Em 1904, em meio a uma Porto Alegre em processo de urbanização e industrialização, nasceu o Estádio da Baixada, a primeira casa do Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense. Construído em um terreno plano e coberto de grama, na “baixada” da chácara da família Mostardeiro, o campo logo ultrapassou a condição de simples espaço esportivo e tornou-se ponto de encontro da cidade, palco de festas e símbolo da nova vida urbana que começava a se desenhar na Capital.
Neste dia 15 de setembro, o Grêmio completa 122 anos de história. Para marcar a data, relembre como tudo começou.
Foi ali que, em 1909, aconteceu o primeiro Gre-Nal da história. Uma goleada de 10 a 0 aplicada pelo Grêmio sobre o recém-fundado Internacional deu início à rivalidade que marcaria para sempre o futebol gaúcho.
Com o passar das décadas, o Fortim da Baixada, como era conhecido, cedeu lugar ao crescimento da cidade. Onde antes havia campo e arquibancada, hoje está o movimento das ruas no entorno do Parque Moinhos de Vento, o Parcão, um dos principais pontos de lazer de Porto Alegre, na esquina da Avenida Goethe com a Rua Mostardeiro. Do antigo estádio, restou a memória. Uma placa instalada próxima à entrada do parque lembra a sua importância histórica.
Para muitos, o registro passa despercebido. Mas há quem guarde lembranças vivas daquele tempo. O aposentado Gerson Seger, 79 anos, morador da Avenida Independência, habituado a caminhar pelo parque durante as tardes, sempre com uma peça do Tricolor no vestuário, conta que esteve na Baixada quando criança, levado pelo pai, já nos anos finais em que o clube ocupava o terreno. Desde então, a ligação com o Grêmio só se fortaleceu.
“Vim aqui algumas vezes quando era criança, tinha uns oito anos. Meu pai já era ligado ao Grêmio e passou essa paixão para os filhos. Depois, seguimos para o Olímpico e curtimos muito com o clube. É uma paixão”, recorda.
A memória da Baixada também desperta curiosidade entre os mais jovens. O torcedor gremista Felipe Canal, 28 anos, doutorando em Engenharia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), descobriu a história do antigo estádio após se mudar para Porto Alegre.
“Sou catarinense e me tornei gremista por influência da família. Em 2021, me mudei para cursar a pós-graduação e, logo nos primeiros passeios pela cidade, encontrei o monumento no Parcão. Foi surpreendente perceber que nesse lugar onde hoje é um parque tão grande foi onde começou a trajetória do Grêmio. Acho que muita gente que circula por aqui não faz ideia disso”, comenta.
O início de tudo: a busca pela casa própria
Documentos que ajudam a contar a história que iniciou há mais de 120 anos, também seguem preservados no Museu do Grêmio, sob o cuidado do historiador Daison Sant'Anna. Com atenção e entusiasmo, ele e outros colaboradores conduzem os visitantes pelo memorial, onde uma linha do tempo reconstitui os anos vividos na Baixada. “É olhando esses registros que conseguimos nos localizar na história”, afirma.
A busca pelo espaço próprio surgiu cedo. Menos de um ano após a criação do clube, dirigentes liderados por Augusto Koch percorreram Porto Alegre à procura de um terreno. Encontraram entre as ruas Mostardeiro e Dona Laura, ao lado do Prado Independência, o ponto ideal para construir a primeira casa do time. Durante sete anos, o Grêmio pagou aluguel pelo espaço, até a compra ser oficializada em 1911.
“Declaro-lhe que estou conforme a ceder o terreno de uma quadra nos Moinhos de Vento ao Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense, pelo preço de 10:000$ [10 mil cruzeiros] à dinheiro.” diz o cartão de venda destinado ao então vice-presidente Augusto Koch.
Nos primeiros anos, o estádio dividia espaço com outras atividades da região. A área, chamada de Schützenverein Platz, era utilizada pelo Clube de Atiradores Alemães, que possuía um casarão no alto do terreno, alugado pelo Grêmio como vestiário. A Baixada também ficava ao lado do Musterreiter Club, o Clube Caixeiros Viajantes, que até hoje mantém sede no local.
O crescimento do futebol na cidade transformou a Baixada em palco de grandes partidas. Em 1912, o clube ergueu um pavilhão de madeira carinhosamente apelidado de “Pombal”, que abrigava sócios e autoridades. Poucos anos depois, em 1918, a estrutura foi ampliada em alvenaria, dando lugar a salas administrativas, salão de festas e até uma cancha de bolão, tornando o estádio também uma sede social.
Palco do primeiro clássico Gre-Nal
Ao longo de cinco décadas, a Baixada foi palco de conquistas e de clássicos históricos, como o primeiro Gre-Nal da história, em 18 de julho de 1909, vencido pelo Grêmio por 10 a 0. Segundo registros da época, o Internacional tinha pouco mais de dois meses de vida quando o jogo amistoso foi promovido com a intenção de trazer mais visibilidade para o novo clube e promover o futebol na cidade.
Dominado pelo Tricolor, o Inter conseguiu chegar até o reduto do rival apenas duas vezes durante a partida. Após a peleia que marcou o início de uma rivalidade que se consolidou como uma das maiores do Brasil, o feito foi comemorado em tradicional baile promovido após os jogos.
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Em 1935, o Grêmio de Lara Campeão Farroupilha
Outro momento importante aconteceu em 1935, quando a Baixada sediou a decisão do Campeonato Citadino, que ficou conhecido popularmente como Campeonato Farroupilha, por ser disputado 100 anos após a Revolução Farroupilha.
Naquele 22 de setembro, o Grêmio venceu o Internacional por 2 a 0, com gols de Foguinho e Lacy. O título também ficou marcado por ser a última partida do goleiro Eurico Lara, um dos maiores ídolos gremistas, que atuou mesmo debilitado em campo.
Da Baixada ao Olímpico
Mas o tempo trouxe mudanças. A partir do fim da década de 1930, o futebol brasileiro vivia a transição para o profissionalismo, e a velha Baixada já ficava pequena para atender às demandas do clube e da torcida. Enquanto parte da diretoria defendia reformas, outros sonhavam com um novo estádio.
O pavilhão original foi demolido e, em 1944, ergueu-se uma nova estrutura provisória de madeira, que resistiu até os anos finais de atividade no local. O último pavilhão entraria para a história ao ser cedido ao Clube Força e Luz como parte do pagamento na compra do zagueiro Airton, que, por isso, passou a ser chamado de Airton Pavilhão.
Depois de cinquenta anos na tradicional Baixada do Moinhos de Vento, o Grêmio se estabeleceu definitivamente na Avenida Dr. Carlos Barbosa, onde construiu o Estádio Olímpico Monumental, inaugurado setembro de 1954, e onde permaneceu até fevereiro de 2013, quando o clube passou a utilizar a Arena.