O retrato dos campos do Rio Grande do Sul depois da tragédia climática que se iniciou em 1º de maio ainda é estatisticamente desconhecido. O certo é que as cheias deste mês foram implacáveis com a maioria das frações de lavouras de verão que ainda estavam por ser colhidas. Nesta semana, a volta das chuvas dificultou mais uma vez a vida nas propriedades rurais, tornando complicado o trabalho de dimensionamento dos prejuízos aos grãos, solos e infraestrutura.
“Nesse momento, é impossível ter esse dado. Há uma ansiedade geral. Na semana que vem, as federações devem soltar um número geral, aproximado, cheio de ‘ses’, pois é impossível saber. Há produtores que ainda não conseguiram chegar nas lavouras por causa das enchentes”, ressalta o economista-chefe da Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul), Antonio da Luz.
Semanalmente, a Emater/RS-Ascar, empresa contratada pelo governo do Estado para prestar assistência técnica e extensão rural e social, divulga o levantamento da safra em seu Informativo Conjuntural. O documento de 9 de maio indicava danos mais significativos às culturas de soja, arroz, milho e feijão 2ª safra, afetando plantações prontas para a colheita, comprometendo a qualidade dos grãos. Além disso, a produção de hortigranjeiros ficou submersa.
Os extensionistas da Emater se envolveram em operações de socorro e resgate e na elaboração de laudos de perdas. Essas informações serão cruciais para formatar o socorro necessário às pessoas e às áreas, bem como servirá para o balizamento de estratégias de longo prazo para a reconstrução dos plantios.
“Boa parte da safra de verão estava assegurada, colhida, com boa qualidade. Sobre os percentuais que faltam colher, pode se afirmar que são frações em risco, muito provavelmente muitas lavouras não serão colhidas. A extensão disso ainda não se sabe”, reflete o diretor técnico da Emater, Claudinei Baldissera.
Soja
Cultura mais importante do Rio Grande do Sul e do Brasil, a colheita da soja avançou 7% entre os dias 9 e 16 de maio, alcançando a parcial de 85% em 6,68 milhões de hectares de área plantada. Em março, quando a oleaginosa vicejava nos campos, a projeção da Emater era de safra recorde, de 22,24 milhões de toneladas.
Antes das enchentes, as produtividades eram consideradas satisfatórias. Agora, as lavouras remanescentes podem ter perdas totais. Os 15% de área que faltam colher representam 1 milhão de hectares de soja, o que, considerando a produtividade média de 3,4 toneladas por hectare, equivale a quase 3,4 milhões de toneladas de grãos.
Arroz
Outro produto importante, o arroz irrigado tinha 900,2 mil hectares semeados. No dia 8, o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga) informava que havia ainda 142,1 mil hectares por colher, mas já computava quase 23 mil hectares totalmente perdidos, 17,9 mil hectares parcialmente submersos e 101,3 mil hectares não atingidos pelas cheias. A maior parte das plantações perdidas estava concentrada na Região Central do Estado (até o fechamento desta edição estavam indisponíveis os números do Irga).
Feijão
Também valioso para o prato do consumidor, o feijão da 2ª safra é a cultura mais atrasada na colheita de 19,9 mil hectares. “Apenas cerca de 30% da safra havia sido colhida”, estima Baldissera. As regiões produtoras mais importantes para a cultura são Caxias do Sul e Frederico Westphalen. O diretor da Emater lembra que o feijão é uma cultura bastante sensível. “Certamente terá prejuízo importante”, diz.
Arroz
Vital para a alimentação de aves e suínos, o milho também foi castigado. Até o dia 16 de maio, 88% dos 812,7 mil hectares haviam sido colhidos, com elevação da produtividade em relação ao ciclo anterior, castigado pela estiagem. As chuvas das últimas semanas inviabilizaram a colheita das áreas remanescentes e causaram perdas de até 100%, como nas regiões de Lajeado e Caxias do Sul.
Solos
Além das perdas de grãos, uma sequela ainda desmedida está nos solos agrícolas. “Foram severamente afetados, desde questões como carregamento total de camada arável até, de modo geral, pelos impactos da chuva torrencial, causando processos erosivos e prejuízos importantes a todo trato agronômico dos solos, que por anos sucessivos vinham sendo cuidados e tratados”, analisa Claudinei Baldissera.
Hortaliças
Também entram na conta de dissabores os problemas com a produção de hortaliças. As chuvas atrasaram o desenvolvimento de culturas e tornaram impossível a implantação de novos cultivos. Os danos já se refletiram no aumento de preços e no volume de produtos ofertados pela Central de Abastecimento do Rio Grande do Sul (Ceasa).
Assim como nas culturas de verão, que prometiam safra cheia no começo da implantação das lavouras, apesar de atrasos decorrentes dos efeitos do super El Niño ao longo do segundo semestre do ano passado, o clima deixa incertezas sobre o planejamento da próxima safra de inverno, especialmente em relação ao trigo, grão que o Estado é um dos líderes na produção.