A economia circular pode parecer um tema distante, reservado a grandes empresas, como citamos na coluna da semana passada sobre a participação da indústria. Contudo, esse modelo começa no dia a dia de cada pessoa, a partir de escolhas simples. Segundo a professora do Curso de Engenharia de Produção e Transportes da UFRGS, Istefani Carísio de Paula, trata-se de uma reflexão coletiva: “Impacta o dia a dia das pessoas comuns, desde os modos de consumo que nós assumimos. E quando a gente fala de modos de consumo não é só dos bens materiais, mas do consumo de água, de energia, da maneira como nós lidamos com os recursos que estão disponíveis para cada um de nós.”
Nesse sentido, repensar hábitos cotidianos é fundamental. “Tudo que a gente puder fazer para estender a vida útil dos produtos que a gente usa, reutilizar, compartilhar, usar serviços no lugar de produtos”, sugere Istefani. Ela citou, por exemplo, o uso de carros de aplicativos em vez de possuir e manter um automóvel.
O cuidado com os resíduos também é parte essencial desse processo. “Além da gente consumir menos, descartar menos, escolher menos embalagens, escolher produtos que sejam biodegradáveis ou que sejam recicláveis, a gente precisa descartar de forma mais correta as coisas dentro das nossas casas”, afirma a professora. Pequenos gestos, como limpar embalagens antes de colocá-las para a reciclagem, fazem diferença: “O simples fato de a gente deixar rolando junto com a louça, as embalagens vão ficando mais limpas e isso torna elas muito mais aproveitáveis e mais recicláveis.”
No entanto, há limitações. “Existem materiais que não são possíveis de serem reciclados e a gente deve evitar. Muitas vezes o material é reciclável, mas não é reciclado por falta de mercado. Embalagem de leite, PET branco, não é vendido. São materiais que a gente poderia conversar com a indústria para modificarem essas embalagens”, alerta Istefani.
Na prática
O professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, Fernando Jorge Corrêa Magalhães Filho, reforça que o impacto das atitudes individuais é significativo: “As pessoas, quando fazem separação de resíduo orgânico do seco, elas já estão contribuindo muito.” Ele lembra da importância de pensar também no destino do óleo de cozinha: “Quando o óleo é separado, não vai para a rede de esgoto. Então, está deixando de entupir a tubulação e gerar um resíduo. Essas pequenas ações no dia a dia impactam na cadeia e auxiliam no processo de economia mais circular, menos linear.”
A economia circular também se manifesta na gestão da água. “Captar água pluvial já entra num conceito de economia circular. Reúso de água, por exemplo”, explica o professor. Da mesma forma, o lodo proveniente do tratamento de água ou esgoto pode ser aproveitado na agricultura ou na fabricação de materiais da construção civil.
Ou seja, todo mundo pode fazer sua parte. Com pequenas mudanças de comportamento, escolhas conscientes e atenção ao descarte e ao reaproveitamento, é possível participar ativamente da transição para uma economia mais circular e mais sustentável para todos.
