Andreia Gentilini


A vez do vinho brasileiro

Masterclass em Bento Gonçalves reuniu 100 profissionais do mundo do vinho para provar 20 rótulos que alcançaram pontuação máxima no Brazil Wine Challenge 2026

Há momentos em que uma taça diz mais do que qualquer discurso. Foi assim na noite de 27 de agosto, em Bento Gonçalves, quando 100 profissionais do mundo do vinho se reuniram para provar 20 dos vinhos brasileiros que alcançaram a pontuação máxima no Brazil Wine Challenge 2026. Não era apenas uma degustação. Era uma oportunidade de colocar diante de profissionais, produtores e consumidores uma pergunta que o mercado já responde há algum tempo: afinal, até onde chegou o vinho brasileiro? A resposta estava nas taças. Espumantes, tintos e vinhos de diferentes estilos mostraram que a excelência não é mais privilégio de uma única região. Dos tradicionais terroirs da Serra Gaúcha às novas fronteiras da vitivinicultura nacional, o Brasil começa a revelar uma diversidade que talvez seja justamente sua maior força.

O resultado do concurso ajuda a dimensionar esse movimento. Na 13ª edição do Brazil Wine Challenge, 1.127 amostras de 19 países foram avaliadas por 89 especialistas de nove nacionalidades. Com critérios mais rigorosos, que elevaram para 94 pontos a nota mínima para uma Grande Ouro, o concurso concedeu 61 medalhas nessa categoria, sendo 28 a vinhos brasileiros. E eles vieram de diferentes geografias. Rio Grande do Sul, Paraná, São Paulo, Minas Gerais e Brasília estiveram representados na Masterclass. É um retrato interessante de um país que aprendeu a experimentar: diferentes uvas, diferentes climas, diferentes formas de condução dos vinhedos e diferentes maneiras de fazer vinho. A dupla poda, os ciclos invertidos e a adaptação de variedades a novos territórios são exemplos de como pesquisa, conhecimento e ousadia estão redesenhando o mapa do vinho brasileiro.

Mas talvez a parte mais interessante dessa história esteja justamente entre a garrafa e a taça. É aí que entra o sommelier. Um bom profissional não é simplesmente alguém capaz de identificar aromas, temperaturas ou castas. Ele sabe ouvir o vinho e, principalmente, sabe ouvir quem está do outro lado da mesa. Entende o produtor, o território e a intenção por trás daquele rótulo e transforma tudo isso em uma experiência possível para o consumidor. Na Masterclass, liderada por Caroline Dani, presidente da ABS-RS, essa ideia esteve presente desde o primeiro momento: valorizar o vinho também significa valorizar quem tem conhecimento para apresentá-lo. O sommelier aproxima mundos que muitas vezes parecem distantes — o vinhedo e o restaurante, o enólogo e o consumidor, a técnica e o prazer. E, ao fazer isso, ajuda a construir valor para toda a cadeia.

É por isso que celebrar o Dia Nacional do Sommelier, em 29 de agosto, é também celebrar uma profissão que ganhou espaço à medida que o próprio consumidor passou a querer mais do vinho. Mais informação, mais histórias, mais experiências e, sobretudo, mais identidade. A ABS-RS tem papel importante nessa transformação ao formar profissionais e criar espaços para conhecimento e troca, como essa Masterclass realizada em parceria com a ABE. O vinho brasileiro já conquistou medalhas, reconhecimento internacional e qualidade técnica. O próximo passo é fazer com que essa qualidade seja cada vez mais percebida por quem abre a garrafa. E talvez essa seja uma das mais bonitas missões do sommelier: fazer com que o consumidor não apenas beba um vinho, mas entenda por que aquela taça merece ser celebrada. Porque o futuro do vinho brasileiro pode estar nas vinícolas, nos vinhedos e nos concursos. Mas também está, todos os dias, nas mãos de quem sabe servi-lo.

| Foto: Cesar Silvestro / Divulgação / CP

Provei e Amei | Cinco Grandes Ouros

  1. Valmarino Blanc de Noir Brut 2021 — Vinícola Valmarino: Começo pelos espumantes, uma das grandes vocações do vinho brasileiro. O Blanc de Noir 2021, da Valmarino, em Pinto Bandeira, é elaborado exclusivamente com Pinot Noir, pelo método tradicional, com 22 meses de maturação. É um espumante que combina delicadeza e estrutura, mostrando a elegância que a região alcançou na elaboração de borbulhas. A Valmarino, fundada em 1997 por Orval Salton, mantém vinhedos próprios em Pinto Bandeira e construiu uma trajetória marcada pela dedicação à viticultura e à elaboração de espumantes. Foi uma das escolhas que mais me chamou atenção na Masterclass e uma bela tradução da identidade dos espumantes brasileiros.
  2. Battistello Reserva Cabernet Franc 2020 — Vinícola Battistello: Um tinto que mostra como a Cabernet Franc pode entregar personalidade e elegância no Vale dos Vinhedos. A Vinícola Battistello tem raízes na imigração italiana e uma história familiar ligada ao cultivo de uvas desde o final do século XIX. Na década de 1980, foi pioneira na conversão dos vinhedos para o sistema de condução em espaldeira, buscando maior qualidade das uvas. O Reserva 2020 apresenta perfil intenso e estruturado, com frutas vermelhas, violeta e nuances de cedro, além de taninos de textura sedosa. É daqueles vinhos que mostram que o Brasil pode trabalhar variedades clássicas com identidade própria.
  3. Monumental Syrah 2023 — Vinícola Brasília: Talvez um dos vinhos que melhor simbolizam a nova geografia do vinho brasileiro. O Monumental Syrah nasce no Cerrado de Altitude, no Distrito Federal, a partir da colheita de inverno — resultado da chamada dupla poda, que permite deslocar o ciclo da videira para um período mais favorável à maturação. A safra 2023 amadureceu por 12 meses em barricas de carvalho francês e apresenta aromas de ameixa, cereja madura, lavanda e mentol, acompanhados por notas de baunilha e especiarias. A Vinícola Brasília reúne dez famílias e trabalha diferentes vinhedos e variedades na região do PAD-DF. É um vinho que merece atenção justamente porque amplia nossa percepção sobre onde o Brasil pode produzir grandes tintos.
  4. Gazzaro Passaporte Check-in — Vinícola Gazzaro: Um vinho que brinca com a ideia de viagem, mas fala muito sério quando chega à taça. O Passaporte Check-in é um blend de Marselan, Touriga Nacional e Cabernet Franc, com uvas provenientes da Serra e da Campanha Gaúcha, e passagem de 12 meses por carvalho francês. É encorpado, de taninos marcantes, acidez equilibrada e longa persistência, com frutas maduras, especiarias e notas tostadas. A Gazzaro, de Flores da Cunha, carrega uma trajetória familiar que remonta a 1945. Gosto especialmente deste vinho porque ele traduz uma característica interessante da vitivinicultura brasileira: a capacidade de combinar diferentes castas e territórios para criar cortes originais e contemporâneos.
  5. Aliança Espumante Moscatel Rosé 2026 — Nova Aliança: Para fechar, uma taça que traz leveza, perfume e muita brasilidade. O Aliança Moscatel Rosé 2026, da Cooperativa Nova Aliança, de Flores da Cunha, conquistou Grande Ouro no Brazil Wine Challenge e representa muito bem a vocação brasileira para os espumantes aromáticos. A linha Aliança trabalha a categoria Moscatel com características de frutas vermelhas, flores e frescor, equilibrando o dulçor com acidez refrescante. É um estilo democrático, gastronômico e especialmente interessante para quem está começando a descobrir o mundo do vinho. A conquista deste Grande Ouro também reforça que excelência não precisa significar apenas vinhos de grande estrutura: pode estar na delicadeza, no equilíbrio e na capacidade de proporcionar prazer.