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Dois anos depois: como o temporal de janeiro de 2024 modificou protocolos, expôs falhas e ensinou lições

Desastre deixou uma pessoa morta, milhões sem serviços públicos e feridas na população que demoraram a cicatrizar

Estragos do temporal de janeiro de 2024 se espalharam pela Capital
Estragos do temporal de janeiro de 2024 se espalharam pela Capital Foto : Mauro Schaefer / CP Memória

O temporal de 16 de janeiro de 2024 foi um dos mais devastadores da história recente de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul, causando prejuízos, terror e abrindo feridas que demoraram a cicatrizar na população. No Estado, uma pessoa morreu, em Cachoeirinha; 60 municípios foram diretamente afetados, conforme a Defesa Civil Estadual; 1,1 milhão de consumidores ficaram sem luz e o hospital São Vicente Ferrer, em São Vicente do Sul, teve uma ala destelhada, entre outros.

O desastre foi também, de certa maneira, um prenúncio aterrador das históricas enchentes no Rio Grande do Sul, no maio seguinte. Muito além do caos à população, a tormenta de dois anos atrás trouxe à luz falhas sistêmicas, documentadas por órgãos como a Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS (Agergs), que, pouco depois, criticou o desempenho das principais companhias de energia do RS, a CEEE Equatorial e a RGE, hoje CPFL RGE.

Com efeito, a Assembleia Legislativa instalou uma comissão especial para investigar a atuação de ambas, a qual terminou indicando "graves problemas", mas não avançou em punições ou sanções. Na Câmara Municipal de Porto Alegre, em fevereiro de 2024, foi instalada a CPI da CEEE Equatorial. Em seu relatório final, a comissão apontou, por exemplo, o restabelecimento total da energia somente 12 dias após o incidente, ou seja, em 28 de janeiro, e ainda, que a companhia não planejou adequadamente a resposta ao temporal, bem como eram insuficientes as equipes de trabalho nas primeiras 72 horas depois da tormenta.

Quanto à RGE, o restabelecimento completo de todas as unidades consumidoras somente ocorreu 11 dias depois do começo do evento. A CEEE Equatorial informou que, somente em Porto Alegre, investiu em 2024 mais de R$ 106 milhões em obras na rede de distribuição e substituiu 123,5 quilômetros de rede de baixa tensão por condutores isolados, assim como outras melhorias. Em sua área de concessão, reforçou o quadro de profissionais, inspecionou 5,5 mil quilômetros de rede e corrigiu 35 mil defeitos.

No contexto do temporal do início de 2024, o prefeito Sebastião Melo decretou situação de emergência, e os números da tragédia divulgados pela Prefeitura foram assombrosos: ventos de 120 quilômetros por hora e 76 milímetros de chuva; falta de água em 73 bairros, afetando 1,2 milhão de pessoas; mais de 100 unidades de saúde com restrições no atendimento; 5.101 chamadas à Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), além de 56 escolas danificadas.

Ficaram sem energia elétrica 35 colégios, 260 cruzamentos com semáforos e 15 centros de atendimento social. Nem mesmo a edição do dia seguinte do Correio do Povo pôde ser impressa em sua totalidade. Houve protestos pela cidade, e inclusive Melo pediu à população que doasse ou emprestasse motosserras, conseguindo dez.

Estudo recente diz que Executivo municipal foi “ineficiente” na resposta ao temporal

Um artigo publicado em dezembro de 2025 pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) analisou a resposta da Prefeitura de Porto Alegre à tempestade de janeiro de 2024. Segundo o estudo, assinado o professor Markus Erwin Brose, coordenador do Observatório de Inovação em Água e Clima no RS da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) e doutor em Sociologia Política pela Universidade de Osnabrück, na Alemanha, "não há possibilidade de argumentar que o Executivo municipal tenha sido surpreendido em 16 de janeiro de 2024, e por esse motivo seria inexperiente e estava despreparado".

O argumento dele é que, mesmo reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU) como Hub de Resiliência em agosto de 2023, o que se viu na prática foi outra realidade. "Frente à ineficiência em responder aos impactos do desastre de 16 de janeiro de 2024, desconsiderando estudos e diagnósticos prévios, ao invés de assumir responsabilidades pelas consequências de sua plataforma política, a escolha estratégica pelo Executivo tem sido um marketing arcaico", diz Brose no estudo.

Segundo o artigo, ao "apontar desastres como sendo fenômenos ‘naturais’ e imprevisíveis; buscar culpados externos como a concessionária de energia, promessas vagas de melhorias em futuro distante", entre outros, há "greenwashing na narrativa oficial", conceito este que, ainda nas palavras do professor, "consiste em divulgação falsa sobre sustentabilidade". Procurada para um contraponto diante das colocações do artigo, a Prefeitura disse que não se manifestaria, mas salientou que o evento foi "atípico", e "prontamente respondido pela gestão nas semanas seguintes, com diversos órgãos municipais".

Brose disse ter argumentado no estudo que o conceito de resiliência, trazido ao longo das últimas administrações municipais na Capital, falhou ao menos diante desta tragédia. "A realidade do desastre de janeiro de 2024 mostrou que esta estratégia de resiliência que passou por quatro prefeitos diferentes não foi na verdade resiliente. Vários governos municipais, mais uma fundação internacional, não cumpriram com sua promessa", afirmou ele.

A fundação citada é, de acordo com o professor, a Rockefeller, que inicialmente doou R$ 5 milhões para auxiliar na construção da Estratégia de Resiliência de POA, divulgada em 2015. O interesse obtido pelo projeto fez com que mais organizações ingressassem na iniciativa, culminando no reconhecimento de Porto Alegre pela ONU em 2023.

Os fatores climáticos que ocasionaram a tragédia

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o verão finalizado em março de 2024 teve 413,2 milímetros de chuva na Capital, 18% mais chuvoso em Porto Alegre, do que a média sazonal entre os anos de 1991 e 2020, de aproximadamente 350 milímetros. Já a MetSul Meteorologia afirmou que houve um cenário considerado “complexo e pouco comum no verão”, com a passagem de uma área de baixa pressão em níveis médios e altos da atmosfera avançou do Chile para o oeste e o centro da Argentina, e em seguida para o Uruguai.

Ao mesmo tempo, uma intensa corrente de ar muito quente avançava pelo norte argentino até o Uruguai e o RS, fornecendo energia para o clima instável, gerando uma linha de instabilidade, vinda do oeste e sul gaúchos. Ao alcançar Porto Alegre, desenvolveu uma célula de tempestade ainda mais violenta. A MetSul ainda disse que tal ocorrência é rara, e que algo igual ou parecido havia sido apenas visto poucas vezes nos dez ou 15 anos antes.

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