Rural

Estiagem e atraso no plantio preocupam produtores rurais argentinos

Bolsa de Cereais de Buenos Aires estima queda de 10% na cultura da soja e 9% no milho

Assim como ocorre no Rio Grande do Sul, os produtores rurais da Argentina também veem com apreensão o desenrolar da safra 2020/2021. O motivo principal é o déficit hídrico, que tem deixado muitas lavouras em más condições. A semeadura encontra-se atrasada em relação aos ciclos anteriores, em razão da falta de umidade no solo. Segundo a Bolsa de Cereais de Buenos Aires (BCBA), a estimativa é de uma produção de 46,5 milhões de toneladas de soja (queda de 10% sobre o ciclo anterior) e de 47 milhões de toneladas de milho (queda de 9%).

O gerente de estudos econômicos da BCBA, Agustín Tejeda, afirma que a escassez de chuvas regulares, agravada pelo fenômeno La Niña, afeta as decisões de plantio e o desenvolvimento da lavoura. As chuvas registradas até o início de dezembro no país vizinho beneficiaram o avanço dos primeiros grãos de soja, mas não atingiram o solo em profundidade. “Em dezembro, o segundo plantio deveria ganhar impulso, mas com chuvas menos frequentes e altas temperaturas será difícil sustentar seu avanço”, analisa. Por isso, há a possibilidade de que uma área significativa de soja possa não ser implantada.

Em meio à recuperação dos preços internacionais, um dos fatores que mais preocupam os produtores argentinos, segundo Tejeda, é a economia do país. Ele ressalta que a crise provocada pela Covid-19 gerou um colapso na atividade global com grande impacto no continente sul-americano. A economia argentina, que já acumulava dois anos de recessão, deve registrar em 2020, segundo o FMI, uma queda de 11,8%. “Embora a atividade agroindustrial tenha sido uma das menos afetadas, a estiagem, o aumento das tarifas de exportação e as distorções no mercado de câmbio impactaram negativamente a produção e comercialização de grãos”, resume Tejeda. Neste contexto, é esperada uma queda de 6% do valor adicionado das cadeias agroindustriais neste ano.

“A expectativa é de incerteza absoluta. O plantio precoce é punido por falta de água e há um atraso significativo”, lamenta o vice-presidente da Confederaciones Rurales Argentinas (CRA), Gabriel de Raedemaeker. Tudo indica que o rendimento potencial ficará abaixo dos últimos anos, a menos que haja uma mudança drástica no regime de chuvas. “A preocupação dos agricultores hoje é com o clima e com a incerteza política e econômica na Argentina, que é muito complexa, somada ao fato de que no próximo ano haverá eleições legislativas”, observa o dirigente. Neste momento ocorre a finalização da colheita da safra de inverno. Na semana passada, o índice de colheita era de 66% no trigo e 46% na cevada. No caso da soja, a colheita se inicia tradicionalmente em meados de março, mas poderá haver atrasos em função do retardo no início do plantio.