Rural

Estímulo à juventude empreendedora

Oferecer financiamento e apoio técnico para que adolescentes e jovens abram seus próprios negócios é um dos caminhos para permitir que eles permaneçam nas propriedades e consolidem a sucessão familiar

Henrique Maciel Feliz, um dos vencedores do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar, vai investir em um novo espaço para criação de suínos
Henrique Maciel Feliz, um dos vencedores do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar, vai investir em um novo espaço para criação de suínos Foto : Henrique Maciel Feliz / Arquivo Pessoal / CP

Do grupo de amigos que Henrique Maciel Feliz (na foto), 16 anos, tinha quando criança, pelo menos seis migraram para o meio urbano e dos atuais companheiros apenas dois querem permanecer no interior de Arroio do Tigre, no Vale do Rio Pardo. Contemplado com R$ 25 mil no Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar, desenvolvido pela Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) do Rio Grande do Sul, o estudante, que também chegou a cogitar migrar para a cidade, agora dorme e acorda pensando na estrutura do novo criatório de suínos que irá gerenciar.

Maciel é o autor de um dos 500 projetos selecionados pelo programa para receber recursos destinados à abertura de novos negócios em propriedades familiares. O estudante assegura que deixar o campo nunca foi seu sonho, mas que poderia ter optado pelo êxodo rural. A decisão se daria pela falta de perspectivas e recursos para abrir seu negócio, implantar um projeto próprio ou mesmo ter uma oportunidade de trabalho fora de uma cooperativa ou no comércio da pequena Arroio do Tigre.

A disputa pelas 500 cotas oferecidas no programa da SDR para jovens empreendedores surpreendeu o órgão e também a Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag/RS), parceira na divulgação do programa. O volume de projetos apresentados mostrou que não falta, entre os jovens, vontade e ideias para a área rural. Foram quase 10 mil inscritos para as 250 vagas iniciais – ampliadas pela SDR devido ao grande número de propostas apresentadas. “Minha proposta é tornar um pequeno chiqueiro que abriga cerca de seis porcos em um empreendimento em que eu serei o protagonista. Com o valor destinado pelo programa vou adquirir um criatório padrão, onde poderei criar até 50 animais”, explica Henrique.

Com uma visão empreendedora aguçada, o jovem explica que a opção por converter a criação de suínos, atualmente destinada ao consumo familiar, em um projeto comercial, se deve às muitas possibilidades que o animal oferece como produto. Os primeiros suínos ele conta que ganhará do padrinho e que a alimentação dos animais será feita principalmente com grãos que a família cultiva na propriedade de 14 hectares. “Suínos são animais que abrem muitas portas de negócio. Do animal, se aproveita tudo, da carne a banha e até as orelhas e as patas. Também posso partir para a produção de embutidos, por exemplo”, lista o empreendedor.

Ao ficar na propriedade da família Henrique acredita que irá contribuir para que uma futura geração de jovens rurais possa ter esse mesmo horizonte. Uma de suas irmãs, de seis anos, especialmente, crescerá com uma visão diferente dos muitos produtores cujos irmãos e irmãs partiram para a cidade. “A estrada que chega na nossa propriedade ainda é de chão batido, mas temos uma boa internet, por exemplo, o que ajuda muito não só pra lazer, mas pra estudar e se informar das coisas em geral”, explica Henrique, que iniciará em 2025 o Ensino Médio com ênfase em técnico agrícola.

Chefe da Divisão de Políticas Públicas para a Juventude da SDR, a agrônoma Emanuelle Cavazini Magiero entende que o programa é uma forma de mudar diferentes e preocupantes cenários. Entre os problemas elencados estão a falta de renovação geracional no comando das propriedades e uma crescente concentração de terras, com pequenas propriedades sendo incorporadas por áreas maiores, intensificando a desigualdade fundiária.

“Apesar desses desafios, a agricultura familiar continua desempenhando um papel essencial no país. Este segmento é responsável pela maior parte da produção de alimentos básicos, como hortaliças, arroz, feijão, leite e ovos, contribuindo significativamente para a segurança alimentar e o abastecimento do mercado interno. Além disso, a agricultura familiar mantém a maior parte das pessoas ocupadas no campo, gerando emprego e fomentando o desenvolvimento rural”, destaca a representante da SDR.
Emanuelle explica que entre outras iniciativas estaduais focadas na manutenção de adolescentes no campo está o Bolsa Juventude Rural. O programa busca garantir que jovens concluam o Ensino Médio, oferecendo suporte financeiro que pode ser usado tanto para custeio educacional quanto para investimentos na propriedade rural. “Jovens qualificados no meio rural fazem diferença ao trazer melhorias na gestão das propriedades, como leitura de contratos, organização de planilhas e controle de custo”, exemplifica.

Outro programa executado pela SDR é o de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar, apresentado no âmbito do Agrofamília. Neste caso, é incentivado o protagonismo juvenil ao financiar itens essenciais para diversas cadeias produtivas, permitindo que eles escolham como investir os recursos em atividades prioritárias e específicas da agricultura familiar, que não são cobertas por instituições financeiras tradicionais. Desta forma, é ampliando o acesso a investimentos em linhas produtivas variadas.

“Essas iniciativas são essenciais para fortalecer a agricultura familiar, promover a permanência do jovem no campo, com renda e qualidade de vida, e a sucessão rural, além de garantir a continuidade da produção de alimentos que sustentam o mercado interno e a segurança alimentar” resume a Chefe da Divisão de Políticas Públicas para a Juventude da SDR.

Produtoras pretendem investir em melhorias

Monize e Vitória, dos municípios gaúchos de São Nicolau e Torres, respectivamente, investem em projetos de melhoramento das atividades pecuárias e agrícolas que já praticam nas propriedades familiares

Monize Batista é uma das vencedoras do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar e quer melhorar geneticamente o rebanho da familia | Foto: Monize Batista / Arquivo Pessoal / CP

Melhorar a qualidade e a genética do rebanho bovino da família é, há dois anos, o projeto da jovem Monize Batista, de apenas 19 anos, moradora de São Nicolau. Primeiro, ela apresentou aos pais a ideia, pesquisando preços e profissionais para fazer as inseminações. Convencida da proposta, a família viu Monize fazer os primeiros testes de introdução das raças vermelhas, com o Angus, ao rebanho de raças menos nobres, como os zebuínos.

Já com o projeto em andamento, a produtora o inscreveu no programa da Secretaria de Desenvolvimento Rural (SDR) e foi uma das contempladas – o que lhe deu ainda mais certeza de que está no caminho certo, além de estímulo para acelerar o melhoramento. “A gente sabe que tem animais que têm mais resistência a doenças e clima, por exemplo, e outros que se diferenciam pelo ganho de peso. Então, esses cruzamentos buscam o equilíbrio e o melhor de cada raça”, explica.

O conhecimento da jovem vem, em grande parte, da participação, desde cedo, nas lidas do campo, acompanhando o pai e a mãe em todas as atividades. O rebanho tem 39 animais, é ampliado com reprodução natural e agora com a inseminação artificial. Segundo Monize, que cursa o Ensino Médio e tem planos de ingressar na faculdade de Administração, a experiência foi obtida “na escola da vida” e dos ensinamentos técnicos repassados pelo pai. Da mãe, a jovem herdou um forte sentimento de trabalho em prol dos agricultores familiares como um todo: é secretária-geral do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de São Nicolau e Coordenadora Regional de Jovens da Regional Sindical Missões II.

“Sou filha única, sempre ajudei meus pais, e amo a bovinocultura. Agora estou começando uma criação própria de caprinos também. Quando nasce um guaxinho eu choro”, confessa Monize.

Como sempre esteve envolvida com as lidas do campo, a jovem conta que teve espaço para opinar e sugerir mudanças, o que nem sempre é bem aceito em outras famílias em outras famílias. Monize avalia que sem o espaço para propor e ter protagonismo no negócio da família, ou ter seu próprio empreendimento dentro da propriedade, os jovens acabam deixando o campo. Deixar que os filhos possam opinar, que se sintam parte do processo e tenham sua renda, é fundamental, avalia a produtora.

“Por outro lado, os jovens precisam participar das atividades e ir mostrando novos caminhos e soluções. Para introduzir esse melhoramento genético fui em busca de respostas a todos os questionamentos que meus pais faziam, mostrando que era possível e viável”, completa.

Também contemplada pelo programa de incentivos da SDR, no Litoral Norte do Estado, Vitória Roldão, 29 anos, vai aplicar o recurso conquistado para ampliar a produção de legumes e hortaliças. A família comercializa cenoura, beterraba, brócolis e alface, entre outros itens, em programas de aquisição de merenda escolar, em Torres. “Ainda não temos um local exclusivo para lavar e armazenar a produção, e como entregamos tudo fresquinho, isso dificulta um pouco o trabalho e limita o aumento da produção”, explica Vitória, ansiosa pela liberação das verbas para dar início às mudanças previstas no projeto.

A agricultora revela que pretende aplicar uma parcela dos R$ 25 mil em soluções de irrigação. A perspectiva é aumentar a produção do empreendimento em até 40% no primeiro ano.
“Vamos ver como será a demanda, antes de ampliar muito. Se conseguirmos boas vendas começando a atuar em feiras livres, podemos pensar em ir mais longe”, conclui ela.

Vitoria Roldão é uma das vencedoras do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar com a proposta de melhor a estrutura para limpeza a armazenagem de legumes e verduras | Foto: Vitoria Roldão / Arquivo Pessoal / CP

Pedagogia para ensinar jovens Instiga geração de projetos

Casas Familiares Rurais (CFRs) e escolas técnicas voltadas para a formação de jovens que querem trabalhar no campo comprovam que estudantes com tal perfil se engajam em projetos em conjunto e que trazem novas fontes de renda.

“Estes locais já formam os estudantes com um olhar para agricultura familiar e dialogam diretamente com o campo, com uma pedagogia própria”, chama a atenção Camila Rode, coordenadora estadual de Juventude Rural da Federação dos Trabalhadores na Agricultura (Fetag/RS). Camila destaca que o alto número de inscrições no programa da SDR reforça, ao mesmo tempo, o quanto políticas públicas voltadas aos jovens do campo são necessárias e que eles estão bem preparados e esperando por isso.

Ao analisar o impacto econômico do programa, a Fetag/RS avalia que o recurso investido será compensado em poucos anos com a receita gerada pelos novos negócios e renda extra nas propriedades. Considerando os 240 projetos aprovados, a entidade estima que será gerado no Rio Grande do Sul um Valor Bruto de Produção (VBP) de R$ 33,5 milhões – para cerca de R$ 6 milhões investidos pelo Estado no programa.

Segundo dados do Censo Agropecuário do IBGE, em 2006, a agricultura familiar representava 85,7% dos estabelecimentos rurais, enquanto que em 2017 esse percentual caiu para 80,5%, indicando que essas áreas passaram a integrar negócios empresariais. Os dados foram citados pela Secretaria de Desenvolvimento Rural, para demonstrar a importância do apoio ao segmento.

Com essa retração, o número de estabelecimentos não familiares subiu de 14,3%, em 2006, para 19,5% em 2017. Ainda de acordo com o levantamento do IBGE, o número total de estabelecimentos rurais diminuiu de 441.467, em 2006, para 365.094, em 2017 – cenário que, conforme estudos preliminares, vem se agravando e deve surpreender quando for realizado o próximo Censo Agropecuário, previsto para 2026.

Recursos, suporte técnico e apoio familiar

Estabelecido em Campina das Missões, o jovem Leonardo Kieling quer ampliar os negócios da família, hoje limitados à produção leiteira, com a introdução do cultivo de peixes, tarefa para qual pretende contar com o auxílio da Emater

Leonardo Kieling é um dos vencedores do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar e quer implantar psicultura e a produção de morangos em escala comercial | Foto: Leonardo Kieling / Arquivo pessoal / CP

Quando ainda era criança, Leonardo Kieling, hoje com 23 anos, viu o irmão e a irmã mais velhos deixarem a propriedade da família em busca de oportunidades de trabalho na cidade. Concluindo o curso de Agronomia, o jovem tinha, até recentemente, também a perspectiva de buscar emprego fora de Campina das Missões – onde não há muitas oportunidades de trabalho. A ideia era juntar algum recurso e, depois, se tudo desse certo, voltar para casa e diversificar a fonte de renda da família. Os planos, porém, mudaram para melhor. Contemplado entre os 500 projetos vencedores do Programa de Apoio a Projetos Produtivos para Jovens da Agricultura Familiar, com R$ 25 mil, Leonardo vai encurtar o caminho e já começa a estruturar novas atividades.

“Precisamos ter outras fontes de renda além da atividade leiteira. É sempre um risco contar com uma única fonte de renda, pois se algo não vai bem naquele mercado, somos mais fortemente afetados”, pondera o jovem.

Os recursos que receberá do programa foram conquistados justamente pela proposta de diversificação. Em breve, um novo e amplo açude habilitará a família a se tornar também empreendedora na área de piscicultura. A escolha por investir neste setor, explica Leonardo, se deve ao gosto pela pesca e pela fonte de recursos hídricos disponíveis na área de 14 hectares onde vivem os Kieling.

“Temos muitas vertentes na propriedade, o que pode ser muito bem aproveitado na piscicultura, assim como para irrigar o plantio de morango, outra atividade que queremos ampliar. Temos uma estufa apenas para consumo próprio. Com um pouco de dinheiro podemos avançar com a estrutura e ter uma renda complementar quase o ano inteiro”, acrescenta o estudante. A proposta inicial de Leandro é trabalhar com um açude capaz de abrigar cerca de 30 mil peixes, mas ele sinaliza que espera o apoio da Emater/RS-Ascar para estruturar um plano de negócios mais robusto, assim como os outros 499 contemplados no programa.

A coordenadora estadual do Trabalho com Mulheres e Jovens Rurais da Emater, Clarice Emmel Bock, avalia que são os jovens mais qualificados em cursos técnicos e faculdades, como é o caso de Leandro, e com estímulo familiar para desenvolver novos negócios, que estão permanecendo no campo. “São jovens que estudam já com foco na propriedade para aplicar esse conhecimento. Na Emater, temos cursos específicos de empreendedorismo em diferentes áreas e temas, com um diferencial que avaliamos ser muito importante, também com foco no comportamento. Eles não abordam apenas técnicas, mas questões de integração com outros jovens, com as famílias e trocas de experiências, por exemplo”, explica Clarice.

Os pais fazem parte do plano do curso, desde o início, participando de encontros e são inseridos em atividades práticas, como na produção de diagnósticos das propriedades. Clarice pontua que essa proximidade entre pais e filhos, que é estimulada no curso, gera uma união ainda mais permanente e produtiva na condução da propriedade por toda a família. “A fase da adolescência e da juventude é sempre complexa entre pais e filhos e, no meio rural, isso também acontece. Muitos pais nos relatam que o relacionamento com o filho que participa do curso mudou significativamente ao longo do tempo. Em geral, os jovens e as famílias que passam pelo curso vivem uma grande transformação”, compara a coordenadora da Emater.

Desde 2018, cerca de 500 jovens passaram pela formação nos cursos de Empreendedorismo e Desenvolvimento para a Juventude Rural nos centros de treinamento da Emater/RS. Em 2025, 18 deles embarcarão para um intercâmbio de seis meses no Canadá. O grupo foi selecionado para o programa Young Farmers, lançado neste ano e que está sendo desenvolvido em parceria com o governo canadense. A idealização do programa é de Paulo Hermman, ex-CEO da John Deere no Brasil, e entusiasta do tema, que afirma ser esta uma forma de “retribuir” ao campo e às suas origens, a bem-sucedida carreira de executivo.

"Quem nasce em uma propriedade pequena sabe a dificuldade que é para sair deste ambiente e crescer. Eu passei por tudo isso. Perder o medo, estabelecer conexões, vai fazer com que eles voltem transformados e ajudem a mudar o negócio de suas famílias", afirmou Herrman no lançamento do programa, durante a Expointer, em setembro deste ano.