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Crioulo e brasileiro: raça equina conquista o Centro-Oeste

Demanda tem se concentrado principalmente nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás

Por
Danton Júnior

Número de cavalos Crioulos no Centro-Oeste do Brasil cresceu 6,8% em 2018

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No lugar do campo nativo, predominante no Pampa gaúcho, as pastagens cultivadas do Cerrado. Em vez do gado britânico, os extensos rebanhos do zebuíno Nelore. A paisagem das fazendas do Centro-Oeste do país possui inúmeras diferenças em relação ao Sul, mas um elemento em comum tem se sobressaído cada vez mais. O número de cavalos Crioulos naquela região do Brasil cresceu 6,8% em 2018, totalizando 5,6 mil animais, segundo a Associação Brasileira de Criadores de Cavalos Crioulos (ABCCC). O crescimento ajudou a alavancar o desempenho nacional, que fechou o ano passado com um crescimento de 3,3%, com 426 mil exemplares. A demanda tem se concentrado principalmente nos estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Goiás, mas a saga da raça equina pelo território nacional inclui outras unidades da federação.

Entre 2017 e 2018, o registro de animais apresentou crescimento também no Distrito Federal, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Estes estados compõem a região 8 da ABCCC, que abrange todas as áreas localizadas fora do Sul. Os números são resultado tanto da utilização dos animais para trabalho na pecuária, ramo em que se destacam pela rusticidade e aptidão vaqueira, quanto para esporte. A criação de núcleos de criadores nestes estados se intensificou nos últimos dois anos, bem como o número de participantes em exposições. Os novos crioulistas são principalmente profissionais liberais ou agropecuaristas. Mas também há a categoria dos usuários, que utilizam o cavalo para modalidades como laço comprido, rédea ou team roping, popular na região.

O investimento tem se dado principalmente pela compra de animais em leilões. O mercado aquecido já tem permitido inclusive que os próprios criadores do centro do país abasteçam o mercado com genética de qualidade. “A nossa meta não é vender cavalos do Sul para o Norte, e sim que tenhamos mais criadores em todas as regiões do Brasil”, explica o presidente da ABCCC, Francisco Kessler Fleck. A expectativa para 2019 é de que o crescimento mantenha o mesmo ritmo nessas regiões.


Foto: Fagner Almeida / Divulgação / CP

A presença do Crioulo em um ambiente tão diferente do Sul coloca à prova a rusticidade do animal. “É um cavalo que atravessou desertos, cordilheiras e as manadas sempre continuaram se reproduzindo. No deserto do Atacama tu enxergas cavalo, na Cordilheira dos Andes também”, ressalta o leiloeiro Gonçalo Silva, da Trajano Silva Remates, que cita ainda a resistência a temperaturas extremas e a boa imunidade a doenças como características do animal. Outro item que tem despertado o interesse pela raça é o temperamento do cavalo, que tem permitido, por exemplo, a utilização para a prática da equoterapia, especialmente com crianças. O percentual que a região 8 representa no faturamento não é revelado pela Trajano Silva, mas, segundo Gonçalo, trata-se de um mercado que está em crescimento – com procura acentuada, nos últimos meses, em especial nos estados de Goiás e São Paulo.

Para o analista de expansão da ABCCC Lucas Lau, a presença do Crioulo em estados como Mato Grosso e Mato Grosso do Sul tem crescido principalmente devido a dois fatores. O primeiro é a forte ligação dessas unidades da federação com a pecuária – juntos, os dois estados contam com 50 milhões de cabeças de gado, quase quatro vezes mais do que o Rio Grande do Sul, com predominância do zebuíno Nelore. O segundo é a tradição desses estados na modalidade de laço comprido, que no Sul do país é conhecido como tiro de laço. “Por ser uma raça com muita aptidão vaqueira e por ser muito resistente, capaz de aguentar um final de semana inteiro de provas e, durante a semana, voltar para o serviço, essa foi a principal porta de entrada do cavalo na região”, observa. Gaúcho de Rio Pardo, Lau mudou-se para Campo Grande em 2017, a trabalho, com a função de ser um elo entre a ABCCC, que tem sede em Pelotas, e os novos crioulistas. Uma das suas tarefas tem sido desmistificar a visão de que o Crioulo é um animal exclusivamente gaúcho. “Muitos ainda acham que é preciso estar pilchado para correr uma prova oficial. Na verdade o cavalo Crioulo é brasileiro e se adapta a qualquer cultura”, resume.

O professor Carlos Eduardo Nogueira, do Departamento de Clínicas Veterinárias da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), vê a expansão do cavalo Crioulo especialmente como uma estratégia de mercado ligada às provas esportivas. “Diferentemente do Sul, no Centro-Oeste as propriedades são muito grandes, o cavalo não tem a característica de função como o nosso. O grande mercado é o do esporte e o laço é um dos esportes mais importantes para eles (moradores da região)”, observa. Além disso, Nogueira ressalta a utilização do Crioulo como melhorador, a partir do cruzamento com outras raças. No entanto, segundo o professor, a transferência de genética se dá de forma mais lenta na comparação com os bovinos, por exemplo, já que a maior parte das coberturas ainda é feita por monta natural. Mas o especialista concorda que estão surgindo novos polos de genética fora da região Sul. “Naturalmente os planteis vão melhorando e o pessoal começa a ter animais de melhor valor. É uma tendência”, afirma Nogueira.



Foto: Fagner Almeida / Divulgação / CP