Rural

Conheça mulheres que são moldadas para liderar no campo

Fórum de Liderança Feminina Sindical Rural reuniu 300 produtoras de todo o país, entre elas, a gaúcha Mariana Moura Cherubini

Mariana Moura Cherubini, quarta geração da Fazenda São Valentin, em Lagoa Vermelha, foi criada no campo e tem na avó, também produtora rural, o exemplo para defender o papel da mulher na agropecuária
Mariana Moura Cherubini, quarta geração da Fazenda São Valentin, em Lagoa Vermelha, foi criada no campo e tem na avó, também produtora rural, o exemplo para defender o papel da mulher na agropecuária Foto : Mariana Moura Cherubini / Arquivo pessoal / Divulgação / CP

De botina nos pés e orgulho no coração, a produtora Mariana Moura Cherubini, de 31 anos, cresceu respirando o campo. É representante da quarta geração da Fazenda São Valentin, em Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul. Entre lavouras de soja, milho, trigo e a criação criteriosa de gado Devon, recebeu, especialmente da avó, Miriam Luiza Perin Cherubini, a inspiração para conciliar trabalho e gestão.

Recentemente, em Brasília, Mariana foi uma das 300 mulheres de diversas regiões do país reunidas para debater a transformação de legado e conhecimento em formação de novas lideranças envolvendo a força feminina no centro das decisões no meio rural.

Mariana acompanhou toda a programação do 2º Fórum de Liderança Feminina Sindical Rural, nos dias 7 e 8 de agosto, na sede da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), com realização da Comissão Nacional de Mulheres do Agro.

“Minha infância foi no campo morando na propriedade da família até os cinco anos. Depois, sempre em conciliação com os estudos, aprendi manejos e a valorizar o nosso patrimônio, especialmente, o trabalho rural”, afirmou.

Ela recorda que, durante o curso superior em Administração, chegou a receber questionamentos de um professor sobre o motivo de usar botinas, pois o docente considerava o calçado um modelo masculino. “Eu sempre defendi muito a importância das pessoas conhecerem mais o setor”, afirmou, contando a situação para exemplificar a falta de informações sobre a realidade no meio rural.

O evento em Brasília reuniu representantes das comissões estaduais, federações e instituições parceiras para fortalecer a atuação estratégica das mulheres no setor. Mariana representou o Sindicato Rural de André da Rocha mas também tem envolvimento em iniciativas como a Farsul Jovem e a CNA Jovem.

“Eu vejo que o papel da mulher tem sido cada vez mais valorizado e não podemos esquecer daquelas que antes abriram esses caminhos. Agora estamos pensando nas novas gerações”, pontuou. Mariana ressaltou que sua avó foi sempre uma referência, pois conseguiu conciliar o trabalho, a lide rural, a cultura, a arte, a maternidade e a família.

Presidente do Sindicato Rural de Não-Me-Toque/RS, Teodora Berta Souilljee Lutkemeyer, no 2º Fórum Lideranças Feminina Sindical Rural em Brasília, 08 de agosto de 2025. | Foto: Wenderson Araujo / Trilux / CNA / Divulgação / CP

Em momentos distintos, na plateia e também no palco, a vice-presidente do Sindicato Rural de Não-Me-Toque, Teodora Berta Souilljee Lutkemeyer, foi absorver novos conhecimentos mas também transmitir sua experiência para as demais participantes.

Teodora ajudou na reativação da Comissão Estadual das Mulheres do Agro da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), resgatando e reconectando outras estruturas de grupos femininos do setor no interior do Estado. Segundo ela, em 2025, quatro eixos de atuação estão sendo trabalhados: o fortalecimento da própria comissão estadual, a sustentabilidade sindical, ações para a educação e apoio e orientação às comissões sindicais.

“O nosso trabalho é muito na questão de tornar a mulher visível. Porque ela sempre trabalhou mas, vamos dizer, de uma certa forma anulada. E, hoje, não. Hoje, ela tem bloco de produtor”, exclamou, referindo-se ao conjunto de documentos fiscais utilizado para registro de venda de produtos agrícolas e comprovação de atividade no ramo antes dominado pelos homens.

Para Teodora, um dos fatores que contribuem para os indicadores brasileiros não refletirem a real presença da mulher na propriedade rural é justamente pelo fato da mesma não assumir a posição de produtora rural perante a sociedade, apesar de seu desempenho como tal na vida prática.

“Quando eu vou em uma loja fazer um cadastro para comprar uma roupa qual é a minha profissão? Do lar? Se eu estou na propriedade, sou agricultora, sou produtora rural. É só assumir de forma efetiva essa posição”, exemplificou, com orgulho.

No evento, Teodora ministrou palestra sobre a iniciativa e organização de sociedade civil sem fins lucrativos “De Olho no Material Escolar”, que surgiu em 2021, na pandemia da Covid-19. A entidade tem entre seus objetivos combater a desinformação sobre o setor agropecuário nos materiais educativos utilizados nas escolas do Brasil uma vez que o setor primário representa um terço do Produto Interno Nacional (PIB).

Stéphanie Gobato - Presidente da Comissão Nacional de Mulheres do Agro no 2º Fórum Lideranças Feminina Sindical Rural em Brasília, 07 de agosto de 2025. | Foto: Wenderson Araujo / Trilux / CNA / Divulgação / CP

A presidente da Comissão Nacional de Mulheres do Agro, Stéphanie Gobato, acrescenta que o encontro em Brasília tem entre seus propósitos ampliar a voz feminina na defesa dos direitos das produtoras rurais. Ela observa que a participação das mulheres no campo, como proprietárias, não só como trabalhadoras, vem aumentando em sindicatos e federações.

“Vemos esse crescimento dentro da porteira, com as mulheres cada vez mais assumindo esses papéis de gestoras e líderes nos seus negócios. E, agora, é um chamado a mais que fazemos para que estejam dentro de um sistema sindical rural patronal representando seus interesses”, ressaltou.

Para Stéphanie, as mulheres têm uma capacidade muito destacada de mobilização e essa é uma das suas ferramentas principais. “Quando uma mulher está numa posição, ela atrai outras que também se inspiram. A liderança é inspiradora, é empreendedora”, sublinhou ela.

De acordo com a dirigente, o o perfil das produtoras rurais no Brasil, com base no último censo, datado de 2017, está muito desatualizado quanto ao envolvimento feminino dentro da porteira e também de sua participação ativa em posições de representação na propriedade e fora dela.

Stéphanie acrescenta que a Comissão Nacional de Mulheres do Agro foi lançada em 2023 e que, naquela ocasião, apenas três estados atuavam juntamente com federações de ações específicas para as produtoras rurais. “Atualmente, com nossas representantes distribuídas no país, estamos quase em todos os estados e as federações estão realizando ações cada vez mais voltadas, justamente, para (incentivar) as mulheres para o empreendedorismo e a liderança”, finalizou.

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