O prefeito de Cachoerinha deve permanecer no cargo durante a virada do ano. Alvo de dois processos de impeachment na Câmara Municipal, Cristian Wasem (MDB) está sendo investigado pelo uso indevido de meios de comunicação nas eleições e repasse irregular de verbas durante as enchentes de 2024. Nos bastidores, admitia-se a possibilidade de votar uma das acusações ainda em 2025. Porém, o tempo necessário para a tramitação foi obstáculo e a decisão ficou para 2026.
O despacho final da comissão processante foi entregue às 21h desta segunda-feira. Em virtude disso, a convocação de uma sessão extraordinária nesta terça-feira se tornou inviável. De acordo com o regimento interno da Casa, o chamado precisa ser feito com 48h de antecedência. Procurada, a Câmara ainda não confirmou a data da sessão.
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Troca de acusações
Em nota ao Correio do Povo, o prefeito afirmou que a mobilização trata de uma tentativa de golpe. “Não se cassa um mandato legítimo por divergências políticas, mas apenas por crimes que, como provado nos autos, não existem”, afirmou. Segundo ele, a gestão buscou atuar de forma técnica, o que desagradou determinados grupos.
Em resposta, a presidente da Câmara de Cachoeirinha, Jussara Caçapava (Avante), enviou nota ao Correio do Povo nesta segunda-feira. “Os processos de impeachment em curso não representam disputa política, tampouco qualquer tentativa de ruptura democrática. São mecanismos legais e necessários para apurar possíveis irregularidades na gestão de recursos públicos, dever que cabe exclusivamente ao Legislativo”, defendeu. O parlamento classificou a representação do emedebista como desrespeitosa e leviana, uma vez que questiona a legitimidade da ação fiscalizadora dos vereadores.
Leia as notas
Prefeito de Cachoeirinha:
"Diante do atual cenário político e dos processos em curso na Câmara de Vereadores, o Prefeito Cristian Wasem vem a público manifestar-se em respeito à transparência e à população de Cachoeirinha.
Reafirmamos o nosso compromisso inabalável com a ética que norteia esta gestão. É preciso dizer, com serenidade e firmeza, que o que assistimos hoje é uma tentativa de golpe político orquestrada por uma minoria que não aceita o fim de favorecimentos e privilégios. Optamos por uma gestão técnica, baseada no parecer de servidores concursados e no fortalecimento dos órgãos de controle. Sabemos que "fechar as portas para a corrupção" incomoda quem enxerga a prefeitura como um balcão de negócios.
Enquanto enfrentamos o embate político, os números provam que, em menos de três anos, somos a gestão que mais entregou obras nos quase 60 anos de fundação de Cachoeirinha. Nosso legado é feito de realidades:
Infraestrutura e Drenagem: Pavimentamos mais de 100 ruas em toda a cidade. Conquistamos o apoio do Governo Federal para uma demanda histórica de 20 anos: a contenção do Arroio Passinhos na Av. Telmo Silveira Dorneles, uma obra estratégica de R$ 20 milhões. Além disso, garantimos a segurança da população com a automatização das casas de bombas, que agora possuem acionamento automático para chuvas severas e equipe de manutenção permanente.
Educação de Excelência: Retomamos escolas paradas e ampliamos salas de aula. Hoje, 80% da rede possui ar-condicionado. Oferecemos material e uniformes para os 13 mil alunos e transformamos a merenda escolar, trocando produtos ultraprocessados de gestões passadas por uma alimentação completa e nutritiva, com acompanhamento técnico.
Saúde e Proteção à Mulher: Além das reformas em unidades de saúde e da nova ambulância, implantamos o Centro Especializado à Mulher Florescer, focado no cuidado de vítimas de violência doméstica e na prevenção ao câncer de mama e colo de útero. Inovamos também com o primeiro ambulatório especializado no tratamento da dor do Brasil, com tecnologia da USP.
Responsabilidade Financeira e Previdenciária: Limpamos o nome de Cachoeirinha. Hoje, a cidade recuperou sua credibilidade e possui crédito, inclusive internacional, para novos investimentos. Realizamos a necessária reforma da previdência municipal, tornando o nosso instituto, o IPREC, a quinta maior carteira de investimentos do Rio Grande do Sul, garantindo o futuro dos nossos servidores.
Este processo tenta anular a vontade soberana de 71,86% do eleitorado. Não se cassa um mandato legítimo por divergências políticas, mas apenas por crimes que, como provado nos autos, não existem.
Cachoeirinha não pode parar. Seguimos de cabeça erguida, confiando na justiça e no julgamento da nossa população, que hoje vive em uma cidade que finalmente olha para o futuro.
Cachoeirinha - RS, 27 de dezembro de 2025
Cristian Wasem
Prefeito de Cachoeirinha”
Câmara de Cachoeirinha:
"A Câmara Municipal de Cachoeirinha lamenta, mais uma vez, o tom de desrespeito institucional e a levianidade das palavras utilizadas pelo prefeito Cristian Wasem ao se referir ao Poder Legislativo, tratando como “golpe político” aquilo que é, na prática e no direito, um instrumento legítimo de investigação previsto na Constituição e no Regimento desta Casa.
Os processos de impeachment em curso não representam disputa política, tampouco qualquer tentativa de ruptura democrática. São mecanismos legais e necessários para apurar possíveis irregularidades na gestão de recursos públicos, dever que cabe exclusivamente ao Legislativo. Classificar esse trabalho como golpe é desinformar a população e tentar deslegitimar o papel fiscalizador dos vereadores eleitos pelo voto popular.
O que está sob análise não são as obras, programas ou ações anunciadas pelo Executivo — cuja importância social nunca foi questionada —, mas o modo como determinados contratos e aquisições foram realizados, especialmente em situações sensíveis que exigiam ainda mais rigor e transparência. Entre os pontos investigados estão compras como telas interativas, cestas básicas e colchões, realizadas durante o período das enchentes, a maior tragédia vivida por Cachoeirinha. A dor da população naquele momento não pode, em hipótese alguma, servir de escudo político ou ser instrumentalizada para afastar questionamentos legítimos sobre o uso do dinheiro público. Fiscalizar não é condenar previamente; é garantir que a lei seja respeitada.
É importante corrigir outra inverdade: não se trata de ação de um “pequeno grupo” de vereadores. A ampla maioria do plenário aceitou a tramitação dos dois processos de impeachment, inclusive quatro dos cinco vereadores da bancada do partido (MDB) do próprio prefeito e um dos dois vereadores do partido (PP) do Vice-prefeito, justamente para permitir a apuração dos fatos. O Legislativo não pode ser cúmplice ou conivente diante de suspeitas que envolvem recursos públicos. Seu compromisso é com a moralidade administrativa e com o cidadão de Cachoeirinha.
A Câmara reafirma que não há qualquer intenção de confronto político com o Executivo. Há, sim, o cumprimento rigoroso de sua função constitucional: legislar, fiscalizar e proteger o interesse público. Os vereadores receberam milhares de votos para exatamente isso — ser o escudo da legalidade, da ética e da transparência na administração municipal.
Cachoeirinha merece mais respeito. O cidadão merece informações verdadeiras. O debate público precisa ser elevado, especialmente em um jornal de grande circulação como o Correio do Povo. A Câmara seguirá firme em seu dever legal, fiscalizando o Executivo com responsabilidade e, ao mesmo tempo, mantendo-se aberta ao diálogo e à parceria em todas as ações que efetivamente beneficiem a cidade e sua população.
Jussara Caçapava
Presidente da Câmara de Vereadores de Cachoeirinha/RS”