O termo Sarandi tem origem na palavra tupi sara’ndi ou sarandywa. O significado está ligado a paisagens de rios e banhados, com vegetações típicas de áreas úmidas e terrenos marcados pela presença da água. A palavra também é usada para identificar arbustos e pequenas árvores que crescem às margens de rios e áreas alagadas.
O terceiro bairro mais populoso de Porto Alegre, com 51.539 habitantes segundo o Censo de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), recebeu justamente esse nome.
Localizado na Zona Norte da Capital, o Sarandi surgiu em uma área conhecida historicamente como Várzea do Gravataí, próxima ao rio Gravataí e a cursos d’água que influenciaram o desenvolvimento da região.
Muito antes da urbanização, o território era ocupado por chácaras, estâncias e tambos de leite que conviviam com as características naturais da várzea. As cheias faziam parte da paisagem e, por décadas, o difícil acesso e o solo encharcado limitaram a expansão da área. Ainda assim, a região ajudou a abastecer Porto Alegre ao longo do século XIX.
🏡A história até se tornar um bairro
A extensão que hoje corresponde ao Sarandi fazia parte da antiga sesmaria de Jerônimo de Ornelas, um dos primeiros grandes lotes distribuídos durante a formação de Porto Alegre.
Ao longo do século XIX, a região foi ocupada principalmente por propriedades rurais e pequenas produções agrícolas. Já no início do século XX, o cultivo de arroz ganhou espaço nas margens do Gravataí, aproveitando justamente a abundância de água.
A urbanização da região se intensificou a partir da década de 1940, quando Porto Alegre começou a crescer em direção à Zona Norte. A antiga área de várzea passou então a receber obras de saneamento e novos projetos habitacionais.
Um dos marcos desse período foi a compra da área da antiga Vila Caiu do Céu pelo Grêmio, em 1945, para a construção do estádio Olímpico, o que incentivou o crescimento de outras regiões da cidade.
Foi nesse contexto que surgiram algumas das vilas que mais tarde formariam o Sarandi. A Vila Meneghetti foi uma das primeiras, seguida pela Vila Leão, em 1952. Ainda nos anos 1950, também nasceram as vilas Parque, Elizabeth e Minuano.
A oficialização do bairro veio em 7 de dezembro de 1959, por meio da Lei nº 2.022, que definiu seus limites.
Um bairro moldado pelas águas
A relação do Sarandi com a água sempre foi importante. Cortado pelo arroio Sarandi (também conhecido como Arroio Passo das Pedras) e protegido por diques contra as cheias do rio Gravataí, o bairro convive historicamente com alagamentos e enchentes.
Quando períodos de chuva intensa atingem Porto Alegre, grande parte da drenagem da Zona Norte acaba passando pelos arroios que cruzam a região. Em eventos extremos, o sistema de proteção enfrenta dificuldades para conter o volume de água.
Foi o que ocorreu em maio de 2024, durante a maior enchente da história do Rio Grande do Sul. O Sarandi esteve entre os bairros mais atingidos da Capital após as águas do rio Gravataí e do Guaíba ultrapassarem a proteção dos diques. Conforme a prefeitura, aproximadamente 26 mil pessoas foram atingidas somente no bairro.
Desde a enchente de 2024, estudos do Dmae indicaram a necessidade de reconstrução do Dique do Sarandi, exigindo a retirada de famílias da região e gerando desafios sociais no diálogo com os moradores.
As obras em áreas desabitadas foram concluídas em março de 2025, enquanto a reconstrução do trecho 2 começou em junho do mesmo ano e seguiu até janeiro de 2026. Ainda falta a execução do trecho 3, entre o ponto reconstruído e a avenida Assis Brasil.
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Quilombo dos Machado preserva tradições e luta por território
O Sarandi também abriga uma das comunidades quilombolas urbanas mais conhecidas de Porto Alegre, o Quilombo dos Machado, reconhecido oficialmente pela Fundação Cultural Palmares em 2014.
A história da comunidade está diretamente ligada às cheias que marcaram a região ao longo das décadas. Após uma grande enchente do rio Gravataí nos anos 1970, famílias passaram a ocupar áreas próximas ao atual território quilombola, onde a comunidade cresceu e consolidou sua identidade.
Atualmente, o Quilombo dos Machado reúne centenas de famílias que lutam pela titulação do território e pela preservação de tradições ancestrais na Zona Norte.
Iniciativas comunitárias
As enchentes de 2024 também evidenciaram a forte mobilização comunitária do Sarandi. Em meio à reconstrução do bairro, moradores, voluntários e organizações locais estruturaram redes de apoio, centros de arrecadação e ações coletivas de auxílio às famílias atingidas.
O bairro também se destaca por iniciativas culturais e sociais voltadas ao fortalecimento da identidade local. Projetos como o Viva Elizabeth promovem arte urbana, educação ambiental e atividades culturais.