A água estava no fogo. Ela preparando alguma comida. E ele voltando do jogo. Chegou alterado. Discutiram. O tom aumentou. Ele jogou a água fervendo no rosto dela.
Quando se trata de violência contra a mulher, tanto faz para quem o homem torce. Ganhar ou perder também não faz muita diferença. O que importa é que o número de Boletins de Ocorrência (BOs) de ameaça e de lesão corporal contra as mulheres aumenta, respectivamente, 23,7% e 20,8% em dias de jogo de futebol. Os números são ainda mais alarmantes quando a partida acontece na própria cidade do time. E o pior: a maioria dos autores da violência são companheiros ou ex-companheiros das vítimas.
Os dados são do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), em parceria com o Instituto Avon. Para obtê-los, foi feito um cruzamento de informações entre todos os jogos do Campeonato Brasileiro da Série A, de 2015 a 2018, e dados sobre violência contra mulheres. Porto Alegre foi uma das cinco capitais participantes da pesquisa, ao lado de Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Belo Horizonte.
“Se é chocante a gente pensar que, a partir dos registros policiais, se vê casos de agressão e de ameaça aumentarem em dia de jogos, é importante ter em mente que na realidade isso é muito pior, porque invariavelmente vai existir algum grau de subnotificação”, diz a mestre em sociologia e pesquisadora do FBSP, Isabella Matosinhos.
O futebol, vale dizer, não é a causa da violência contra a mulher, mas sim um fator de risco. Graças a um sistema patriarcal enraizado, os homens adquiriram certa legitimidade para lidar com frustrações e aquilo que não resolvem internamente, descontando geralmente em mulheres, crianças e adolescentes.
Um exemplo dessa violência são os pais que agridem e eventualmente matam os próprios filhos para atingir a companheira ou ex-companheira mãe da criança. O relatório “Visível e Invisível: a Vitimização de Mulheres no Brasil”, também do Fórum, divulgado em 2025, mostra que cerca de 40% das mulheres não fizeram nada em relação à última violência que sofreram no período de um ano. Para Isabella, os motivos variam desde “achei que eu resolveria sozinha” até “pensei que a polícia não me ajudaria”.
Luísa Habigzang, professora de Psicologia da PUCRS e Coordenadora do Grupo de Pesquisa Violência, Vulnerabilidade e Intervenções Clínicas (GpeVVIC), analisa os impactos da forma com que meninos e meninas são ensinados a lidar com as suas emoções. Para ela, essa criação é muito diferente.
Meninas podem sentir medo e tristeza, desde que isso não incomode os outros, o que acaba gerando altos índices de ansiedade e depressão nas mulheres. Já os meninos não são autorizados a demonstrar vulnerabilidade ou fragilidade, mas sim virilidade.
“Eles têm que se mostrar fortes, então a única forma que é legítima socialmente é demonstrar raiva. Ela está na base, muitas vezes, de comportamentos agressivos e vai se desenvolvendo uma forma disfuncional de lidar com as emoções. Esses comportamentos externalizantes que envolvem a agressão a outras pessoas são uma característica muito forte”, comenta.
Ou seja, quando o time perde, há uma experiência intensa de frustração e muitas vezes, o futebol é o único espaço em que esses homens se sentem autorizados a demonstrar sentimentos, como em abraços nos momentos de gol e vitórias.
No Rio Grande do Sul, o fato de as torcidas da Dupla Gre-Nal serem muito intensas aumenta esse sentimento de frustração, potencializando a violência no Estado. O senso de coletividade presente nos estádios, marcadamente masculinos, também influencia na manifestação desse comportamento agressivo.
‘Ele não é assim, ele bebeu’
Outro fator de risco para a violência contra a mulher, associado aos dias de jogo de futebol, é o consumo de bebidas alcoólicas. Dentro dos estádios, o álcool não é permitido. No entanto, antes e depois das partidas, observa-se nos entornos um consumo elevado.
Dependendo do emprego e da situação econômica, o homem também sofre pressão por não ser um provedor super bem-sucedido. Nesse sentido, o esporte, mais do que lazer, é um momento de evasão de todas as frustrações. Se o time perde, soma-se mais um fator de estresse e, estando alcoolizado, ele busca uma forma de exercer algum domínio dentro de casa com a sua parceira.
“Independentemente se ganha ou perde, existe a preocupação de quem está em casa esperando o parceiro”, afirma a psicóloga Luísa Habigzang.
Paradoxalmente, quando o time ganha, a euforia extrema também pode ser um problema. Nessa situação, o homem fica feliz e, para extravasar a alegria, pode se utilizar de relações sexuais nem sempre consentidas. Consequentemente, tem-se outra forma de violência, a sexual.
A violência geralmente se apresenta por meio de queixas difusas, em sua maioria relacionadas à saúde mental, sendo possível identificá-la através da escuta qualificada. Isso é o que conta a especialista em Enfermagem Obstétrica e Ginecológica Letícia Becker.
Rosto, genitália e mama entre os alvos preferidos
Segundo ela, os agressores têm preferências, como o rosto, a genitália e a mama. As formas de violentar costumam variar entre queimaduras, tanto de cigarro quanto de água fervente, e a retenção de documentos, com o intuito de gerar um isolamento social.
Por meio do exame ginecológico, também é possível identificar sinais de agressão. A enfermeira chama atenção para queixas recorrentes, como infecções urinárias reincidentes, que podem mascarar a verdadeira origem do problema. “São formas de desfigurar o corpo feminino”, comenta.
Além da ansiedade e depressão, a violência contra a mulher causa estresse pós-traumático e ideação suicida. De acordo com Letícia, esses quadros podem, inclusive, vir a serem geracionais. Assim, essa lógica de agressão se configura como uma questão de saúde pública e social. “As agressões no rosto são muito típicas dos crimes de ódio, dos feminicídios tentados e consumados. Essa questão de tirar a identidade da mulher”, diz a delegada Tatiana Bastos, da Delegacia de Combate à Intolerância de Porto Alegre.
Domingo, o “Dia Internacional da violência contra a mulher”
Para Tatiana, o domingo é o “dia internacional da violência contra a mulher”. E a relação não poderia ser outra além do próprio futebol. Ela conta um caso marcante, que recebeu em uma segunda-feira, mas que aconteceu na véspera, após ele chegar em casa vindo de uma partida de futebol. “Não me lembro qual era o time, mas eles discutiram, ele chegou já muito alterado, e acabou jogando água fervendo no rosto dela”, revela.
“A discussão nada teve a ver com o futebol. Ele chegou em casa e a discussão se deu por qualquer outra coisa da rotina familiar, e ele acabou pegando uma água que estava quente no fogão, que ela estava esquentando, e jogou essa água quente no rosto dela”, relembra Tatiana, contando que a mulher ficou com lesões muito sérias no rosto.
Projeto de lei quer conscientização nos estádios
Foi a pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública que chamou a atenção da senadora Augusta Brito, de Fortaleza, no Ceará, para a necessidade de criar uma lei que regulamentasse a presença das campanhas de conscientização contra violência doméstica nos estádios e nas transmissões de futebol. Assim, surgiu o Projeto de Lei n° 4842, de 2023.
A partir desse PL, aprovado pela Comissão de Esporte (CEsp) em maio, tornou-se obrigatório os clubes exibirem campanhas de conscientização nos estádios quando o jogo tiver mais de 10 mil torcedores. Eles deverão incluir, nos contratos de negociação dos direitos de transmissão de eventos esportivos, cláusula que assegure a veiculação das campanhas. Elas também deverão ser exibidas durante as partidas, nos telões e nos sistemas de sonorização e de mídia disponíveis na arena.
As campanhas também podem alertar as mulheres sobre a gravidade da violência doméstica que sofrem, estimulando denúncias, mas o objetivo principal é atingir os agressores.
“Sem os homens, a luta para reduzir os casos de violência contra a mulher está perdida. Os jogos de futebol são uma boa oportunidade para falar com o público masculino”, explica Augusta.
Outra questão do projeto é o incentivo a ídolos, atletas, ex-atletas e figuras públicas masculinas participarem das campanhas. As pessoas públicas têm responsabilidade social e devem servir de exemplo positivo, já que o futebol é um esporte que carrega apelo de comunicação de massa.
Para a pesquisadora Isabella, o desfecho na Justiça de casos de agressão de jogadores que vêm a público faz com que os torcedores que já apresentam comportamentos violentos se sintam autorizados a seguir com eles. Nesse sentido, o engajamento contrário também é uma forma de furar a bolha. “Quando temos figuras públicas que agridem suas companheiras e não recebem a devida punição ou reprimenda, isso reforça o sentimento de impunidade e perpetua o ciclo de violência contra as mulheres.”
Sobre essa influência, a psicóloga Luísa relembra momentos em que o futebol legitimou a violência contra as mulheres. Um exemplo é o caso do Daniel Alves que, quando acusado de estupro, vários jogadores se uniram em uma mobilização coletiva para contribuir com a fiança.
Presença feminina nos estádios ainda é baixa
Thaís Arnoud, doutoranda do curso de Psicologia da PUCRS e que também faz parte do GpeVVIC, destaca que quando se enxerga a violência no futebol e os autores seguem impunes, vai se criando um mal-estar e as mulheres se sentem silenciadas e invisibilizadas no que tange às suas próprias realidades.
Outras questões que tornam o futebol estruturalmente violento, de acordo com a psicóloga, são o tipo de xingamento que as árbitras mulheres recebem. Eles sempre são associados à falta de moral, promiscuidade e conteúdo misógino. As narradoras esportivas demorarem a conquistar espaço, devido à esperada intensidade das locuções e dos gritos, também é determinante. “A presença das mulheres em estádios ainda é baixa e isso acontece principalmente por termos atos de violência nas arenas”, reflete a senadora Augusta Brito sobre as raízes do esporte.
Boas práticas e formas de buscar ajuda
Mesmo com a movimentação pelas campanhas, inclusive a própria “Feminicídio Zero”, do Ministério das Mulheres em parceria com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF), a violência contra as mulheres segue acontecendo e aumentando em dias de jogo de futebol, o que demonstra um gargalo no sistema.
No entanto, a delegada Tatiana Bastos julga importante falar das boas práticas que vêm sendo adotadas no Rio Grande do Sul e em Porto Alegre. Um exemplo é a possibilidade de, desde 24 de abril, solicitar medidas protetivas de urgência via Delegacia Online (DOL). Até o momento, mais de mil pedidos já foram feitos no estado somente na DOL, em comparação aos quase 2.900 nas delegacias presenciais, em todo o ano de 2024.
Um caso de sucesso aconteceu em Venâncio Aires, onde a vítima solicitou medida protetiva online às 23h, quando ainda estava em casa com o marido. O pedido foi analisado pela DOL, validado pela delegacia, encaminhado ao Poder Judiciário, deferido, expedido mandado de busca e apreensão, que a polícia cumpriu. Tudo em menos de 12h. O resultado foi a apreensão de uma arma de fogo que acabou salvando a vida da mulher.
Ainda assim, conforme a delegada, 90% dos casos não são notificados. “Algumas até adotam alguns movimentos que são materializações de um pedido de ajuda, mas chegar à delegacia é em torno de 10%”, afirma. Um dos obstáculos para formalizar a denúncia e seguir devidamente o protocolo é a violência patrimonial.
Em situações de risco e após registrar a denúncia, a recomendação é sempre sair de casa, ir para um local seguro ou ao menos tentar mudar hábitos. Contudo, muitas mulheres não aderem e preferem ficar em casa. Isso se deve ao que o homem fala para essa mulher: se ela sair, vai perder os direitos sobre os bens, a casa e os filhos. Outras subestimam o agressor e não acreditam que ele é capaz de fazer algo mais grave.
“Quando a gente consegue enfrentar de maneira multidisciplinar esse ciclo, também contribui não só para que a mulher denuncie mais, mas para que ela permaneça até o final daquela ação sendo cooperativa”, explica a delegada sobre a importância de seguir todo o protocolo estipulado pela polícia.
O Brasil é signatário da Agenda 2030, e um dos objetivos é conquistar a igualdade entre meninos e meninas. Entretanto, para a psicóloga Luísa Habigzang, o país, o Rio Grande do Sul e Porto Alegre não trabalham isso na base, em uma perspectiva educativa e preventiva, e sim quando a violência já ocorreu e a situação já está muito grave. Essa seria a principal lacuna que justificaria a violência contra a mulher, inclusive a relacionada ao futebol.
“O melhor caminho é a educação. Ela vai acontecer nos campos de futebol, mas deve ser reforçada desde a infância, nas escolas, nos espaços de convivência. Precisamos debater cada vez mais questões de gênero. Só o engajamento, principalmente dos homens, pode reverter essa situação”, explica a senadora Augusta Brito sobre as formas de combate à problemática.
“O que a gente enxerga no sistema de saúde é só a ponta do iceberg”, de acordo com a enfermeira Letícia Becker. Por isso, a situação da violência doméstica contra mulheres em dias de jogo de futebol exige medidas intersetoriais.
Isabella Matosinhos destaca a necessidade de olhar qualitativamente para a rede de apoio, para além da própria existência dela. Assim, é imprescindível a existência de uma rede integrada entre serviços públicos, delegacia, sistema de saúde, serviço social e clubes de futebol.
A delegada Tatiana Bastos reforça que, em caso de violência imediata, deve-se ligar para o 190 ou 180. Já para denúncias, é possível ir a uma delegacia. Quando os jogos forem em finais de semana ou tarde da noite, todo município tem ao menos uma unidade 24h. Em Porto Alegre, este local é a 1ª Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher, no Palácio da Polícia. Outra opção é denunciar através da Delegacia Online, que é a forma mais rápida.
Só não é alternativa esperar, em silêncio, ele voltar para casa.
*Sob supervisão de Carlos Corrêa