Rural

Certificação religiosa abre mercados

Produtos da agropecuária gaúcha chegam a nichos de comunidades muçulmanas, judaicas e outras por se adequarem a exigências técnicas ligadas à fé, como é o caso das carnes comercializadas dentro das diretrizes do abate halal

Ovinocultura; raça Pool Dorset; rebanho do criador Cláudio de Sottomaior Filho
Ovinocultura; raça Pool Dorset; rebanho do criador Cláudio de Sottomaior Filho Foto : Cláudio de Sottomaior Filho / Divulgação / CP

A relação entre fé e alimento é milenar e antecede a transformação do campo em negócio global. Desde os primeiros rituais da humanidade ligados aos ciclos agrícolas e à colheita, o que se come também pode expressar crenças. Atualmente, há diversas oportunidades de mercado unindo tradição rural, certificação religiosa e qualidade premium. O produtor e empresário Cláudio de Sottomaior Filho é um dos exemplos no Rio Grande do Sul dessa combinação de conceitos na atividade primária. Ele vislumbrou oportunidades no atendimento das especificidades alimentares da comunidade muçulmana.

À frente de uma grife especializada de cordeiros da raça inglesa Poll Dorset, Sottomaior Filho foi pioneiro no Brasil ao iniciar um sistema de abate que respeita os preceitos religiosos islâmicos. Sua aposta foi certeira e, atualmente, abastece restaurantes, principalmente em São Paulo, além de fornecer produtos para o consumo doméstico de famílias islâmicas.

“Temos uma grife de cordeiro, a marca Cordeiro da Estância, em Porto Alegre, criação (de ovinos) e também há outros produtores que nos vendem (seus animais). Embalamos os produtos em um frigorífico (terceirizado) no Alegrete. Apesar de a nossa carne ser um pouco mais cara, porque tem um programa de certificação a exemplo das carnes bovinas Hereford e Angus, nós resolvemos procurar um nicho que seria o abate halal. Não havia concorrência e fomos a primeira empresa do Brasil certificada, em 2017”, explicou o produtor rural e empresário, referindo-se à carne de ovinos.

O projeto, ousado para a época, transformou-se em mercado garantido, mas que só foi possível atender com a legitimidade da exigida certificação halal. Trata-se de uma documentação atestando, após uma avaliação confiável e sólida realizada por empresas outorgadas por órgãos ou instituições islâmicas, que os produtos alimentícios estão em conformidade com as suas leis e regulamentos, conhecidos como Sharia.

A palavra halal em árabe significa permitido ou lícito. Para a certificação são avaliados desde a matéria-prima até seus processos produtivos. Esse reconhecimento é necessário para as empresas atenderem não só as demandas de produtos alimentícios, mas também cosméticos e farmacêuticos, por exemplo. Neste momento, Sottomaior Filho está sem plena atividade de abate, pois adianta que está mudando a empresa certificadora halal com que atua. “Resolvemos fazer essa troca para uma mais exigente. Gostamos da exigência até para não ter concorrência”, justifica.

Sottomaior Filho lista alguns dos requisitos que já cumpre, para exemplificar as exigências específicas deste mercado. “A fazenda é auditada. Os nossos animais são criados a campo, só podem comer pasto. Não podem ingerir ração, por exemplo. Não existe ração halal para ovinos, ao contrário de bovinos em confinamento e frango. A maioria do frango abatido no Rio Grande do Sul, inclusive, é pelo sistema halal”, detalhou, acrescentando que trabalhar com produtos alimentícios de acordo com preceitos religiosos demanda muita responsabilidade e seriedade.

O empresário acrescenta mais sobre a série rigorosa de requisitos. “Um animal, por exemplo, não pode visualizar outro sendo abatido no frigorífico. Precisa ter um auditor da empresa (certificadora) para fazer o abate e um sangrador que seja muçulmano, elucidou.

Além disso, a face do animal deve estar voltada para a cidade sagrada islâmica, a Meca, e o corte deve ser único, com faca afiada, feito de forma rápida e precisa para evitar o seu sofrimento. “Existe até uma pesquisa científica de que a carne dos animais que são abatidos pelo sistema halal fica mais macia, pois o animal está relaxado”, explicou o produtor rural e empresário.

Sobre o potencial de mercado, Sottomaior Filho detalha que a comunidade muçulmana é muito grande no Brasil e, especialmente, em São Paulo. O fato acabou despertando-o para as perspectivas desse público e, desde então, dedica-se em combinar o sabor da carne ovina com as exigências de padrões e controles de qualidade. “Grande parte dos muçulmanos só come carne halal. Recebo telefonemas de cidades como Gramado, de pessoas que estão há um ano sem ingerir carne”, contou. Conforme ele, em torno de 60% de toda a carne importada pela Inglaterra é halal e as comunidades muçulmanas também são muito grandes na Europa.

Apesar do mercado promissor, Sottomaior Fillho explica que a sua empresa tem capacidade limitada para atender grandes volumes e sinaliza a abertura do mercado de exportações de ovinos para o Oriente Médio e suas perspectivas de negócios para os produtores rurais.

“Toda semana recebemos pedidos para exportação dessa carne e eu tenho que explicar que o Brasil é o maior exportador de carne de gado do mundo mas, em compensação, importamos em torno de 60% de carne de ovinos, do Uruguai, da Argentina e do Chile. Outro dia recebi um pedido de São Petersburgo, na Rússia. Queriam um contrato de quatro contêineres por mês pelo período de 18 meses. Fiz as contas dos animais e eu teria que abater todas as ovelhas do Rio Grande do Sul”, exclamou.

O produtor diz que apenas animais entre 6 e 18 meses podem ser abatidos e que somente 30% do seu peso corporal vivo é aproveitado como produto da grife de carne em peças como picanha, pernil, paleta, carré francês, filé, lombo e costela. “Outra (curiosidade) no mercado halal é que as pessoas quando compram a carne adquirem 30, 50 e 60 quilos porque têm receio de que não ocorram os abates e fiquem sem acesso à proteína (certificada).”

Produção halal cresce no Rio Grande do Sul

Estado é o quinto maior exportador nacional de produtos com a certificação muçulmana com destaque para a carne de frango, a soja e o trigo, enviados para Arábia Saudita, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Bangladesh

De acordo com o auditor técnico halal e instrutor de treinamentos da certificadora CDIAL Halal, Yuri Gennaro Jaruche, o Rio Grande do Sul desempenha um papel extremamente significativo para o mercado halal brasileiro, destacando-se como o quinto maior exportador nacional para os países islâmicos. “Ano passado, o Estado exportou aproximadamente dois bilhões de dólares em produtos, sendo a carne de frango seu principal item, seguido pelo trigo, soja, arroz, óleo de soja e milho”, explicou. Arábia Saudita, Indonésia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Bangladesh foram os principais destinos dos produtos halal rio-grandenses.

trigo maduro | Foto: Josiani Mesquita Antunes/Embrapa/Divulgação/ CP

Além disso, segundo Jaruche, o Rio Grande do Sul tem investido fortemente na ampliação de negócios com os países islâmicos, árabes e não-árabes, promovendo seminários temáticos e iniciativas estaduais para aumentar as exportações de produtos fabricados conforme os valores e requisitos islâmicos. “Essas ações reforçam a importância estratégica do Estado no atendimento à crescente demanda do mercado halal global”, sublinhou.

Na avaliação de Jaruche, o Rio Grande do Sul possui um potencial significativo para expandir ainda mais a atuação no mercado halal, pois há uma crescente demanda global, impulsionada pelo forte aumento da população muçulmana – mais do que o dobro quando comparado com o crescimento populacional mundial. Ele conta que, em 2024, ocorreram diversos eventos, projetos, seminários e investimentos específicos advindos tanto dos órgãos públicos como das entidades de classe para a promoção e ampliação da atuação gaúcha.

Para isso, entretanto, o Estado necessita vencer alguns desafios. Os gargalos iniciam pelo desconhecimento técnico e religioso, como a falta de familiaridade com princípios islâmicos e os requisitos da certificação. A lista de apontamentos de Jaruche é ampla e inclui a necessidade de adequações a processos produtivos, com possíveis ajustes em linhas de produção, validação de higienização, escolha de insumos e segregação de materiais; a promoção de capacitação e treinamentos de equipes sobre os fundamentos da certificação halal; os custos iniciais com algum investimento para certificação e auditorias; a exigência mínima com burocracia e documentação, tal como a homologação de fornecedores, análise crítica ao halal, rastreabilidade, recall e auditoria interna; e a logística e embalagem, pois os produtos certificados halal precisam de controle específico no transporte, armazenamento e rotulagem.

“Ainda que superar essas barreiras possa levar relativo tempo, os benefícios comerciais e reputacionais compensam o esforço, especialmente diante do potencial desse mercado global”, assegurou Jaruche.

Questionado sobre os segmentos com maior adesão à certificação halal, apontou as carnes de aves, bovina, ovina e caprina, que lideram as solicitações. Na sequência, estão os laticínios, destacando-se o leite em pó, os queijos de maior tempo de prateleira e as bebidas lácteas fermentadas. “Logo depois, os grãos e seus derivados, com maior destaque para a soja, o milho, o trigo e os óleos vegetais (soja, milho e girassol)”, afirmou.

Também os alimentos industrializados e os embutidos e processados ano após ano superam recordes de vendas aos mercados islâmicos. Posteriormente, estão os açúcares e todos os seus derivados, seguidos pelas bebidas não alcoólicas (sucos, refrigerantes e energéticos). “Os ingredientes e os aditivos alimentares, tais como a gelatina de origem bovina halal, os emulsificantes, os conservantes, os corantes e as enzimas industriais são os próximos, com uma adesão vertiginosa crescente”, disse Jaruche. Por fim, o instrutor inclui “a nutrição animal, em específico as rações, os alimentos completos e os suplementos, tanto de origem animal quanto vegetal, ambos certificados halal, que estão em forte movimentação para melhor colocação neste mercado”.

Selo representa passaporte para 57 países

O secretário-geral da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Mohamad Mourad, explica que, de forma geral, os produtores rurais devem contar com a certificação halal para os negócios.

“É preciso avaliar caso a caso. As exigências e a necessidade de adequações variam muito a depender do produto. Uma fazenda de gado de leite que realiza produção de derivados lácteos no local precisa fazer adequações consideráveis no manejo dos animais e nas etapas de fabricação. As exigências para o beneficiamento de frutas, por outro lado, costumam ser bem menos complexas”, diz Mourad.

Ele salienta a existência “de situações em que a certificação não é obrigatória, embora sempre seja vista como um diferencial de qualidade aos olhos do consumidor”.

A Câmara de Comércio estima que as exportações de proteínas rendem ao Brasil, todos os anos, cerca de cinco bilhões de dólares. O cálculo considera os embarques para os 57 países da Organização para Cooperação Islâmica (OCI). “Para esse bloco de países, as proteínas importadas são em maior parte, senão no todo, certificadas como halal”, afirma Mourad. Ele destaca que o Brasil é o maior fornecedor de alimentos para os países da OCI. “Em 2024, exportamos para a região pouco mais de 23 bilhões de dólares em alimentos e bebidas, liderando o fornecimento desses artigos perante players importantes, como a Índia e os Estados Unidos. Mas temos muitas oportunidades ainda não exploradas”, garante o secretário-geral, acrescentando que o Brasil vende prevalentemente alimentos básicos. Entre eles, açúcar, carnes, grãos, cafés e chás e não explora outras categorias de alimentos industrializados e de valor agregado. “Na própria OCI, sendo líderes, fornecemos só 10% de todos os alimentos que a região importa”, diz.

Mourad pontua que o The Islamic Economy Report 2023/2024, relatório sobre o Estado da Economia Islâmica Global, estima que o mercado mundial de alimentação halal movimente em torno de 1,41 trilhão de dólares. “Então tem muito espaço para avançar”, avalia, acrescentando que no Brasil essa evolução passa pelo estímulo à indústria alimentícia no sentido de convidá-la a explorar oportunidades existentes em mercados muçulmanos e adotar certificação de, pelo menos, algumas linhas.

Nessa direção, Mourad reforça que desde 2022 a Câmara Árabe-Brasileira e a agência Apex Brasil mantêm o Projeto Halal do Brasil. Atualmente, a iniciativa apoia 124 empresas, das quais 59 exportam ao menos algum tipo de alimento certificado. Além do incentivo à certificação, o projeto também oferece a possibilidade de participação em feiras especializadas em alimentos halal no exterior e em rodadas de negócios. “E se as empresas de alimentos do Rio Grande do Sul decidirem que há oportunidades a considerar nos países muçulmanos, elas devem ter a certeza de que encontrarão na Câmara Árabe-Brasileira todo o apoio de que precisam para serem bem-sucedidas em suas incursões”, assegurou.

Conforme Mourad, mesmo nas categorias de proteínas animais há espaço a ser conquistado pelo Brasil.

“Por exemplo, nos mercados árabes o frango predominante é o de tipo griller, ou seja, ave inteira com peso entre 800 e 1200 gramas. Mas há um imenso mercado para alimentos beneficiados, semiprontos, de preparo rápido que começa a ser explorado pelos frigoríficos. No caso das proteínas bovinas, enviamos muitos cortes grandes, mesmo havendo demandas de redes hoteleiras dos países do Golfo, por carnes em porções e certificadas como orgânicas”, afirmou.

Mourad finaliza indicando também outras oportunidades no segmento de alimentos processados, de valor agregado. “Nos países árabes, por exemplo, você verá que em qualquer supermercado, os industrializados dominam as prateleiras e há produtos de todos os países. Mas os industrializados do Brasil ainda são relativamente raros por lá, embora sejamos destaques nas gôndolas de carnes. Então, tem muita oportunidade nos países da OCI e até em outros, como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, que detêm grandes comunidades muçulmanas de alto poder aquisitivo”, diz. Mourad salienta que alimentos orgânicos, sustentáveis, funcionais e com rastreabilidade têm a preferência do consumidor muçulmano, especialmente o que vive em países árabes, onde a oferta de alimentos é majoritariamente importada com muitos consumidores jovens de alta escolaridade e renda.

Indústria de Ijuí se destaca nos mercados muçulmano e judaico

Dubai Alimentos investe em fortalecimento de parcerias para garantir pelo atendimento de exigências de certificadoras, explorando novos nichos de consumo

Com matriz localizada no município de Ijuí, no Rio Grande do Sul, a Dubai Alimentos possui a certificação halal desde janeiro de 2024 e a certificação kosher, para atender demandas e especificidades da mesa judaica, desde fevereiro do ano passado. A gerente de Qualidade da empresa, Ana Paula Ziemann, explica que a atuação da Dubai concentra-se em fornecer matérias-primas para outras indústrias: flocos grossos e finos de aveia, farinha, farelo com e sem glúten; farinhas branca e integral de arroz; farinhas e sementes das linhaças dourada e marrom; e flocos de cereais extrusados expandidos e crispies, naturais ou com açúcar.

“As empresas, por sua vez, utilizam nossos produtos na fabricação de alimentos como massas, pães, bolachas e biscoitos, ou ainda os comercializam com suas próprias marcas. Muitos desses clientes atendem as comunidades judaica e muçulmana, que demandam produtos finais certificados kosher ou halal”, afirma Ana Paula.

A empresa mantém parceria com produtores rurais.

“A manutenção das certificações halal e kosher começa no campo. O uso de agroquímicos, por exemplo, é um ponto crítico de controle e, por isso, a Dubai desenvolve, junto aos seus produtores parceiros, um trabalho contínuo de conscientização e acompanhamento técnico”, diz Ana Paula, salientando que a empresa conta com a colaboração de uma engenheira agrônoma dedicada ao acompanhamento de toda a cadeia produtiva. “Ela realiza visitas frequentes às lavouras, orienta os produtores quanto às boas práticas agrícolas exigidas pelas certificadoras e mantém diálogo para garantir a conformidade com os requisitos das normas religiosas”, detalha.

A gerente de Qualidade da Dubai reforça que, para a produção de alimentos com os selos halal e kosher, é fundamental que toda a cadeia, inclusive as matérias-primas, estejam em conformidade com os requisitos religiosos. “A Dubai buscou essas certificações justamente para atender à demanda crescente desse mercado, especialmente nos segmentos de derivados de aveia, linhaça e arroz”, afirma, acrescentando que os mercados halal e kosher são tanto nacionais quanto internacionais e que permitem a expansão comercial para países de maioria judaica ou muçulmana. Ana Paula revela, entretanto, que há um número crescente de consumidores não religiosos que buscam produtos halal e kosher por associarem os selos a alimentos mais saudáveis e com maior controle de qualidade e segurança.

Ana Paula acrescenta que há particularidades nos critérios de cada certificadora, mas explica que a Dubai trabalha com padrões rigorosos de qualidade e rastreabilidade. Adequações para atender ambos os selos foram incorporadas ao processo de forma integrada. “Acreditamos que, de forma indireta, atendemos os mercados halal e kosher por meio de nossos clientes. No entanto, a venda direta para esses mercados — especialmente no cenário internacional — é, sim, uma oportunidade vislumbrada pela Dubai Alimentos. A equipe comercial acompanha de perto as tendências globais, considerando a crescente demanda mundial nesses segmentos”, afirma, acrescentando que o mercado global de alimentos e bebidas halal tem projeção de alcançar 2,6 trilhões de dólares até o ano de 2032, com uma taxa de crescimento anual composta de 8,9% e que o mercado de alimentos kosher deverá atingir 82,55 bilhões de dólares entre 2025 e 2035.

Para a gerente de Qualidade, o Rio Grande do Sul, com sua forte base agroindustrial e vocação para a exportação, tem potencial significativo para crescer nesse mercado. A presença de empresas com foco em inovação, qualidade e conformidade com padrões internacionais coloca o Estado em posição estratégica para atender tanto o mercado interno quanto o externo, incluindo nichos religiosos específicos como o halal e o kosher.

O vice-presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, Sebastian Watenberg, detalha que o potencial agroalimentar do país também se reflete no mercado kosher. “Temos um dos maiores rebanhos bovinos do mundo, liderança consolidada em exportações de carne de frango e de grãos, além de um setor industrial alimentício altamente desenvolvido. Esse cenário coloca o Brasil como um fornecedor estratégico para o mercado kosher global, que movimenta bilhões de dólares anualmente e cresce além das fronteiras religiosas, sendo consumido também por pessoas que buscam qualidade, segurança e rastreabilidade alimentar”, sublinha.

Conforme Watenberg, Israel, em particular, é um dos destinos prioritários nesse contexto. O país é altamente dependente de importações e busca produtos certificados kosher com alto padrão sanitário e tecnológico. “Nos últimos anos, houve aumento no interesse israelense por carnes brasileiras com certificação kosher, especialmente do sul do país, onde os frigoríficos têm expertise no atendimento desses requisitos”, afirmou. Segundo ele, o Rio Grande do Sul tem posição de destaque, especialmente no setor de carnes, vinhos e grãos. “Frigoríficos gaúchos operam com equipes de supervisores rabínicos e têm ciclos específicos de abate kosher. Além disso, há cooperativas e agroindústrias que produzem alimentos processados e embutidos com certificação kosher”, pontuou. Watenberg acrescenta, ao conjunto de empreendimentos que exploram essas oportunidades, cooperativas da Serra Gaúcha exportadoras de sucos, vinhos e produtos derivados com alto grau de exigência kosher, inclusive para consumidores de comunidades judaicas nos Estados Unidos e Europa.

Produtos orgânicos e veganos

Os principais produtos exportados do Brasil para o mercado kosher incluem carnes bovinas e de frango, soja, milho, café, açúcar, frutas processadas, conservas, alimentos industrializados e até vinhos e cachaças. As exigências para que um alimento seja certificado kosher envolvem critérios religiosos rigorosos baseados na lei judaica (Halachá). Isso inclui, por exemplo, abate ritual realizado por um shochet (profissional treinado), supervisão rabínica contínua durante o processo produtivo, separação entre carne e leite em todos os processos e utensílios, e inspeção dos ingredientes utilizados, inclusive aditivos e conservantes. “A certificação kosher não depende apenas de boas práticas sanitárias, mas de um alinhamento completo com normas religiosas que afetam desde a origem dos ingredientes até a logística de armazenagem”, detalha o vice-presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, Sebastian Watenberg

Watenberg aponta também oportunidades. Um dos segmentos em crescimento é o de alimentos kosher orgânicos e veganos, que ganha destaque entre consumidores israelenses e judeus de países europeus e norte-americanos. Há mercado crescente também para alimentos processados, snacks funcionais, produtos com apelo de sustentabilidade e rastreabilidade.

“O Brasil e o Rio Grande do Sul, em particular, com sua tradição agrícola e vínculos com a cultura alimentar judaica, têm condições de liderar essa oferta”, alerta o dirigente.

O vice-presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria destaca que estimativas apontam que o mercado kosher movimenta mais de 20 bilhões de dólares por ano globalmente. “Com o avanço dos acordos comerciais entre Mercosul e Israel, e a crescente demanda por alimentos certificados, esperamos um aumento contínuo nas exportações kosher”, concluiu, adiantando que a previsão, com apoio técnico e divulgação corretos, o número de empresas brasileiras certificadas kosher dobre até 2030.

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