Andreia Gentilini


Na Itália, a região do Piemonte vai além do Barolo

Uma viagem técnica pela região mostra que o verdadeiro patrimônio vitivinícola piemontês está na extraordinária diversidade de seus territórios e variedades

Piemonte, Itália
Piemonte, Itália Foto : Andreia Gentilini / Especial / CP

Há regiões do vinho que dispensam apresentações. Piemonte é uma delas. Seu nome imediatamente nos leva ao Barolo, à Nebbiolo, às colinas das Langhe e a alguns dos vinhos mais longevos e reverenciados da Itália. Mas uma viagem técnica pela região mostra que compreender o Piemonte exige olhar além de sua grande estrela. O verdadeiro patrimônio vitivinícola piemontês está na extraordinária diversidade de seus territórios e variedades.

Nas Langhe, a Nebbiolo encontra em Barolo e Barbaresco diferentes expressões de altitude, exposição e composição dos solos; em Monferrato, a Barbera demonstra que acidez pode ser sinônimo de estrutura e longevidade; em Castagnole Monferrato, o Ruchè surpreende com seu perfil floral, especiado e absolutamente particular; em Gavi, a Cortese revela um branco de precisão, mineralidade e grande vocação gastronômica; e, nas zonas mais altas, a Alta Langa confirma que o Piemonte também possui excelentes condições para produzir espumantes de método clássico.

É esse Piemonte plural, de pequenos detalhes e grandes diferenças entre vinhedos, que merece ganhar espaço entre os apreciadores brasileiros. O Barolo continua sendo a grande estrela, mas a região é muito maior do que ele.

A viagem começou por alguns produtores que traduzem muito bem essa diversidade. Na Agricola Brandini, em La Morra, a experiência foi uma verdadeira aula de terroir. Os diferentes Cru mostraram com clareza como a Nebbiolo muda de personalidade conforme o lugar: La Morra entrega perfume, finesse e textura mais sedosa, enquanto Serralunga d’Alba acrescenta estrutura, profundidade e taninos mais firmes. O Cerretta 2021 chamou atenção, mas foi especialmente a safra 2016 que se destacou entre os vinhos provados. A propriedade também mostrou que o Piemonte não precisa ser exclusivamente tinto, com o Alta Langa 655 Chardonnay 2021 e o Le Coccinelle, branco de Arneis e Viognier. Em Castagnole Monferrato, a Montalbera apresentou outra faceta da região através do Ruchè, variedade rara e praticamente indissociável deste território. O Il Fondatore Riserva 2021 foi meu destaque, combinando perfume, frescor e estrutura. A degustação ainda passou por Grignolino, Barbera, Timorasso e uma Alta Langa Pas Dosé 2022, que reforçou uma das descobertas da viagem: os espumantes piemonteses merecem ser mais conhecidos no Brasil. Elaborados pelo método clássico e apoiados na acidez natural proporcionada pelos vinhedos de altitude, apresentam precisão, cremosidade e identidade territorial.

Andreia Gentilini em vinícola do Piemonte, na Itália | Foto: arquivo pessoal / CP

Em La Morra, a Marrone mostrou a força da tradição familiar na construção de Barolos de grande identidade. Fomos recebidos pelos proprietários, em uma experiência que aproximou ainda mais o vinho de sua origem. O Pichemei 2021 foi um dos grandes momentos da missão, com profundidade, equilíbrio, taninos refinados e uma expressão muito clara da Nebbiolo de La Morra. O Bussia 2021 também impressionou pela concentração e pelo potencial de guarda. Na Enzo Boglietti, o conceito de terroir ganhou ainda mais precisão através da leitura de diferentes parcelas. Brunate, Fossati, Boiolo e Arione mostraram que não existe uma única maneira de interpretar a Nebbiolo. O Fossati 2015 esteve entre meus favoritos, já complexo e acessível, enquanto o Brunate 2014 mostrou excelente potencial de evolução e o Arione 2011 se destacou pela complexidade. A viagem ainda reservou uma das melhores surpresas para a Michele Chiarlo. O Rovereto Gavi DOCG 2025, elaborado com Cortese, foi meu branco favorito da viagem: preciso, mineral, fresco e persistente, nascido de um dos grandes Cru de Gavi. Já o Cipressi Nizza mostrou a Barbera em uma dimensão que muitas vezes é subestimada fora da Itália: fruta, acidez, estrutura e capacidade de envelhecimento. No Alto Monferrato, a Tenuta Il Cascinone completou essa leitura com uma vertical de Barbera d’Asti Superiore Rive, incluindo as safras 2022 e 2006. A diferença entre elas foi uma demonstração prática de que a Barbera, quando bem cultivada e vinificada, pode atravessar décadas com enorme vitalidade.

O Piemonte foi a primeira parada da Missão Técnica da ABS-RS, mas certamente não será a última surpresa. Nos próximos domingos, seguimos viagem por outras regiões, buscando novos territórios, produtores e vinhos — sempre com o desafio de olhar para a Itália para além dos rótulos mais conhecidos.

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PROVEI E AMEI

  1. Montalbera Alta Langa Pas Dosé 2022 — Alta Langa DOCG: Uma das grandes descobertas da viagem foi a Alta Langa, denominação ainda pouco conhecida pelo consumidor brasileiro. O Pas Dosé 2022 da Montalbera é elaborado pelo método clássico, com longo contato sobre as leveduras, e mostra a combinação de frescor, cremosidade e mineralidade que caracteriza bons espumantes de altitude. Na taça, apresentou perlage delicada, aromas de frutas de caroço, flores e notas de panificação, com acidez firme e final persistente. É um vinho que demonstra como o Piemonte possui condições para produzir espumantes de grande precisão, e que merece entrar no radar de quem busca alternativas aos nomes tradicionais do mundo das borbulhas.
  2. Michele Chiarlo Rovereto Gavi DOCG 2025 — Gavi del Comune di Gavi: Foi o branco que mais me impressionou na viagem. Elaborado exclusivamente com Cortese, o Rovereto nasce em um dos Cru históricos de Gavi, em vinhedos de altitude e solos marcados por argila vermelha rica em ferro, pedras e cascalhos. O resultado é um vinho de grande definição: flores brancas, frutas cítricas, maçã e uma mineralidade muito evidente aparecem em uma boca fresca, estruturada e persistente. É um Gavi que foge completamente da ideia de um branco simples para consumo jovem. Tem textura, tensão e capacidade gastronômica, mostrando por que a Cortese pode ocupar um lugar muito mais relevante entre os grandes brancos italianos.
  3. Tenuta Il Cascinone Rive Barbera d’Asti Superiore 2022 — Barbera: A Barbera foi outra grande surpresa desta missão. O Rive, da Tenuta Il Cascinone, mostrou uma variedade que muitas vezes é lembrada apenas por sua acidez e fruta, mas que, em terroir adequado e com amadurecimento cuidadoso, pode alcançar grande concentração e profundidade. Na safra 2022, o vinho apresentou fruta escura, especiarias, acidez vibrante e uma estrutura que o torna extremamente gastronômico. A degustação da safra 2006 foi ainda mais reveladora: décadas depois, a Barbera continuava viva, complexa e equilibrada. É uma prova de que esta uva merece ser observada com mais atenção pelos profissionais brasileiros.
  4. Enzo Boglietti Barolo Fossati 2015 — Barolo DOCG: O Fossati 2015 foi um dos Barolos que mais gostei. Originário de La Morra, o Cru está localizado entre 370 e 420 metros de altitude, em solos argilo-limosos, e sua elaboração privilegia uma leitura de profundidade e elegância. Depois de anos em garrafa, o vinho apresentou uma combinação muito bonita de fruta escura, rosas secas, especiarias, alcaçuz e notas terciárias, sustentada por taninos finos e acidez precisa. É um Barolo que já oferece grande prazer à mesa, mas que ainda demonstra capacidade de evolução. Na degustação, foi justamente essa combinação entre maturidade, frescor e elegância que o colocou entre os meus favoritos.
  5. Agricola Brandini Barolo Cerretta 2021 — Barolo DOCG: O Cerretta 2021, da Agricola Brandini, representa uma interpretação mais estruturada da Nebbiolo e foi um dos Barolos que mais se destacou na degustação. Proveniente do Cru Cerretta, em Serralunga d’Alba, o vinho expressa a personalidade desse território, conhecido por gerar Barolos de maior estrutura, profundidade e potencial de guarda. Na taça, mostrou fruta escura, notas florais e um caráter mineral muito evidente, apoiados por taninos firmes e precisos e uma acidez que dá tensão ao conjunto. Foi justamente essa combinação entre concentração, frescor e estrutura que chamou minha atenção. O Cerretta mostra como uma mesma Nebbiolo pode mudar completamente de expressão quando deslocamos o olhar de La Morra para Serralunga: sai a sedosidade mais imediata e entra uma dimensão mais vertical, profunda e austera, que promete grande evolução em garrafa. Um Barolo que já impressiona pela qualidade, mas que certamente ainda tem muito a revelar com o tempo.