Andreia Gentilini


Gastronomia japonesa: Sabores do inverno com sushi e vinhos

Menu sazonal em Canoas aposta em ramen, King Crab, bluefin e harmonização com vinhos para mostrar uma face mais intensa da cozinha japonesa

Menu de inverno do Kampeki Sushi, em Canoas, combina pratos da gastronomia japonesa com harmonização de vinhos
Menu de inverno do Kampeki Sushi, em Canoas, combina pratos da gastronomia japonesa com harmonização de vinhos Foto : Andreia Gentilini / Arquivo Pessoal / CP

Sushi também é comida de inverno. Há muito tempo a gastronomia japonesa deixou de ser sinônimo apenas de refeições leves para o verão. No Japão, a sazonalidade é um dos pilares da cozinha e determina a escolha dos ingredientes, das técnicas e até da temperatura dos pratos.

No inverno, surgem preparações mais intensas e reconfortantes, capazes de revelar novas texturas e profundidade de sabores sem perder a delicadeza que caracteriza essa culinária. Foi justamente para conhecer essa proposta que visitei o novo menu sazonal do Kampeki Sushi, em Canoas, desenvolvido pelo chef Luca de Lima.

A sequência preserva clássicos da casa, mas incorpora ingredientes da estação e novidades que tornam a experiência ainda mais completa, como o usuzukuri mediterrâneo, o crispy rice, os tacos, a pipoca de camarão, preparações com King Crab, Maguro no Missô e, como opção para os dias mais frios, um ramen preparado com caldo de wagyu e frango reduzido durante cerca de 36 horas.

Um dos aspectos mais interessantes da noite foi perceber como uma boa carta de vinhos pode transformar completamente a experiência de um menu degustação japonês. Sob a condução do sommelier Diego Rauschkolb, cada etapa recebeu uma harmonização específica.

A abertura aconteceu com o Castlebrae Sauvignon Blanc 2024, de Marlborough, na Nova Zelândia, cuja acidez vibrante e notas cítricas acompanharam com precisão o trio de boas-vindas, o usuzukuri e os primeiros snacks. Em seguida, o Caliterra Tributo Gran Reserva Sauvignon Blanc 2023, do Vale de Casablanca, no Chile, apresentou maior volume de boca e excelente afinidade com os sashimis, barriga de salmão e preparações que valorizavam a pureza dos peixes.

A grande surpresa veio com o Marqués de Tomares Rioja Blanco, um branco espanhol de excelente estrutura e textura, escolhido para acompanhar os pratos de maior intensidade. Tive o privilégio de degustar um dos grandes protagonistas da casa, o atum bluefin, harmonizado com esse vinho, e foi, sem dúvida, um dos pontos altos da noite. A untuosidade e a profundidade aromática do bluefin encontraram equilíbrio perfeito na textura, na mineralidade e na elegante evolução do Rioja, demonstrando como grandes brancos também podem ocupar lugar de destaque à mesa japonesa.

A versatilidade dos vinhos na harmonização

A experiência reforçou uma convicção: quando existe técnica na harmonização, o vinho revela uma versatilidade impressionante. Sauvignon Blancs de regiões frias oferecem frescor suficiente para acompanhar peixes crus e preparações cítricas; brancos com maior estrutura, seja pela evolução ou pela elaboração, conseguem enfrentar cortes mais gordurosos, molhos, missô e ingredientes nobres como o bluefin e o King Crab.

Mais do que acompanhar a refeição, os vinhos ampliam aromas, valorizam texturas e permitem que cada etapa do menu revele novas nuances. É uma harmonização construída prato a prato, em que cada taça prepara o paladar para a próxima experiência.

Sobremesas e a harmonização perfeita

O encerramento manteve o mesmo nível da sequência salgada. O menu de sobremesas merece um capítulo à parte e mostra que a criatividade da cozinha também chega ao último ato da refeição.

A Torta no Palito de Maracujá, com creme frozen envolto por chocolate branco e avelã, o Crocante de Pistache, que combina massa filo, ganache de cream cheese e pistaches em diferentes texturas, e a sofisticada Barra de Ouro, recheada com namelaka de chocolate, doce de leite, praliné de nuts e finalizada com pó de ouro, encontraram no Château Cantegril Barsac 2020, de Bordeaux, uma harmonização simplesmente espetacular.

A doçura refinada do vinho, sustentada por uma acidez vibrante e notas de mel, frutas cristalizadas, casca de laranja e botrytis, equilibrou com precisão tanto a intensidade do chocolate quanto o frescor do maracujá e a riqueza do pistache, encerrando o jantar com sofisticação.

Uma experiência que confirma que o inverno é, talvez, a estação ideal para redescobrir a gastronomia japonesa quando ela respeita a sazonalidade, valoriza ingredientes de excelência e encontra no vinho um parceiro à altura.

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Os vinhos da harmonização em destaque

👉🏼Castlebrae Sauvignon Blanc 2024 – Marlborough, Nova Zelândia. Produzido pela Castlebrae Wines, este Sauvignon Blanc traduz com fidelidade o estilo que transformou Marlborough na mais famosa região produtora da variedade no mundo. O clima frio, aliado à elevada amplitude térmica e à influência marítima, favorece uma maturação lenta, preservando aromas intensos e uma acidez vibrante.

Elaborado 100% com Sauvignon Blanc, apresenta notas marcantes de maracujá, lima, grapefruit, ervas frescas e um delicado toque mineral. É um vinho de grande pureza aromática, extremamente preciso, com final longo e refrescante, representando muito bem o perfil neozelandês que conquistou consumidores ao redor do mundo.

👉🏼Caliterra Tributo Gran Reserva Sauvignon Blanc 2023 – Vale de Casablanca, Chile. A Viña Caliterra é uma das principais referências da viticultura sustentável chilena, desenvolvendo seus vinhedos com forte compromisso ambiental e manejo de baixa intervenção. A linha Tributo Gran Reserva reúne alguns dos vinhos mais representativos da vinícola.

Elaborado exclusivamente com Sauvignon Blanc cultivada no fresco Vale de Casablanca, este rótulo apresenta maior profundidade e estrutura em relação ao estilo neozelandês. Aromas de frutas cítricas, pêssego branco, ervas e leve mineralidade se unem a uma textura cremosa e excelente persistência. Um branco elegante, gastronômico e que evidencia a vocação da costa chilena para grandes Sauvignon Blancs.

👉🏼Marqués de Tomares Rioja Blanco – Rioja, Espanha. A tradicional Bodegas Marqués de Tomares, fundada pela família Monje Amestoy, é uma das produtoras que contribuem para a renovação dos grandes vinhos brancos de Rioja, região historicamente conhecida pelos tintos, mas que vem revelando rótulos brancos de enorme personalidade.

Elaborado predominantemente com a uva Viura, variedade emblemática da denominação, este vinho combina frutas de caroço, flores brancas, ervas finas e discretas notas de baunilha provenientes do breve estágio em madeira. Em boca impressiona pela textura, equilíbrio e elegância, sustentados por uma acidez refinada e um final persistente. É um branco que demonstra como Rioja produz vinhos capazes de envelhecer e ganhar enorme complexidade.

👉🏼Château Cantegril Barsac 2020 – Barsac, Bordeaux, França. Localizado na denominação Barsac, uma das cinco áreas autorizadas a produzir os grandes vinhos doces de Bordeaux, o Château Cantegril pertence à família do renomado enólogo Denis Dubourdieu, uma das personalidades mais influentes da enologia bordalesa nas últimas décadas.

O vinho é elaborado principalmente com Sémillon, complementada por Sauvignon Blanc e Muscadelle, uvas afetadas pela Botrytis cinerea, a chamada podridão nobre, responsável pela extraordinária concentração de aromas e sabores. No nariz revela damasco seco, mel, frutas cristalizadas, casca de laranja e botrytis, e delicadas notas de especiarias.

Apesar da riqueza e da doçura, mantém extraordinário frescor graças à acidez vibrante, característica que confere equilíbrio e enorme capacidade de envelhecimento. Um clássico da região que representa com elegância o refinamento dos grandes vinhos doces de Bordeaux.

👉🏼Cavalleri Pinot Noir 2022 – Vale dos Vinhedos, Brasil. Produzido pela Vinícola Cavalleri, no Vale dos Vinhedos, este Pinot Noir da safra 2022 demonstra a elegância que a variedade pode alcançar na Serra Gaúcha.

Apresenta aromas delicados de cerejas, morangos e framboesas, acompanhados por sutis notas florais e um leve toque de especiarias. Em boca, revela corpo leve a médio, taninos sedosos, acidez equilibrada e um final fresco e persistente, resultando em um vinho versátil e gastronômico, que reforça a excelente fase vivida pelos vinhos brasileiros.