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Apesar do protecionismo, acordo entre Mercosul e UE trará oportunidades para o agro

Tratado amplia acesso ao mercado europeu, mesmo com cotas e salvaguardas

Muitos produtos brasileiros e gaúchos se beneficiariam do mercado
Muitos produtos brasileiros e gaúchos se beneficiariam do mercado Foto : Wenderson Araújo / Trilux / CNA / CP

O acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode representar uma das maiores oportunidades de acesso a mercados de alto poder aquisitivo para o agronegócio brasileiro. Na avaliação do Analista de Relações Internacionais da Farsul, Renan Hein dos Santos, mesmo que hajam resistências e medidas protecionistas adotadas unilateralmente pelos europeus, o tratado permitirá a entrada de produtos sul-americanos em um bloco com cerca de 700 milhões de consumidores.

Segundo ele, mesmo que existam cotas de entrada, boa parte das mercadorias do Mercosul será beneficiada com a redução de tarifas. “O resto continuará sendo exportado como antigamente, com tarifas mais altas. De maneira geral, se ganha em vários setores.” Ele citou carne bovina, de aves e suína, além do açúcar, etanol, arroz, mel, milho e frutas. “São muitos produtos que se beneficiam de maneiras diferentes.”

Salvaguardas

A Farsul identifica que a Comissão Europeia adotou duas frentes principais de salvaguardas. Em setembro, foram fixados tetos para a entrada de produtos como carne, aves, arroz, mel, ovos e etanol, prevendo intervenções em caso de desestabilização do mercado. Além disso, novas regras permitem investigações se os preços do Mercosul forem 8% inferiores aos europeus, acompanhados de um aumento súbito de importações.

Outro ponto de preocupação são as restrições ambientais e sanitárias. A Farsul aponta que a proibição de substâncias como o tiofanato-metilo afeta diretamente as exportações de citrinos, mangas e papaias. Adicionalmente, a Lei Antidesmatamento da UE é criticada por não considerar a rigidez do código ambiental brasileiro, podendo impactar negativamente cadeias produtivas como a carne bovina, soja, café e couro.

“Essas salvaguardas suspendem os benefícios tarifários”, afirmou Santos, destacando que são medidas unilaterais fora do acordo de livre comércio.

“Parece que nosso governo (do Brasil) não está enxergando que essas medidas são distorções graves e que a gente tem que enfrentar com reciprocidade ou com alguns condicionantes que façam uma equivalência”, complementou.

Competição europeia

Alguns segmentos brasileiros podem sofrer com a competição da entrada de produtos europeus, como os vinhos e os lácteos, segundo Santos. “Mas os outros são extremamente competitivos e vão entrar no mercado europeu. Uns com cotas, de uma maneira mais tímida, pelo protecionismo deles e outros de uma maneira realmente de livre comércio e a gente vai poder entrar com bastante força no mercado europeu.”

Pelo lado do Mercosul, 31% das alíquotas do setor serão zeradas imediatamente a partir da entrada em vigor. Do lado da União Europeia, 39% das linhas tarifárias agropecuárias terão tarifa zerada de forma imediata.

Benefícios na prática

A Farsul destaca benefícios imediatos e graduais do acordo, como a liberalização ampla que prevê que cerca de 93% das linhas tarifárias da União Europeia estejam isentas de tarifas em até dez anos. Para a carne bovina, por exemplo, está prevista uma cota de 99 mil toneladas com tarifa de 7,5%, além da eliminação imediata da tarifa da Cota Hilton. As exportações de aves contarão com cota de 180 mil toneladas com tarifa zero. Também haverá eliminação completa de tarifas para produtos como abacates, limões, melões e maçãs. Arroz e mel serão beneficiados com cotas de 60 mil e 45 mil toneladas, respectivamente, ambas com tarifa zero já na entrada em vigor do acordo.

Relação comercial

A União Europeia é tradicionalmente o segundo principal destino do agronegócio brasileiro. No ano passado o setor comercializou com o bloco 25,21 bilhões de dólares, o que representou a participação de 14,9% dos embarques agro para o mundo – atrás da China, com fatia de 32,7%, ou 55,30 bilhões de dólares. Dos quinze principais produtos da pauta exportadora do agro brasileiro, o bloco europeu foi o maior comprador de três: café verde (US$ 7,19 bilhões), farelo de soja (US$ 4,02 bilhões) e fumo não manufaturado (US$ 1,09 bilhão).

Na comparação com 2024, com embarques de 23,22 bilhões de dólares, a União Europeia expandiu as compras do Brasil em 8,6%, o que correspondeu ao segundo maior crescimento absoluto do período, com alta de US$ 1,99 bilhão. Os itens que mais contribuíram para a expansão das vendas em 2025 foram: café verde (+1,61 bilhão de dólares, +28,8%); carne bovina in natura (+427,53 milhões, +89,2%); milho (+286,59 milhões, 94,7%); fumo não manufaturado (+220,27 milhões, +25,4%); e açúcar de cana em bruto (+106,20 milhões, +44,2%). A União Europeia também é o segundo maior cliente do agronegócio do Rio Grande do Sul, com fatia de 14% (em 2024) das exportações.

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