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Mulheres lideram debate sobre misoginia e violência no South Summit

Debate reúne especialistas para discutir narrativas, tecnologia e o avanço da violência, com o projeto de criminalização da misoginia em destaque

Painel no espaço Women’s Boat, no South Summit Brazil 2026, reuniu especialistas para discutir misoginia, narrativas e violência de gênero em Porto Alegre
Painel no espaço Women’s Boat, no South Summit Brazil 2026, reuniu especialistas para discutir misoginia, narrativas e violência de gênero em Porto Alegre Foto : Eliza Gomes / Especial / CP

A aprovação do projeto de lei que criminaliza a misoginia, nesta terça-feira (24), entrou no centro do debate sobre violência de gênero durante o South Summit Brazil 2026, nesta terça-feira (25), em Porto Alegre. O tema vai ao encontro ao aumento da violência de gênero no Brasil. Em 2025, o Brasil registrou 6.904 vítimas de feminicídio, entre casos consumados e tentados, um aumento de 34% em relação a 2024, quando foram contabilizadas 5.150 vítimas. Ao todo, foram 4.755 tentativas e 2.149 assassinatos, o equivalente a quase seis mulheres mortas por dia no País.

Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL). O levantamento também aponta divergências em relação aos números oficiais: o total de vítimas supera em 38,8% os registros do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que contabilizou 1.548 mortes no período com base em dados informados pelos estados.

Realizado no espaço Women’s Boat, o encontro reuniu especialistas para refletir sobre como discursos naturalizados no cotidiano ajudam a perpetuar agressões. A discussão partiu da ideia de que a violência não começa no feminicídio, mas em comportamentos socialmente tolerados que se acumulam ao longo do tempo.

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No painel “Comunicação que protege: narrativas, comportamento e a prevenção da violência de gênero”, participaram a executiva de tecnologia Grazi Mendes e a fundadora da Rede Mulher Empreendedora (RME), Ana Fontes, com mediação da diretora de marketing das Lojas Renner, Renata Altenfelder.

A recente aprovação do projeto de lei pelo Senado foi citada como um avanço institucional em um cenário de agravamento da violência. Ainda assim, as participantes defenderam que a resposta à violência de gênero não pode se limitar a medidas legais. “Não é um problema nosso resolver essa questão. É um problema da sociedade resolver essa questão”, afirmou Ana, ao destacar que a responsabilidade pelo enfrentamento da violência não deve recair exclusivamente sobre as mulheres. Segundo ela, apenas ações coletivas têm potencial para alterar esse cenário.

Agora, o PL segue para a Câmara. Caso seja aprovado sem alterações, seguirá para a sanção do presidente da República e entrará em vigor após publicação no Diário Oficial da União (DOU). Se houver mudanças, retornará ao Senado.

Durante o debate, também foi reforçado que o ciclo da violência começa antes das agressões físicas. As chamadas “microviolências”, muitas vezes relativizadas no discurso cotidiano, foram apontadas como parte estruturante desse processo. “O ponto é a gente agir com intolerância com o que chamam de microviolências”, disse Ana. Para ela, o uso do termo pode minimizar formas de agressão como a psicológica e a patrimonial, que costumam ser invisibilizadas.

Tecnologia e cultura redpill nas redes

Outro ponto abordado foi o papel das plataformas digitais na amplificação de discursos misóginos. Grazi Mendes chamou atenção para o modelo de monetização das redes sociais, que pode incentivar conteúdos baseados em preconceito. “A tecnologia em si não cria a violência, mas ela amplifica a violência”, afirmou. Segundo ela, como as ferramentas são desenvolvidas por pessoas, acabam reproduzindo padrões e vieses já presentes na sociedade.

Dados do NetLab, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), indicam que, mesmo após o auge entre 2021 e 2025, cerca de 90% dos canais com conteúdo misógino monitorados no YouTube continuam ativos, incluindo perfis ligados à chamada cultura redpill.

Na mesma linha, pesquisas em antropologia digital da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) apontam a expansão desse ecossistema em outras plataformas. No Instagram, a presença de links associados à chamada “machosfera” passou de 6,67% no período entre 2015 e 2025 para 16,32% apenas nos primeiros meses de 2025.