Após a morte do produtor rural Marcos Daniel Nörnberg, de 48 anos, durante uma ação da Brigada Militar (BM) em Pelotas, a Polícia Civil investiga a dinâmica da operação para esclarecer o que motivou a abordagem e como a ação foi conduzida. O caso ocorreu na madrugada desta quinta-feira, 15, na zona rural do município.
A seguir, veja o que se sabe até o momento e o que ainda falta esclarecer sobre o caso, com base em informações de autoridades e relatos de testemunhas.
Como foi a ação
A morte ocorreu durante diligências realizadas pela Brigada Militar na região, onde policiais buscavam integrantes de uma quadrilha suspeita de crimes como sequestro e porte de armas. Durante a operação, a casa do produtor foi cercada enquanto ele e a esposa dormiam.
A Polícia Civil instaurou inquérito para apurar as circunstâncias da ação. As investigações preliminares indicam que ao menos 16 policiais participaram da operação. Conforme o delegado César Nogueira, da 2ª Delegacia de Polícia (2ª DP), as equipes teriam recebido a informação de que foragidos armados estariam escondidos na região.
Marcos teria saído da residência armado ao perceber a movimentação no local, acreditando se tratar de um assalto. Ao visualizarem a arma apontada em sua direção, os policiais efetuaram disparos.
O produtor foi atingido e morreu no local. A esposa não ficou ferida.
Viúva afirma que ela e produtor foram surpreendidos com ação
O produtor estava com a esposa, Raquel Amorim Motta Nörnberg, de 52 anos. Após ouvir barulhos, ele se levantou e, segundo a esposa, “acreditou” que a casa estava sendo alvo de bandidos. "Achamos que era bandido, pois eram homens gritando para que abríssemos a porta", revelou.
"Eles entraram na nossa casa às 3h08min. Derrubaram uma porta de vidro. O som dos tiros era alto, imagino que pelas duas entradas. Meu marido foi atingido e caiu nos pés da cama e me disse ‘te deita, senão eles vão te matar’. Uma pessoa que diz isto não acredita que eram policiais militares", observa. Segundo ela, o produtor rural morreu acreditando ser alvo de bandidos, jamais de policiais militares.
"Ele morreu acreditando que eram criminosos que efetuaram os disparos que o atingiram. E eu fiquei por horas achando que estava nas mãos de assaltantes", relata.
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Identificação e abordagem dos policiais
Familiares do produtor afirmam que os policiais não teriam se identificado de forma clara no momento da abordagem, o que pode ter contribuído para a reação da vítima. Essa versão será confrontada com os depoimentos dos agentes envolvidos e com os laudos periciais.
Entre os pontos centrais da investigação estão a informação que motivou a operação, a forma de entrada na propriedade e a existência ou não de mandado judicial de busca para a realização da ação.
BM afirma que moradia de produtor morto em Pelotas teria indivíduos envolvidos em roubo
A Brigada Militar manifestou-se, por meio de nota, na tarde desta quinta-feira sobre a operação que matou o produtor rural. A guarnição informou que a operação foi planejada após informações recebidas da Polícia Militar do Paraná, de que, no local onde Marcos Nörnberg morava, haveria indivíduos envolvidos em um crime de roubo de armas e veículos, que teria ocorrido na terça-feira.
Segundo a BM, na quarta-feira, na cidade de Guaíra, no Paraná, a polícia militar local prendeu dois suspeitos do roubo, que seriam residentes em Pelotas, com idades de 20 e 21 anos, e que estariam envolvidos no crime em que um caseiro foi feito refém por 36 horas, com três veículos e um reboque roubados. De acordo com a guarnição, foram realizadas, então, buscas na área rural após a ocorrência registrada.
Ainda de acordo com a nota, durante a averiguação ao endereço, os policiais se depararam com o homem portando uma arma de fogo, e que não teria "acolhido as ordens policiais", efetuando disparos contra a guarnição, e estabelecendo-se o confronto, que levou ao disparo na vítima.
Posicionamento do governo do RS
O governador Eduardo Leite afirmou que o Rio Grande do Sul tem uma polícia preparada, mas ressaltou que nenhuma instituição está imune a erros. Segundo ele, o episódio precisa ser apurado com rigor para esclarecer se houve falhas de procedimento.
Leite também afirmou que haverá punições caso seja apurado algum erro por parte da guarnição. "Se houver apuração de erros, haverá consequências para aqueles que tiverem errado", disse durante evento no Palácio Piratini.
O governador disse ainda que sua gestão acompanha o andamento da investigação e que casos como esse devem servir para avaliação e eventual aprimoramento das práticas policiais.
Próximos passos
A Polícia Civil deve ouvir nos próximos dias os policiais envolvidos na ação e representantes do comando da Brigada Militar. Laudos periciais, imagens e depoimentos vão embasar a conclusão do inquérito, que deverá apontar eventuais responsabilidades.
A residência conta com câmeras de videomonitoramento, e as imagens já estão em posse da Polícia Civil. Procurada, a Brigada Militar ainda não se manifestou.