Entre as alternativas para fugir do calorão, longe de praias superlotadas, da agitação da temporada de veraneio, gastando menos e ao mesmo tempo curtindo as belezas da natureza, estão as trilhas que levam a paisagens paradisíacas e aos banhos refrescantes de cascatas e cachoeiras ao som de águas cristalinas. Com grupos de amigos, familiares ou mesmo a dois, as caminhadas até as quedas d’água têm sido boas opções para quem prefere a tranquilidade em meio à mata e a conexão com a natureza que a região oferece. O momento também é uma oportunidade de criar memórias, compartilhar histórias, além de testar o condicionamento físico e fazer novas amizades. Os períodos mais recomendados para este tipo de aventura são de outubro a março.
Além disso, há quem goste de acampar e pescar ao som dos pássaros, mas há também quem prefira uma hospedagem mais estilizada, como chalés ou pousadas rústicas, e degustar de uma boa gastronomia caseira e colonial. A poucos quilômetros da capital gaúcha, existem locais para todos os gostos. Cascatas mais retiradas, com caminhadas longas, por vezes difíceis, com estradas íngremes e espaços totalmente gratuitos. Mas também existem acessos a cachoeiras, de água cristalina, com trilhas mais fáceis, dentro de parques e propriedades privadas, com cobranças de entrada, mas que dispõem de infraestrutura adequada, com estacionamento, área de churrasqueiras, banheiros, chuveiros e até mesmo pontos de comercialização de alimentos e bebidas.
Trilhas e roteiro próprio
Há quem vá por conta própria e se aventure após longas pesquisas na Internet, buscando lugares diferenciados, criando o seu próprio roteiro. Como é o caso do engenheiro Carlos Adriano Fonseca, 39 anos, e da assistente administrativa Janaina da Silva, 37, que vivem em Canoas e já estão acostumados a se aventurar por trilhas um tanto deslumbrantes e, por vezes, desafiadoras. Janaína comenta que a busca por paisagens diferentes, ar puro e tranquilidade são os pontos motivadores para embarcar na viagem. Ela diz que, sem dúvida, a opção por passeios mais intimistas e em contato com a natureza traz mais conexão para o casal. “Vivemos tanto a correria do dia a dia na cidade, a confusão do trânsito e a busca por metas no trabalho que, quando temos a oportunidade de viver um momento mais recluso, para se curtir, desligando dos problemas da cidade, optamos por ficar mais a sós, valorizando um ao outro. É quando a gente consegue se conectar, renovar as energias e respirar fundo. É também o momento em que conseguimos traçar metas e resolver mal-entendidos entre o casal.”
Fonseca compartilha do posicionamento da companheira e reforça que a aventura se torna ainda mais interessante quando eles deixam de pernoitar em pousadas, buscando refúgio em um acampamento. “Dormimos sob o clarão do luar e tomados por um céu estrelado. O que seria mais romântico do que isso? É nosso momento de introspecção.”
O mecânico Igor Ferreira Bitencourt, 33 anos, de Nova Santa Rita, gosta mesmo é de se aventurar na mata com um grupo de amigos. Além de compartilhar diversão, boas risadas e colocar a conversa em dia, ele garante que o valor de diárias em hotéis ou pousadas, em praias lotadas, fez com que, há cerca de quatro anos, optasse por passar seus verões mais distante do Litoral. “Além de hospedagens fora do orçamento, o valor das refeições é um absurdo em restaurantes, que, nesta época do ano, demandam enfrentar filas. Durante as trilhas, podemos pescar, comer fruto direto do pé e ter acesso à alimentação caseira, que, por vezes, é bem mais atrativa do que aquela oferecida nos quiosques à beira-mar.”
Empresa e guias
Existem trilhas e acessos a cascatas que requerem um grau mais elevado de experiência e condicionamento físico. Por isso, hoje em dia, há empresas e agências especializadas que disponibilizam guias que conhecem bem as localidades, aumentando a segurança durante o passeio.
Técnica em Guia de Turismo, Rita Stalbaum é sócia-proprietária de uma destas agências desde 2023, mas a ideia de trabalhar profissionalmente com trilhas e aventuras surgiu ainda em 2022. Ela, que já acompanhou mais de 3 mil pessoas em 30 destinos diferentes, comenta que o serviço oferecido, especialmente para trilheiros inexperientes, é bem importante. “Especialmente no quesito da segurança, pois a contratação de uma agência ou guia de turismo oferece roteiros seguros, evitando transtornos, como, por exemplo, se perder em meio ao trajeto, se deslocar por locais arriscados, evitando quedas ou rotas perigosas.”
Outros fatores, segundo ela, que se agregam ao serviço, são as informações culturais ou históricas sobre o roteiro, que enriquecem a experiência. “Em relação às orientações, o profissional de turismo contribui para que os ‘trilheiros de plantão’, como chamamos os amantes de trilhas, tenham informações precisas, o que levar, o que vestir, dicas de segurança, otimizando tempo e aumentando a tranquilidade ao longo do caminho.”
Rita garante que o contato com a natureza é transformador em vários sentidos. “Nas relações interpessoais, na realização de atividades físicas ao ar livre, na busca de autoconhecimento e no fortalecimento dos laços familiares.” Segundo ela, foram todos estes fatores que a motivaram a criar a agência. “Atendemos todos os tipos de caminhantes e trilheiros, desde os iniciantes até os mais experientes, em diversos tipos de roteiros, visitando inúmeras e belíssimas cascatas do nosso Estado.” Ela diz que um banho de cascata envolve as pessoas na sintonia da floresta. “É momento que você está imerso em uma atmosfera única, na mata nativa, fazendo parte daquela biodiversidade. Um banho de cascata resume-se em conectividade e sintonia com a natureza.”
As mais visitadas
Os grupos de trilheiros formados e orientados por Rita optam por trilhas mais técnicas e de média ou longa distância. “Neste roteiro estão incluídas as cascatas com maior dificuldade de acesso, as Gêmeas Gigantes, em São Francisco de Paula, a Cascata Quebra-Cabo, em Riozinho, a Cascata da Pedra Branca, na cidade de Três Forquilhas, e a Cascata do Gavião Faiado, em Canela, por exemplo.” Esta última é realizada pela modalidade estilo “aquatrekking”, ou seja, só se chega ao destino final através de uma trilha feita dentro ou à margem do rio.
Rita também acompanha grupos em cascatas ou cachoeiras que têm mais fácil acesso, como a do Chuvisqueiro, em Riozinho, a Cascata das Andorinhas, em Rolante, a Cascata Mato Fino, na localidade de Morungava, em Gravataí, a Cascata dos Bugres, em Santa Maria do Herval, e a Panelão/Panelinha/Helicóptero, na divisa de Nova Petrópolis e Gramado, que são locais que oferecem trilhas curtas e podem ser acessadas com maior facilidade.
“Além disso, temos a belíssima cascata do Caracol, em Canela, que fica dentro do parque com o mesmo nome, onde não é permitido banhar-se, mas contemplar uma das mais belas cascatas do Rio Grande do Sul. Estes últimos locais citados, são roteiros muito requisitados pelos clientes, principalmente para quem quer iniciar e aventurar-se sem guiamento profissional.”
Tempo, vestimentas e muita hidratação
Entretanto, a natureza exuberante, as águas cristalinas e as trilhas encantadoras escondem perigos e, se não houver precaução e cautela, a diversão pode terminar com uma série de problemas e o passeio carregado de lembranças não muito agradáveis. Além do respeito ao meio ambiente, é preciso priorizar o bem-estar físico e mental, por tratar-se de uma atividade que exige energia e vigor. “O guia, além do conhecimento técnico do atrativo turístico e habilidade na comunicação, deve ter capacitação técnica na condução de grupos, sempre aliado aos primeiros socorros e ao manejo de animais peçonhentos.”
Rita destaca que a primeira importante orientação é, antes de sair de casa, sempre verificar a previsão do tempo e jamais se arriscar em uma caminhada caso esteja marcando a possibilidade de chuva. “Ao entrar nas águas, outra dica é se certificar se o poço é profundo ou é seguro para quem não sabe nadar. Pisar com cuidado, evitando pedras escorregadias, com lodo ou limo. Eventuais galhos, raízes ou fendas entre pedras podem trazer perigo até para os mais experientes. Na dúvida, evite ir muito fundo.”
De acordo com a guia, também é preciso ficar atento a mudanças, como aumento do volume de água repentino e cor (mais turva/escura), ou à presença de galhos ou folhas na correnteza. “Esses indícios são alertas para cabeças d’água (aumento brusco do volume da queda e poço). Se isso acontecer, a orientação é para que saia imediatamente. Sendo lugares onde o sinal de celular é fraco ou até inexistente, avise com antecedência os familiares ou amigos do seu paradeiro. Leve sempre água potável e algum alimento.”
Rita destaca ser imprescindível carregar um kit de primeiros socorros. “Priorize seu passeio pelas primeiras horas da manhã, pois, havendo necessidade de ajuda, a luz do dia é importantíssima para o resgate. Recomendamos as primeiras horas da manhã, principalmente quando o trajeto for de média ou longa distância. Exceções são parques que possuem infraestrutura, onde algumas trilhas podem ser feitas no período da tarde.”
O que vestir e o que levar
- Vista-se com roupas confortáveis, que permitam livre movimentação. Dê preferência a tecidos que absorvam a transpiração. Use calçados confortáveis e já adaptados ao seu pé, botas ou tênis de trilhas ou esportivos.
- Leve na mochila ao menos 1,5 litro de água.
- Use repelente e filtro solar.
- Alimente-se antes de iniciar a caminhada. Caso não tenha esse hábito, leve um lanche como, por exemplo, frutas, barrinhas de cereais, biscoitos, ovo cozido e alimentos que não estragam com a mudança de temperatura.
- Leve uma sacola para retornar com o lixo de uso pessoal.
- Kit de primeiros socorros.
- Outra dica importante para ter um passeio interessante e produtivo é ter uma boa noite de sono no dia anterior.
Dicas importantes para trilhas
- Jamais faça trilhas sozinho. Procure um grupo com experiência e avise pessoas que não farão a trilha sobre o trajeto. Leve água, alimentação e meios de comunicação.
- Verifique as condições climáticas e não faça trilha se estiver marcando chuva.
- Respeite seus limites. Se for iniciante, procure uma trilha mais fácil.
- Caso se perca, mantenha a calma e procure lugar seguro. Se estiver com telefone, acione o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193. Faça barulho para as equipes de resgate o localizarem, com o uso de um apito, por exemplo.
- Caso seja atacado/mordido/picado por algum animal (peçonhento ou não), mantenha a calma, identifique o animal e se afaste dele. Lave a região com água corrente até a chegada do socorro.
- É recomendável levar uma caixa de primeiros socorros com itens básicos, como luva descartável, gaze, atadura, esparadrapo, antitérmico e tesoura.
Dicas para banhos de cascatas
- Não mergulhe sozinho nem entre sem saber a profundidade. Sempre entre na água com atenção, sem subestimar a cascata, pois até pessoas experientes e que sabem nadar podem se afogar.
- Em caso de afogamento, mantenha a calma. Se for ajudar alguém que esteja se afogando, não entre na água, procure jogar para a vítima objetos que boiem. Acione imediatamente o Corpo de Bombeiros pelo telefone 193.
- A orientação é entrar com calçados por conta das pedras. Há calçados específicos para esta finalidade.
- Dependendo do local, pode haver animais e, por isso, é importante conhecer bem a cascata e dar preferência a parques turísticos.
- Se, no meio do passeio, o tempo virar e começar a chover, a orientação é sair da água imediatamente e procurar um abrigo para se proteger de raios.
- Não é recomendável acampar no pé ou no entorno da cascata. O nível da água pode subir e atingir o acampamento. O ideal é acampar em locais elevados.
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