pelos cuidados da equipe. A experiência com pacientes e familiares levou as profissionais a perceberem a necessidade de ampliar a assistência para além dos procedimentos clínicos. Em 2018, elas começaram a estruturar a formação de doulas de fim de vida, buscando referências internacionais e adaptando o conteúdo à realidade brasileira, dando origem à escola AmorTser. Segundo as doulas, a instituição já formou mais de 600 alunos de 20 estados.
“Não estamos inventando a roda. A doulagem de fim de vida sempre existiu. O Brasil é culturalmente um País do cuidado. Existe uma história ancestral, com mulheres que cuidavam dos corpos”, explica Tatiana.
Regulamentação
A regulamentação das doulas de fim de vida está em discussão na Câmara dos Deputados por meio do Projeto de Lei nº 1.845/2026, apresentado em 15 de abril pelo deputado federal Aureo Ribeiro (Solidariedade-RJ). A proposta pretende estabelecer um regramento para o exercício da profissão em todo o território nacional e determinar garantias para o acompanhamento de pessoas em processo de finitude e para o suporte aos familiares.
O texto define a doula de fim de vida como a profissional que oferece apoio físico, emocional, espiritual e informativo, sem caráter médico ou clínico, ao paciente, à família e à rede de apoio. Entre as atribuições previstas estão o acolhimento, o auxílio na elaboração de diretivas antecipadas de vontade, o planejamento prático do fim da vida, a organização de legados e rituais de despedida e o suporte no luto imediato.
A proposta também estabelece limites para a atuação dessas profissionais. As doulas não poderão realizar procedimentos médicos, de enfermagem ou fisioterápicos, administrar medicamentos nem interferir nas decisões técnicas das equipes de saúde ou nos protocolos de cuidados paliativos.
Outro ponto previsto no projeto é a possibilidade de acompanhamento em hospitais, unidades de pronto atendimento, instituições de longa permanência para idosos e outros estabelecimentos de saúde, públicos ou privados, sempre que houver solicitação do paciente ou de seus representantes legais. O texto determina que a presença da doula não substitui a do acompanhante previsto em lei e proíbe a cobrança de taxas adicionais pelo acesso da profissional.
Jamile destaca que a profissional não toma decisões pelo paciente nem substitui médicos, enfermeiros, psicólogos ou outros integrantes da equipe multidisciplinar. Sua função é ajudar a pessoa a compreender as possibilidades, expressar desejos e estabelecer uma comunicação mais clara com quem participa do cuidado.
“A doula vai trabalhar as dimensões sociais, físicas, espirituais e emocionais, além da dimensão educativa e informativa, trazendo as informações necessárias para que a pessoa possa fazer seu planejamento”, explica Jamile.
Uma das dimensões desse trabalho é a orientação sobre as diretivas antecipadas de vontade, documentos nos quais uma pessoa registra suas preferências para situações futuras em que não consiga decidir por si mesma. A doula também pode ajudar a preparar conversas delicadas com familiares, especialmente quando existem divergências sobre os cuidados.
Após a morte, o vínculo estabelecido durante o acompanhamento pode se estender ao acolhimento dos familiares enlutados. Dúvidas sobre o que fazer com os pertences de quem morreu, como organizar uma despedida ou de que maneira lidar com as lembranças podem fazer parte desse processo.
Testamento vital
A possibilidade de registrar antecipadamente as próprias escolhas é um dos temas que aproximam o trabalho das doulas da área jurídica. Nesse campo, a advogada Luciana Dadalto, doutora em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e especialista em Direito Médico, pesquisa a autonomia do paciente e os instrumentos que permitem preservar sua vontade diante de doenças graves e da perda da capacidade de decisão.
Ela explica que o testamento vital é um documento no qual uma pessoa com capacidade decisória registra quais tratamentos, cuidados e procedimentos aceita ou recusa para uma situação futura em que esteja gravemente doente e não consiga manifestar sua vontade.
“O testamento vital é a voz para quando a gente perder a voz”, resume Luciana.
O documento pode ser elaborado por qualquer pessoa maior de 18 anos que tenha capacidade para tomar decisões, não sendo necessário esperar o diagnóstico de uma doença. Isso porque a perda dessa capacidade também pode acontecer de forma inesperada, em situações como acidentes ou um acidente vascular cerebral (AVC).
As pessoas com diagnóstico oncológico estão entre as que mais procuram a advogada, porém ela defende que o planejamento seja feito antes de uma emergência. “É muito comum que as pessoas pensem: "Se eu estiver doente um dia, se fizer um tratamento e ele não funcionar, aí vou pensar nisso". Mas a gente precisa lembrar que pode ficar gravemente doente e perder a capacidade decisória em situações agudas. Por isso, o ideal é fazer esse documento hoje, independentemente de precisar receber um diagnóstico um dia”, explica.
No Brasil, o Estatuto dos Direitos do Paciente (Lei nº 15.378), aprovado em abril de 2026, é apontado por Luciana como um avanço no reconhecimento da autonomia. Segundo a advogada, a legislação estabelece o direito de elaborar diretivas antecipadas de vontade e prevê que esses documentos vinculem familiares e profissionais de saúde.
A escritura pública é feita em tabelionato de notas. Para a advogada, também é importante que o paciente receba orientação de um profissional de saúde antes de registrar suas escolhas, para compreender os tratamentos e procedimentos envolvidos.
“Minha maior preocupação não é que as pessoas façam esse documento ou que todo mundo faça. Meu maior desejo é que os documentos que sejam feitos sejam executáveis, que seja possível cumprir. Por isso, considero importante o acompanhamento de um profissional de saúde.”
Se uma decisão registrada sobre cuidados de saúde for desrespeitada, pode haver medidas junto ao conselho profissional responsável e, dependendo do caso, recurso à Justiça. Quando o descumprimento já ocorreu, também pode ser avaliada a possibilidade de uma ação indenizatória.
Luciana ressalta que a existência de leis não é suficiente para garantir que as vontades dos pacientes sejam respeitadas. “Mesmo em países em que existem leis há muito tempo, há situações de descumprimento desses documentos. Tem muito mais a ver com uma mudança cultural, com a importância de pensar nos valores que orientam o cumprimento dessas decisões.”
Ela acrescenta que respeitar as escolhas de alguém que já não consegue decidir por si mesmo significa reconhecer sua identidade, sua dignidade e seu direito à autodeterminação.