Há hotéis que começam a experiência no check-in. No Castelo Saint Andrews, em Gramado, tenho a impressão de que ela começa antes — e continua muito depois do check-out. Localizado no ponto mais alto da cidade, diante da paisagem do Vale do Quilombo, o hotel foi concebido a partir de uma ideia que considero cada vez mais relevante na hotelaria de luxo: a experiência precisa estar no centro de tudo. O conceito Exclusive House, do qual o Saint Andrews foi pioneiro no Brasil, aparece não apenas na arquitetura inspirada nos castelos escoceses, mas principalmente na maneira de receber. São 19 suítes — 11 na ala Castle e 8 na Mountain —, além da Mountain House, uma residência de aproximadamente 500 m² dentro do complexo, com serviços de hotelaria. Na ala Castle, cada suíte tem personalidade própria e recebe o nome de uma pedra preciosa; a Jade, onde fiquei, tem 48 m², tons de prata e verde-água, detalhes orientais e uma sacada que parece ter sido desenhada para enquadrar o Vale do Quilombo. E há algo de muito contemporâneo nessa exclusividade: não se trata de oferecer simplesmente mais coisas, mas de perceber o que faz sentido para aquela pessoa.
Foi justamente nos pequenos detalhes que senti isso. O check-in não se resumiu ao ritual previsível da taça de espumante de boas-vindas. O mordomo acompanha a chegada, antecipa necessidades e faz com que, ao entrar na suíte, tudo pareça já ter sido pensado para você. Na Jade, a vista para o Vale do Quilombo foi o primeiro grande espetáculo; o segundo chegou em uma garrafa de Máximo Boschi Biografia Brut Rosé 2017, servida para acompanhar o pôr do sol. Elaborado com 55% Chardonnay e 45% Pinot Noir, pelo método tradicional, o espumante passou 40 meses em contato com as leveduras, construção que explica sua textura, profundidade e persistência. Na taça, frutas maduras e desidratadas, amêndoas, notas amanteigadas e de panificação encontravam uma acidez precisa. Foi um daqueles momentos em que vinho e paisagem deixam de ser elementos separados: a taça parecia prolongar o pôr do sol. E foi aí que entendi o verdadeiro significado de serviço sob medida: horários ajustados, preferências observadas, o local do café escolhido de acordo com o meu desejo, uma hora de piscina reservada exclusivamente para mim. Não era apenas receber um hóspede; era editar a experiência ao redor dele. É uma diferença sutil, mas enorme.
Como colunista de vinhos, não poderia passar pelo Saint Andrews sem olhar para sua adega — e aqui existe um capítulo à parte. A carta do Primrose acumula reconhecimento da Wine Spectator há oito anos consecutivos, incluindo 2026, distinção que valoriza restaurantes com cartas de destaque e forte compromisso com o vinho; a edição de 2026 reúne cerca de 300 rótulos. Mais do que números, o que me chamou atenção foi a possibilidade de encontrar ali vinhos brasileiros ao lado de grandes referências internacionais. A degustação conduzida pela sommelière Patrícia Cardoso colocou três rótulos nacionais no centro da conversa: Capoani Blanc de Noir Nature 2021, Máximo Boschi Biografia Chardonnay 2020 e Inácio Paicá Tempranillo 2024, da Malgarim. O Chardonnay, elaborado com uvas da Campanha Gaúcha e 10 meses em carvalho francês, mostrou a dimensão que um branco brasileiro pode alcançar quando textura, madeira e acidez encontram equilíbrio. O Tempranillo 2024, por sua vez, trouxe uma leitura mais robusta da variedade, com 15,3% de álcool, notas de coco queimado, chocolate e defumado e um paladar intenso e estruturado. E o Blanc de Noir Nature, elaborado pelo método tradicional, reforçou a diversidade da Serra Gaúcha. Na sequência, o jantar harmonizado no Primrose transformou a degustação em experiência gastronômica, com cozinha de inspiração franco-italiana e ingredientes que dialogam com o território. O restaurante, que também foi reconhecido pela Wine Spectator e acumula importantes prêmios internacionais, trabalha a gastronomia a partir das preferências de cada hóspede — uma extensão perfeita da filosofia do hotel.
E talvez a melhor maneira de terminar uma experiência como essa seja não terminá-la de verdade. O café da manhã, veio um momento exclusivo na biblioteca — silencioso, elegante, quase cinematográfico — e foi nesse instante que percebi que o luxo do Saint Andrews não está necessariamente naquilo que impressiona imediatamente, mas naquilo que foi percebido sem que você precisasse pedir duas vezes. O hotel pertence a Guilherme Paulus e sua relação com o vinho é evidente também na curadoria da adega, que reúne rótulos especiais, edições limitadas e garrafas destinadas a experiências gastronômicas. O Saint Andrews integra a Relais & Châteaux e é apresentado pela própria rede como um castelo de estilo escocês instalado na Serra Gaúcha, com vista para o Vale do Quilombo; historicamente, foi admitido na associação em 2012, sendo então o único hotel brasileiro entre os novos membros daquele anúncio. Mas, para mim, o que ficou não foi uma lista de títulos. Foi a sensação rara de que tudo estava sob medida: a suíte, a paisagem, o vinho, o jantar, o café, o horário da piscina, o silêncio. Em uma época em que a hotelaria muitas vezes busca impressionar pelo excesso, o Castelo Saint Andrews me lembrou que a experiência mais sofisticada pode ser justamente aquela em que alguém consegue fazer você sentir: pensaram em mim. E isso, definitivamente, permanece.
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Capoani Blanc de Noir Nature 2021 — Serra Gaúcha, RS | Vinhedos Capoani
Começo por um espumante que representa muito bem a sofisticação que a Serra Gaúcha pode alcançar. O Capoani Blanc de Noir Nature 2021 é elaborado pelo método tradicional, a partir de uvas tintas vinificadas em branco, e chega à taça na categoria Nature, sem a adição de açúcar no acabamento.
A proposta é mais seca, vertical e gastronômica, com a delicadeza aromática característica dos Blanc de Noir, mas sustentada por estrutura e textura. É um estilo que gosto especialmente para a mesa porque a ausência de açúcar residual deixa o vinho preciso e permite que ele dialogue com a comida sem mascarar seus sabores. Um espumante que mostra que a elegância brasileira também pode estar na contenção.
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Solopaca Bianco Sannio DOC — Sannio, Campania, Itália | Cantina di Solopaca
O branco que acompanhou o salmão com risotto de aspargos e tomate confit foi uma escolha particularmente feliz.
O Solopaca Bianco Sannio é produzido na Campania, em vinhedos da região de Sannio. A ficha técnica da safra consultada traz Falanghina, Trebbiano e Malvasia, 12% de álcool e nenhuma passagem por madeira. Na taça, aparecem lima, maçã-verde, pêssego, melão e uma interessante nota de hortelã. Em boca, é leve, fresco e muito refrescante.
É justamente essa acidez que fez a ponte com o prato: refresca o paladar depois da untuosidade do salmão e do risotto, enquanto sua fruta delicada acompanha os aspargos e o tomate confit. Um branco que não tenta ser maior do que é — e justamente por isso funciona tão bem à mesa.
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Máximo Boschi Biografia Chardonnay 2020 — Campanha Gaúcha, RS | Máximo Boschi
Aqui entramos em outra dimensão de Chardonnay brasileiro.
Embora a vinícola esteja no Vale dos Vinhedos, as uvas deste Biografia Chardonnay vêm da Campanha Gaúcha, de solos arenosos e clima subtropical seco. O vinho passa 10 meses em barricas de carvalho francês, período que acrescenta camadas de complexidade sem apagar a identidade da fruta. A produção foi limitada a 2.730 garrafas.
Aromas de pera e abacaxi em calda aparecem integrados a avelã, favo de mel, caramelo e brioche. Na boca, é sedoso, aveludado e amanteigado, com equilíbrio entre álcool e acidez e um final persistente. É um Chardonnay de presença, mas sem perder elegância — excelente exemplo de como o branco brasileiro pode ter estrutura, capacidade de guarda e vocação gastronômica.
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Inácio Paicá Tempranillo 2024 — Serra Gaúcha, RS | Malgarim Vinhos
Uma das coisas mais interessantes do vinho brasileiro contemporâneo é observar como variedades internacionais começam a encontrar sotaques próprios por aqui.
O Inácio Paicá é um vinho nobre tinto seco elaborado com Tempranillo, safra 2024, com 15,3% de álcool. Visualmente apresenta um vermelho-púrpura muito escuro; no nariz, aparecem coco queimado, chocolate e notas defumadas. Em boca, é robusto, intenso e elegante.
É um vinho que pede gastronomia à altura de sua estrutura. A própria vinícola sugere bife de ancho na brasa ou cordeiro assado — preparações cuja gordura e suculência ajudam a equilibrar os taninos e a destacar as notas defumadas. Para mim, é interessante justamente por não tentar ser uma cópia de um Tempranillo espanhol: é uma interpretação brasileira de uma variedade internacional.
- Santos da Casa Porto Tawny — Douro, Portugal | Santos & Seixo
E para fechar a experiência, uma pequena taça de Portugal.
O Santos da Casa Porto Tawny acompanhou a verrine de gelato da casa com farofa de café e cacau, em uma harmonização que mostrou como um vinho fortificado pode transformar completamente o final de uma refeição.
Produzido no Douro, é elaborado com castas tradicionais como Touriga Franca, Tinta Roriz e Tinta Barroca. O processo inclui interrupção da fermentação com aguardente vínica e estágio em madeira; a ficha técnica do produtor informa idade média de 3 a 4 anos no lote final, 19% de álcool, 92 g/L de açúcar residual e acidez de 4,2 g/L.
Na taça, apresenta tonalidade rubi com reflexos âmbar e aromas de frutas secas. Em boca, equilibra frescor e maturidade, evitando que a doçura se torne pesada. Com café, cacau e o gelato, funcionou especialmente bem porque criou um jogo entre doçura, amargor, temperatura e textura. Um pequeno serviço de 50 ml, mas um grande ponto final para a experiência gastronômica.
