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Como uma campanha do Correio do Povo ajudou a salvar o monumento público mais antigo de Porto Alegre

Recém-revitalizada, a fonte Afluentes do Guaíba escapou da destruição há mais de 100 anos após mobilização

Monumento Afluentes do Guaíba está instalado no Jardim do Dmae desde 2014 e passou por recente revitalização
Monumento Afluentes do Guaíba está instalado no Jardim do Dmae desde 2014 e passou por recente revitalização Foto : Luciano Lanes / PMPA

Se hoje a mobilização da sociedade e o trabalho da imprensa têm um papel claro na preservação da memória urbana, Porto Alegre já via esse movimento acontecer há mais de um século. A história do resgate do monumento público mais antigo da Capital é prova disso.

Recentemente revitalizado e instalado no Jardim do Dmae, no bairro Moinhos de Vento, o conjunto Afluentes do Guaíba — originalmente chamado de Chafariz do Imperador — teve sua história marcada por desmontagens, atos de vandalismo, desaparecimentos e longos períodos de abandono.

Em 1924, já quase condenado a um fim definitivo, o monumento foi salvo após uma campanha iniciada nas páginas do Correio do Povo, que impediu que as esculturas em mármore de Carrara fossem transformadas em pó.

O chafariz e a modernização urbana da Capital

Instalado entre o fim de 1866 e o início de 1867 na Praça da Matriz, no Centro Histórico, o então Chafariz do Imperador tinha a função de distribuir água potável à população. A obra fazia parte de um contrato firmado em 1861 entre a Companhia Hidráulica Porto-Alegrense e o governo provincial, que previa a instalação de oito chafarizes na cidade.

Mais do que um equipamento de abastecimento, porém, o conjunto tornou-se símbolo da modernização urbana da Capital. Esculpidas em mármore de Carrara, as peças representavam a riqueza hídrica da região e ornamentavam um dos principais espaços públicos da cidade.

A base da escultura é composta por quatro estátuas: duas figuras femininas, as Ninfas, que simbolizam os rios Caí e dos Sinos, e duas masculinas, os Netunos, representando os rios Jacuí e Gravataí.

Já a quinta peça do conjunto original, que ficava no topo do monumento, representava o Guaíba na figura de um menino com barrete frígio, espécie de touca associada aos ideais de liberdade e autonomia presentes também no movimento farroupilha. Desaparecida por décadas, a escultura foi localizada recentemente com particulares.

Estátua representando o Guaíba, que fazia parte da fonte Afluentes do Guaíba, o antigo Chafariz do Imperador, em exposição na Fundação Iberê Camargo, em 2024 | Foto: Letícia Heinzelmann / Especial / CP Memória

A autoria do projeto é atribuída ao escultor e arquiteto italiano José Obino, radicado no Brasil. Em 1958, uma matéria publicada no Correio do Povo pelo crítico de arte Aldo Obino, neto do artista, reivindicou a autoria da obra para o avô. Em registros jornalísticos de 1924, porém, o autor do monumento ainda aparecia como desconhecido.

O Chafariz do Imperador na Praça da Matriz em 1867 | Foto: Autor desconhecido/Reprodução do trabalho de Cristina Gibrowski

A retirada da Praça da Matriz e o risco de destruição

A história de mudanças e desmontagens do chafariz começou em 1907, quando a prefeitura o retirou da Praça da Matriz para dar lugar ao monumento em homenagem a Júlio de Castilhos, presente no local até hoje. As peças permaneceram armazenadas nos depósitos da Companhia Hidráulica Porto-Alegrense por quase duas décadas.

Em 1924, as esculturas foram vendidas a um marmorista que pretendia utilizar o mármore em mausoléus funerários ou transformá-lo em pó.

O caso veio a público graças a uma carta publicada pelo Correio do Povo na edição de 26 de novembro de 1924, intitulada “Um Chafariz tradicional”, cuja autoria foi mantida em sigilo, mas revelava que era uma pessoa de destaque no meio social. A carta fazia um apelo para salvar o antigo chafariz da destruição:

“Aquele [...] que representava os nossos cinco rios, aquele que hoje valeria muitas dezenas de contos, acaba de ser vendido a um canteiro de cemitério pela insignificante importância de dos contos de reis, como mármore velho e imprestável! Oh! triste condição das cousas. Fale Sr. Redator diga alguma coisa. [...] e não permita que o ímpio serrote [...] cumpra sua triste sina de dividir aquele bloco de arte. Que volte novamente com a nova cidade!”

A história do monumento foi reunida no estudo De Chafariz Imperador para Afluentes do Guaíba: uma síntese da trajetória histórica deste monumento na paisagem urbana de Porto Alegre (1866-2014), da pesquisadora Cristina Gibrowski.

Carta publicada pelo jornal Correio do Povo na edição de 26 de novembro de 1924, denunciando a possível destruição. | Foto: CP Memória

A campanha no Correio do Povo

Após a denúncia, o Correio do Povo iniciou uma série de reportagens sobre o destino do monumento. Em uma matéria investigativa publicada dois dias depois, o jornal criticou a forma como a obra havia sido tratada pela companhia hidráulica, que, ao ser procurada, classificou o conjunto como um “trambolho”.

“É de pasmar! Por trambolho era tida uma obra unanimemente apreciada. Nem ao menos seu valor histórico inspirava admiração. Tinha ficado resolvido a sua venda e era o bastante”, escreveu o redator da reportagem.

A mobilização repercutiu entre autoridades e lideranças religiosas da época. O então intendente Otávio Rocha, que acompanhava a campanha, determinou a negociação para que as peças fossem adquiridas pelo poder público, evitando a destruição das esculturas.

Em uma das reportagens, Otávio Rocha afirmou: “Devemos evitar que o martelo iconoclasta destrua essa obra de arte.”

A promessa inicial era reinstalar o conjunto na Praça Montevidéu, mas isso nunca chegou a acontecer.

Mudanças de endereço e décadas de abandono

O conjunto voltaria a aparecer apenas em 1935 e 1936, durante a reurbanização da Praça Dom Sebastião para as comemorações do centenário da Revolução Farroupilha. As esculturas dos afluentes foram instaladas em meio a riachos artificiais, mas sem a estátua do Guaíba, que desapareceu do espaço público.

Nas décadas seguintes, o monumento sofreu sucessivos atos de vandalismo e perdeu partes importantes das esculturas. O abandono do conjunto passou a ser alvo recorrente de denúncias da imprensa, especialmente após as peças serem removidas da Praça Dom Sebastião, em 1983, e levadas para um depósito municipal.

A repercussão pressionou o poder público por uma nova reinstalação do monumento. Em 1996, após outra urbanização da praça, as esculturas voltaram ao espaço público cercadas por gradil de ferro e instaladas em meio a um espelho d’água, numa tentativa de proteger as peças de novos danos.

Restaurações e novo local

A restauração mais ampla do conjunto ocorreu em 2014, quando as esculturas foram transferidas para os jardins da Hidráulica Moinhos de Vento, atual Jardim do Dmae. O trabalho contou com apoio da Secretaria Municipal da Cultura, do Dmae e do Ministério Público Estadual.

Já a quinta estátua do conjunto original, que representa o Guaíba na figura de um menino, permaneceu desaparecida do olhar público por décadas. Em 2004, pesquisas do historiador José Francisco Alves revelaram que a peça ainda existia e estava em posse de particulares. Anos depois, reportagens da imprensa voltaram a cobrar sua devolução.

Em 2024, a escultura reapareceu publicamente em uma exposição da Fundação Iberê relacionada ao tema dos rios.

A revitalização mais recente do monumento foi concluída em maio deste ano. Segundo a prefeitura, os trabalhos incluíram tratamento de fissuras na bacia de armazenamento da água, limpeza do sistema do chafariz, pintura e impermeabilização da estrutura.

Um novo motor também foi instalado para ampliar o tempo de funcionamento da fonte sem comprometer a qualidade da água. De acordo com o Executivo municipal, os materiais utilizados possuem resistência à água para aumentar a durabilidade das melhorias.

Estátua personificando o rio Caí, na Praça Dom Sebastião, já depredada | Foto: João Carlos Rangel/ CP Memória

Como visitar

O Jardim do Dmae fica na rua 24 de Outubro, nº 200, no bairro Moinhos de Vento. O espaço é aberto diariamente ao público, das 8h às 18h.

Por se tratar de uma área ligada às atividades de saneamento e distribuição de água, há algumas restrições sanitárias no local, incluindo a proibição da entrada de animais.

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