Entre as movimentadas avenidas Farrapos e Alberto Bins, chama atenção o antigo Hospital Ferroviário, imponente estrutura cinzenta e inacabada no bairro Floresta. Os quatro andares que abrigaria o Hospital Ferroviário – para atender funcionários ligados à Associação dos Ferroviários – nunca foi concluída.
Agora, o prédio que ocupa quase meio quarteirão no bairro central de intensa especulação imobiliária será moradia para 40 famílias ligadas à Cooperativa e Trabalho e Habitação 20 de Novembro. Depois de uma longa espera de 18 anos, enfim, o projeto licenciado pelo Minha Casa Minha Vida Entidade muda a paisagem da rua Barros Cassal, 161, e se torna o primeiro na capital gaúcha a ser executado nestes moldes.
O prédio de 2,9 mil metros quadrados começou a ser construído em 1960 para ser o Hospital Ferroviário, atendendo aos trabalhadores da Associação dos Ferroviários Sul Riograndense – associação criada em 1931. Paralisada em 1964 com a instauração da ditadura militar no país, a construção nunca foi retomada e a cedência do patrimônio voltou para a União.
A construção inacabada ficou abandonada por 50 anos até virar a ocupação e, depois, o assentamento 20 de Novembro. As famílias chegaram ao prédio vazio em 2006 após serem removidas de um terreno na avenida Padre Cacique - que entraria no rol das obras para a Copa do Mundo 2014.
Inicialmente, 14 famílias já estavam morando no prédio, em parte da estrutura que estava segura para habitar. Com o início da reforma, em novembro deste ano, elas precisaram deixar a estrutura. O prazo de conclusão da reforma é de 24 meses – com o retorno dos moradores previsto até novembro de 2026.
“Esse projeto é o cumprimento da função social da propriedade. Um patrimônio público numa área central. Utilizar esses imóveis em áreas que já têm infraestrutura e equipamentos públicos já é um fato significativo para nós”, afirma Ceniriani Vargas da Silva, conhecida como Ni, lembrando que historicamente famílias pobres são realocadas em zonas periféricas e distantes, muitas vezes sem acesso à escolas, a posto de saúde e longe dos centros de trabalho. Ela é coordenadora Estadual do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e fundadora da Cooperativa 20 de Novembro.
Obras assentamento
O local também foi ponto de coleta de doações e fornecimento de alimentação durante a enchente de maio deste ano. Sem luz e com a água da enchente ameaçando na esquina do quarteirão, o assentamento abriu as portas à comunidade. Foi um momento de proximidade com quem antes tampouco sabia a história daquele local.
A estrutura construída para ser um hospital sofrerá algumas mudanças para ser o conjunto de apartamentos. No processo de derrubada de paredes e limpeza, que integra a primeira fase das obras, alguns detalhes lembram antigas vivências no espaço. A parede colorida, as frases de afirmação e luta, as marcações que acompanhavam o crescimento da pequena Thainá. Aos poucos a construção se modifica e os tijolos inteiros são enfileirados num canto para o reaproveitamento. Nada se perde.
O projeto segue o conceito de “morar sustentável”, explica a líder do MNLM, com uma estrutura que comporta placas solares, cisterna para reaproveitamento da água da chuva, horta e cozinha comunitária. As árvores também foram cuidadosamente analisadas junto de uma bióloga para avaliar a permanência no terreno. “Todas têm uma história. Assim como tudo aqui. Esse pé de amora sobreviveu por 25 anos em meio aos escombros no terraço do prédio”, diz ela apontando para a árvore agora replantada no terraço. “Ele é tão guerreiro que merece ser morador definitivo”, brinca.
A estrutura que fica aos fundos do prédio principal, que antes servia como câmara mortuária e espaço de caldeiras, será um espaço cultural com salas coletivas para oficinas e trabalhos manuais como costura, artesanato e serigrafia. O entendimento de Ni sobre “casa” vai além de um teto sobre a cabeça e um chão sobre os pés. É um espaço de vivência comunitária, ela lembra, reforçando que “casa não é só um quadrado”.
“É uma responsabilidade muito grande porque tem que dar certo. Tem que dar certo pra gente dizer que é possível fazer um projeto com o pensamento que moradia não é só o metro quadrado para uma família. Estamos tentando construir aquilo que defendemos como um projeto de habitação ideal”, defende ela elencando todas as necessidades deste guarda-chuva: geração de renda, cultura, crianças, educação, questão ambiental, diálogo com o território e alimentação saudável.