Os preços do milho têm se mantido pressionados nos últimos dias em razão das produções recordes nos Estados Unidos, principalmente, e no Brasil. Os americanos vão colher 425 milhões de toneladas, enquanto no Brasil, conforme levantamento da safra 2024/2025 divulgado na semana passada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a segunda safra está prevista em 109,6 milhões de toneladas, e a safra total em 137 milhões, de toneladas, a maior até hoje. E, apesar de um consumo interno bastante aquecido, superior a 90 milhões de toneladas, inclusive com alta demanda para o etanol, a cotação ao produtor não dá sinais de melhora.
“O milho está com um preço bem pressionado”, resume André Sanches, pesquisador do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq/USP).
“Estamos tendo uma disponibilidade bastante alta no mercado doméstico. E isso tem pressionado os preços tanto no mercado físico, mercado futuro, mercado paulista, no Centro-Oeste e no Sul, com uma queda bastante acentuada”, descreve. “Então, de agora para a frente o Brasil precisa exportar para se alcançar um equilíbrio de oferta e demanda”, diz Sanches.
O principal indicador de preços do cereal é Campinas, em São Paulo, que para a liquidação na bolsa estava ontem a R$ 63 a saca, o menor valor do ano. A temporada tinha iniciado em movimento de alta, com o patamar de até R$ 90 em alguns dias de março. O último preço acima de R$ 70 a saca ocorreu em 27 de maio. Mas o preço desta semana ainda é superior aos R$ 59 de exatamente um ano atrás (segundo o histórico registrado pelo Cepea).
A oferta do grão é recorde, enquanto o consumo também tem sido o maior já registrado no mercado brasileiro. No ano passado foram consumidos 84 milhões de toneladas, e, em 2023, 79 milhões de toneladas. “A cadeia de aves e a cadeia de suínos estão em momentos muitos bons, e (ainda) tem a produção de etanol de milho”, justifica o pesquisador.
“O ponto é que a produção tem aumentado numa velocidade muito maior que o consumo”, pondera Sanches. A baixa movimentação nas exportações é fonte de preocupação. No ano passado, o país conseguiu embarcar 39,75 milhões de toneladas para o exterior. Neste ano, entretanto, no período de janeiro a julho, apenas 8,9 milhões foram exportados, uma queda de 25,1% na comparação com o mesmo período do ano passado.
A aposta seria o aquecimento das vendas externas de milho, o que tradicionalmente acontece no segundo semestre. Desta forma, o Brasil poderia alcançar a meta inicial de exportar pelo menos 40 milhões de toneladas de milho.
Situação sob controle na soja
Na soja, apesar dos recordes previstos para 2025 tanto nas exportações, em 106,3 milhões de toneladas, como no esmagamento, em 57,09 milhões, o estoque de passagem 2024/2025, segundo a Conab, está em 3,9 milhões de toneladas, o equivalente a quatro vezes o volume do final da temporada passada. Desta forma, não tem ocorrido movimentos de aumento da cotação do grão. Conforme Luiz Fernando Gutierrez Roque, coordenador de inteligência de mercado na Hedgepoint Global Markets, a alta exportação e o forte interesse chinês pela soja brasileira deixa os prêmios nos portos firmes e subindo, acima de 200 pontos.
“Mas teve uma produção muito grande no Brasil neste ano. Embora o Rio Grande do Sul tenha perdido um pouco de produção, o país colheu muito bem”, avalia. Portanto, o estoque não está muito apertado, com espaço para o preço do grão subir um pouco mais. Além disso, no segundo semestre sempre ocorre uma “disputa” entre mercado interno e externo, o que melhora o ambiente para formação de preços.
“Entendemos que estamos chegando num teto de preço daqui a um pouquinho. O preço pode subir um pouquinho mais até setembro, quem sabe outubro, mas depois disso devemos ver os preços cedendo porque não teremos um estoque tão apertado nessa temporada”, estima. “Existe um ambiente ainda positivo para preços, só que o produtor não pode esperar o preço subir mais R$ 20, R$ 30, porque provavelmente isso não vai acontecer, porque não temos problema de estoque”, analisa.
A soja em diferentes praças no Rio Grande do Sul esteve cotada entre R$ 124 e R$ 127 a saca nos últimos dias.