Em Porto Alegre, a expressão “ir pra Goethe” virou, ao longo do tempo, uma referência para falar de celebrações coletivas, especialmente no futebol. Um título ou uma vitória importante levavam centenas, às vezes milhares, de gremistas e colorados a esse ponto da cidade.
Para além das conquistas dos clubes gaúchos, a avenida também foi palco de festa quando a Seleção Brasileira conquistou o pentacampeonato na Copa do Mundo de 2002. Em fases ruins, virou ponto de protesto de torcedores.
Recordar esses momentos leva à pergunta sobre o que fez desse lugar um símbolo de comemoração na Capital e por que ele já não reúne o mesmo público de antes. A explicação envolve uma combinação entre história urbana, cultura torcedora e transformações sociais.
De hipódromo a ponto de encontro
Localizada entre os bairros Rio Branco e Moinhos de Vento, a Avenida Goethe surgiu no fim dos anos 1960, em meio ao processo de modernização de Porto Alegre. O nome da via é uma homenagem a Johann Wolfgang von Goethe, um dos principais nomes da literatura alemã, refletindo a forte influência da imigração germânica na região, especialmente no bairro Moinhos de Vento.
A abertura da avenida está ligada à implantação da Segunda Perimetral, durante a gestão do prefeito Thompson Flores, e à transformação da área que abrigava o Hipódromo dos Moinhos de Vento, conhecido como Prado Independência, onde funcionava o Jockey Club do Rio Grande do Sul.
Com a transferência das corridas e das atividades do clube para o bairro Cristal, em 1959, o espaço foi redesenhado e deu lugar ao Parque Moinhos de Vento, o Parcão, inaugurado em 1972 junto com a avenida.
O historiador Charles Monteiro, professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS) explica que a Perimetral fazia parte de uma lógica de expansão metropolitana e buscava desafogar o trânsito do Centro, conectando diferentes regiões da cidade em um grande eixo viário.
Nesse trajeto, a via aproximava regiões historicamente ligadas ao esporte, conectando o Moinhos de Vento à Azenha e ao Menino Deus. De um lado, estava a memória do antigo Hipódromo e do Estádio da Baixada, primeira casa do Grêmio e palco do primeiro Gre-Nal, em 1909. Do outro, ficavam o Estádio Olímpico e o Estádio dos Eucaliptos.
“Se criou uma grande via de comunicação entre bairros da cidade, fazendo um circuito perimetral”, afirma Monteiro. “Ao longo do tempo, com a questão dos transportes, se tornou um espaço de passagem também dos torcedores”.
Pensada como uma avenida arborizada, de traçado sinuoso e voltada ao uso do automóvel, a Goethe rapidamente se integrou a uma região marcada por lazer, moradia de alto padrão e intensa circulação.
Com o tempo, bares e estabelecimentos ajudaram a consolidar a área como um dos principais pontos de vida noturna da cidade. Esse movimento acabou favorecendo a ocupação espontânea da avenida em momentos de festa.
Território negro
Entretanto, antes de se consolidar como uma região associada à elite, a área era marcada por diferentes formas de ocupação. Onde hoje está a avenida, floresceu a Colônia Africana, território que se estendia do Rio Branco ao Mont’Serrat e se tornou um importante espaço de sociabilidade e resistência da população negra no pós-abolição.
A área era marcada por intensa vida cultural e religiosa, com forte presença do catolicismo popular e de terreiros de matriz africana, convivendo muito próxima da sociabilidade das elites que frequentavam o antigo Prado.
Para a historiadora Zita Possamai, a região evidencia como diferentes grupos sociais compartilhavam o mesmo espaço urbano naquele período. “Tínhamos sociabilidades muito diversas naquela mesma área, do pós-abolição de camadas mais pobres e negras da cidade, e das elites ligadas ao Prado”, afirma.
Com o avanço da urbanização e das transformações na região, populações negras e pobres que ocupavam historicamente esses territórios foram sendo progressivamente deslocadas para áreas periféricas de Porto Alegre. O processo abriu espaço para a configuração urbana que passou a marcar o bairro nas décadas seguintes.
As primeiras comemorações ligadas ao futebol
Foi nesse contexto de transformação que as comemorações de torcedores começaram a ganhar força na Goethe no fim dos anos 1970. Embora não haja consenso absoluto sobre o início dessa tradição, um dos primeiros momentos associados a ela teria sido o título gaúcho do Grêmio em 1977, quando torcedores se reuniram na região para comemorar a vitória e o fim da série de oito títulos do Inter.
Naquele período, celebrar também significava circular pela cidade. Carros buzinando, deslocamentos em grupo e encontros improvisados faziam parte do ritual. Outras vias, como a 24 de Outubro e a Vasco da Gama, também recebiam torcedores.
O auge das festas coletivas
Com o passar dos anos, o endereço se consolidava como ponto de encontro em dias históricos para os torcedores. Em 2002, foi ponto de comemoração do título mundial da Seleção Brasileira. Em 2006, recebeu colorados após a Libertadores e o Mundial conquistados pelo Internacional. Em 2008, voltou a ser ocupada nas celebrações da conquista da Sul-Americana pelo Inter e Campeonato Gaúcho pelo Inter
A década seguinte manteve a tradição. Em 2016, cerca de 20 mil gremistas se reuniram na avenida para festejar a Copa do Brasil, com telões instalados pelo próprio clube. No ano seguinte, a via voltou a ficar tomada com o título da Libertadores.
O espaço também passou a abrigar provocações entre torcidas e manifestações em momentos de crise. Em 2016, ano em que o Inter sofreu o rebaixamento, uma faixa instalada no viaduto da avenida pedia “raça, vontade, amor e honra” aos jogadores. No mesmo período, gremistas se reuniram no local para comemorar a queda do rival, em um encontro marcado por provocações e registrado em manchetes da época.
Em 2019, torcedores do Grêmio estenderam uma faixa com o apelo “Fica, Luan! A América nos espera outra vez”, em referência à disputa da Libertadores. Em 2025, foi a vez dos torcedores gremistas usarem o espaço para criticar a direção e a equipe após a eliminação na terceira fase da Copa do Brasil para o CSA.
- Morro Santana: o bairro que cresceu no entorno do ponto mais alto de Porto Alegre
- Areal da Baronesa: território quilombola mantém viva a ancestralidade negra em Porto Alegre
- Menino Deus: as histórias pouco lembradas de um dos bairros mais tradicionais de Porto Alegre
O que explica as mudanças na Goethe
Para o historiador Gerson Fraga, professor da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e pesquisador da formação da identidade de torcedores no futebol, a forma como a avenida é ocupada hoje reflete mudanças mais amplas em Porto Alegre e na cultura do futebol. Com a expansão urbana e o surgimento de novos polos de encontro, grandes eventos passaram a ser realizados em diferentes regiões.
Assim, as comemorações deixaram de se concentrar em um único ponto e passaram a se espalhar entre estádios, bares e espaços privados, influenciadas também por questões de mobilidade, segurança e trânsito.
O historiador avalia que essas transformações estão ligadas a mudanças tecnológicas, econômicas e sociais, além do crescimento de um público que acompanha os jogos fora dos estádios, pela televisão ou em encontros coletivos
Fraga também destaca que o aumento dos preços e a nova configuração dos estádios reduziram a presença popular e alteraram a sociabilidade que antes se estendia às ruas após as partidas.
Do futebol às manifestações políticas
Com o tempo, a Goethe passou a concentrar não apenas celebrações esportivas, mas também manifestações políticas. A região da avenida e do Parque Moinhos de Vento ficou marcada por protestos contra o governo Dilma Rousseff em 2015 e 2016, além de mobilizações em apoio à Operação Lava Jato.
Nos anos seguintes, o espaço seguiu recebendo diferentes atos, incluindo manifestações em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro em 2023 e 2024, além de protestos com posicionamentos diversos, tanto contrários quanto favoráveis ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva, e pedidos de impeachment no Supremo Tribunal Federal.
O cruzamento com a Rua Mostardeiro passou a ser chamado de Esquina da Liberdade, denominação oficializada por lei em 2020 e sinalizada em 2024, o que consolidou o local como ponto recorrente de mobilização política na cidade.