O Brasil gera cerca de 4 milhões de toneladas de resíduos têxteis por ano, o equivalente a 44 kg por domicílio, segundo dados recentes da S2F Partners divulgados pela Agência Brasil. Desse total, cerca de 80% ainda são descartados de forma inadequada, sem reaproveitamento ou reciclagem. No mundo, o cenário é ainda mais alarmante: a indústria da moda é responsável por aproximadamente 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis anuais e por até 10% das emissões globais de gases do efeito estufa, de acordo com estimativas do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)
Esse modelo de produção linear, baseado em extrair, fabricar, consumir e descartar, está no centro das discussões sobre sustentabilidade no setor. Como resposta, surge o conceito de moda circular, que busca prolongar a vida útil das peças e repensar os processos produtivos para reduzir o desperdício, o impacto ambiental e a exploração de recursos naturais.
No Brasil, o mercado de segunda mão é uma das principais expressões dessa mudança. Estima-se que até 2027 o setor movimente cerca de R$ 78 bilhões. De acordo com dados do Sebrae, em 2023 o número de brechós ativos já ultrapassava 118 mil, e a expectativa é que até o fim de 2025, cerca de 20% do guarda-roupa dos brasileiros seja composto por peças seminovas.
Para a professora do curso de moda da Feevale Marina Seibert Cezar, a moda circular pode ser vista como uma maneira de repensar os produtos para que eles sejam ecologicamente mais eficientes.
“Nesse modelo, que seria teoricamente o ideal, a gente elimina a própria ideia de lixo já na criação. É uma concepção de que não teria o fim da vida daquele produto ou, pelo menos, se estenderia um pouco mais a vida dele”, explica Marina.
De feira entre amigas a referência nacional
Criado em 2011 como um encontro entre amigas para compartilhar desapegos, o Brick de Desapegos se transformou em uma das maiores referências em moda circular em Porto Alegre e no Brasil. Organizado por Natália Guasso, o evento cresceu até se tornar uma plataforma com mais de 600 edições realizadas, que já reuniu aproximadamente 1.500 empreendimentos de brechós, desapegos e moda autoral sustentável.
“O Brick não é só uma feira, é um espaço que oportuniza negócios, geração de renda e educação ligados à sustentabilidade”, conta Natália. As edições, que acontecem em diferentes pontos da cidade, costumam reunir entre 70 e 80 expositoras. A curadoria dos espaços também faz parte da proposta. “As pessoas acabam conhecendo lugares através do Brick e da minha curadoria. É um circuito afetivo também”, explica.
Além da comercialização de roupas, a feira promove oficinas de customização, rodas de conversa sobre consumo consciente e cursos voltados para os participantes. “A gente quer que o brechó seja a primeira escolha de consumo. Não só pelo Brick, mas pelo segmento todo”, afirma Natália.
Ela também explica que o brechó é um modelo de negócio mais barato e fácil de começar e iniciativas como o Brick funcionam como porta de entrada para o empreendedorismo. “Muita gente começa com roupas do próprio armário ou de amigas e vai crescendo. É um negócio que ajuda, e muito, especialmente quem precisa de uma renda extra”, explica Natália.
A feira busca quebrar o preconceito com roupas de segunda mão e valorizar o brechó como parte legítima do mercado de moda. “Não é porque a peça não foi feita agora que ela não é moda. O brechó também é tendência, também é estilo. E ele ainda salva muitas peças de irem parar em aterros sanitários”, defende.
Além disso, o estímulo à circularidade passa por um resgate de consciência. “Quando fiz meu primeiro desapego percebi que tinha muita coisa que eu nunca tinha usado. Isso me fez refletir sobre o consumo e a quantidade de coisas que acumulamos sem necessidade. E foi isso que me levou a pensar a moda de outra forma”, lembra.
Sustentabilidade e inclusão social
O projeto Retalhos que Transformam, da ONG Mais, leva os conceitos de moda e economia circular para a Comunidade Veva. O objetivo da iniciativa é capacitar as mulheres da comunidade para geração de renda própria e consciência ambiental a partir de oficinas de costura, upcycling e arte. O projeto foi selecionado pelo Edital Territórios Criativos - Intervenções Artísticas Urbanas, promovido pela Secretaria da Cultura do RS (Sedac), que tem como objetivo levar arte e cultura para áreas de vulnerabilidade social.
Implementado em maio, o projeto segue em fase inicial, com a qualificação das 20 participantes. O ateliê funciona com máquinas de costura, linhas e aviamentos adquiridas pela ONG, e os trabalhos são feitos com materiais doados como retalhos, botões, fitas, tecidos, capas de guarda chuvas, entre outros. “A ideia é capacitar as mulheres da comunidade para que elas possam ter uma renda extra depois, mas por enquanto elas ainda estão aprendendo. Depois disso, o espaço segue disponível para que elas possam praticar e trabalhar”, explica a coordenadora da ONG Daisy Martins Santos.
Enquanto estão em formação, elas já recebem o apoio necessário, como materiais e o próprio espaço do ateliê para praticar. A ideia é que, após a formação, elas utilizem o espaço e as máquinas de costura do ateliê para gerar renda com a produção de peças. “Além de ser uma oportunidade profissional, o projeto busca fortalecer essas mulheres social e economicamente”, explica a coordenadora.
Desafios e oportunidades na indústria
Na outra ponta da cadeia, a indústria também começa a incorporar práticas de economia circular. Segundo a Fiergs, setores como o têxtil, do plástico e do aço têm adotado práticas de reaproveitamento e inovação sustentável. O executivo do Conselho de Meio Ambiente (Codema) da entidade, Tiago Pereira Neto, explica que o modelo de economia circular busca manter os materiais em fluxo dentro da cadeia produtiva, reduzindo a extração de recursos naturais e aumentando a vida útil dos produtos. “Hoje várias indústrias, tanto gaúchas como em nível nacional, adotam alguma prática para melhorar o reaproveitamento dos seus recursos ou atender essas demandas sociais. Na otimização de processos, você também atua com práticas de inovação, desenvolvimento e melhoria de soluções. Novos produtos podem ser gerados e colocados no mercado. Nós temos exemplos de resíduos que acabam se tornando produtos de alto valor agregado”, comenta
Apesar das boas práticas já existentes, a transição em larga escala ainda é um desafio. Um levantamento da Confederação Nacional dos Empreendedores mostra que apenas 5% das indústrias brasileiras implementam alguma prática de economia circular. Em contrapartida, 68% das empresas reconhecem que essas iniciativas ajudam a reduzir as emissões de gases do efeito estufa.
“O modelo circular analisa o estoque de recursos que já existe e tenta mantê-los em uso pelo maior tempo possível. É uma abordagem sistêmica que reduz a pressão sobre recursos naturais e pode gerar valor econômico”, explica Tiago. O objetivo é manter um fluxo circular dentro da cadeia de produção, para tentar recuperar parte dos resíduos gerados e restaurá-los de alguma forma e incluí-los novamente dentro da cadeia produtiva. “Então você aumenta a vida útil e dentro disso você também tem uma condição de competitividade maior. Você pode se diferenciar por ser mais eficiente.”
*Sob supervisão de Karina Reif.
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