Apontado como o futuro “celeiro do mundo”, pelo potencial de produção de alimentos ainda pouco explorado, o continente africano vem demandando cada vez mais máquinas e implementos agrícolas para modernizar sua produção. O Brasil, há mais de 20 anos, fincou sua bandeira neste mercado, mas vem perdendo espaço no disputado segmento africano, para o qual olham grandes fabricantes globais. E entre os novos fortes concorrentes, a Turquia é um dos players que se sobressaem.
Em 2022, por exemplo, o Brasil foi 10º exportador de máquinas e implementos agrícolas para o continente africano, em um ranking de 158 países, tendo comercializado 136,82 milhões de dólares, equivalente a 3,61% de participação sobre o total importado pelo continente de acordo com a Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (Fiergs). O país, porém, perdeu representatividade nos últimos 20 anos, de acordo com o levantamento produzido pela entidade: em 2003, o Brasil estava na 7ª posição, com 5,71% de participação sobre o total importado pelo continente africano nestes itens.
O interesse de fabricantes globais de máquinas e implementos agrícolas no continente africano está diretamente ligado às expectativas, também globais, de que a região deverá ser o próximo “celeiro do mundo”. Concentrando o maior índice de pobreza e fome o no mundo, o continente africano, contraditoriamente, também conta com o maior percentual de terras agricultáveis não utilizadas globalmente, alcançando 60% do potencial da área ainda disponível no mundo para este fim, de acordo com o African Development Bank Group.
Com um modelo de produção bastante atrasado, onde a força de tração animal ainda predomina em boa parte do campo, a agricultura africana tem na mecanização um dos desafios a serem enfrentados. Por isso, fabricantes globais do setor investem, desde já, para ter sua presença consolidada e conhecimento pleno do mercado. Apesar das apostas na região, a demora no avanço do agronegócio africano gera dúvidas sobre quando isso ocorrerá.
Em estudo sobre o potencial esse mercado, em 2015 o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apontava que com melhores sistemas de irrigação e armazenagem, novas variedades genéticas de grãos, redução da escassa mão de obra qualificada e, principalmente, maior mecanização, os países africanos poderiam elevar significativamente seus plantios e colheitas. Os mesmos problemas, porém, persistem até hoje.
De acordo com Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), em estudo lançado em 2022, a adoção de tratores na África ainda era excessivamente concentrada em apenas dois países: África do Sul (na foto, a Nampo Show, maior feira de máquinas agrícolas sul-africana, na cidade Bothaville) e Nigéria. Juntos, eles somariam 70% da frota de tratores de todo o continente. A FAO indicou também que, com o reduzido nível de mecanização, grande parte dos produtores, predominantemente em áreas familiares e de com poucos hectares, depende do uso da força física humana em cerca de 80% da área cultivada e do apoio de animais de tração em 15% das propriedades. Ou seja, os tratores mecanizavam a agricultura no restante do continente em somente 5% da área.
A presença e a relevância da indústria brasileira neste mercado contou com atributos próprios para manter-se como um player no continente africano, como a diferenciação e até a preferência, por muitos anos, por parte dos produtores. Entre os diferenciais da indústria do Brasil estariam a produção de equipamentos mais fortes, devido às características de solo mais seco e duro – como o existente na região do cerrado brasileiro e semelhante ao presente na África Subsaariana – e ao modelo predominante de plantio direto nos dois países, que exigem mais robustez das máquinas para preparar a terra.
Estimado como um mercado de 1,18 bilhão de dólares, em 2024, as aquisições de máquinas agrícolas pelos africanos poderão alcançar 1,58 bilhão dólares até 2029, especialmente, com a compra de tratores, projeta a consultoria Mordor Intelligence. Com exportações contínuas e crescentes para a região há mais de duas décadas, a indústria brasileira de máquinas e implementos agrícolas está entre as maiores do mercado. Tem, inclusive, espaço para empresas de médio porte e especializadas em produtos mais simples e destinados à agricultura familiar, que são adequados a cerca de 70% das áreas de plantio em áreas predominantemente de pequenas propriedades.
Comitivas africanas em busca de máquinas e implementos agrícolas são constantes há mais de uma década na Expodireto, feira setorial em Não-Me-Toque (RS), que em 2025 completa 25 anos de existência. Evaldo da Silva Júnior, Diretor de Promoção Comercial, Investimentos e Assuntos Internacionais da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do Estado (SEDEC/RS), explica que esse movimento teve origem a partir de 2007, após um tour divulgando a exposição.
“E esse movimento nunca mais parou e se ampliou muito”, disse Silva. Em 2023, por exemplo, a maior representação internacional do evento foi da Nigéria, composta por 12 pessoas, 11 militares e apenas um civil. “A missão teve o objetivo de prospectar e negociar equipamentos para as Arm Farms (fazendas gerenciadas pelo exército nigeriano com foco na segurança alimentar do país)”, relata Silva.
Brasil perde espaço para China e Turquia
A partir de 2010, gigante asiático aumentou sua participação no comércio de máquinas agrícolas para a África, chegando a 15,62% daquele mercado em 2022, seguido pela Índia e vendo despontar a participação turca
Em levantamento relativo ao mercado global de tratores, por exemplo, realizado pela European Agricultural Machinery Industry (CEMA), em 2010, a China sequer aparecia no relatório da associação que representa a indústria europeia de máquinas agrícolas.
O ranking da entidade que representa a indústria do Rio Grande do Sul mostra a mudança de países exportadores deste setor ao mercado africano ao longo dos últimos 20 anos, que, além da maior presença de China e Índia, trouxe como novo player a Turquia. De acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), que observa a ascensão da Turquia e produziu, em 2023, um estudo específico sobre a produção e a exportação das indústrias turcas, o país tem aumentado a participação não só no setor agrícola, mas na economia africana em diferentes frentes e tem reforçado a presença em feiras agrícolas, ocupando parte do mercado de máquinas e equipamentos do Brasil e de outros países.
A entidade avalia que entre as razões da competitividade da Turquia neste segmento está uma forte política governamental industrial de fomento às exportações, o que inclui preços de metais necessários à produção do setor menores que no mercado mundial. No campo governamental, dentre os esforços de fortalecimento dos laços econômico-comerciais turco-africanos no século 21 estão o apoio financeiro para a criação da Zona de Comércio Livre Continental Africana, acordos de comércio e cooperação econômica entre Ancara e 45 países africanos, eliminação da dupla tributação com 11 países. Afora tais ações, a Turquia trabalha com diferentes projetos que envolvem o setor da agricultura, da agricultura familiar e da infraestrutura econômica e produtiva.
Fabricantes buscam adaptação à realidade da agricultura africana
O volume de recursos necessário para ampliar a mecanização africana chama a atenção de diferentes multinacionais, incluindo grandes players consolidados no mercado de máquinas e implementos agrícolas. Em agosto de 2022, por exemplo, a John Deere Company fez investimentos para se associar à Hello Tractor, uma empresa de tecnologia agrícola com sede em Nairobi, Quênia, que tem como principal serviço um aplicativo que liga proprietários de tratores a pequenos agricultores na África e na Ásia com foco na partilha de equipamento agrícola.
A aproximação teve o objetivo de trazer mais conhecimentos sobre as necessidades dos produtores africanos, conforme a companhia, e “aprender com a Hello Tractor sobre como ela se conecta com os clientes e ajuda a resolver problemas nos mercados da Região 1 da Deere, na África e na Ásia”. Como muitos produtores não contam com recursos próprios e apoio do governo, o acesso ao mercado financeiro para obter crédito, a locação e o compartilhamento de maquinário agrícola também são mercados em ascensão no continente. A John Deere, em comunicado internacional, anunciou criação de uma rede de 250 empreiteiros de máquinas e colocação no mercado de cerca de 10 mil máquinas até 2027.
Com a escassez de maquinário agrícola e a capacidade financeira de grande parte dos produtores africanos para aquisição individual, a Hello Tractor é um dos representantes de um mercado característico na África e que está em crescimento. A estratégia de mecanização da produção rural, e a possibilidade de aumentar a produtividade agrícola entre os produtores que não podem adquirir equipamento próprio, mesmo que seja um trator, permitiu a startup receber aportes até mesmo da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), por meio do consórcio público-privado Farm to Market Alliance, que estima haver apenas 13 tratores por hectare de terra arável na África, em comparação com a média global de 200 tratores.
O mercado de locação de máquinas agrícolas é uma característica antiga e relevante na mecanização da produção de alimentos na África e representa uma estratégia importante e adequada para a modernização agropecuária do continente. O serviço chegou a ser oferecido por governos locais em alguns países, como oportunidade aos agricultores uma maneira mais barata de operar com equipamento a quem não poderia arcar com o custo de aquisição e manutenção.
A locação de máquinas, além de possibilitar o uso de tratores a agricultores africanos de menor renda, se tornou uma demanda a ser explorada pelo setor privado e estimulou o surgimento de startups como a Hello Tractor – sendo apontado, ainda, como um segmento que pode vir a incrementar negócios de fabricantes que, atualmente, atuam apenas comercialização.
Para Andrea Lazzarotto, administradora especialista em inteligência de mercado e comércio exterior, ainda há espaço para fabricantes buscam interessados em disputar a oferta de máquinas à África. “O mercado africano ainda tem grande potencial, começando por pequenas propriedades, onde grandes grupos talvez não consigam entrar, mesmo com marcas já consolidadas”, analisa. Andrea sinaliza, que a aceleração da mecanização da agricultura africana pós-pandemia, como forma de aumentar a segurança alimentar do país, tende a reforçar a demanda. “E como a necessidade é de produção de alimentos mesmo, não de soja, por exemplo, pequenas propriedades rurais precisam se modernizar. E modernizar, nesse caso, inclui equipamentos simples e amplamente produzidos por empresas gaúchas de médio porte, e por grandes multinacionais”, completa.
Jan celebra contratos fechados em Angola
Primeiras exportações para os países africanos da indústria estabelecida em Não-Me-Toque, no Planalto Médio, ocorreram no início dos anos 2000, chegando, em 2024, a 30% dos embarques da empresa para o mercado externo
Sediada no município de Não-Me-Toque, no norte do Rio Grande do Sul, a fabricante de máquinas e implementos agrícolas Jan passou a exportar ao mercado africano há cerca de 24 anos. No ano passado, estimulados por contratos fechados em Angola, as compras africanas chegaram a responder por cerca de 30% dos embarques da empresa para o Exterior.
Quando estreou nesse mercado, a fabricante gaúcha buscava ampliar seus territórios para exportação e foi levada pela procura de países africanos por tecnologias brasileiras, mais adaptadas às condições de clima e de solo em relação, por exemplo, às máquinas e implementos agrícolas produzidos por indústrias europeias. Atualmente a empresa tem como principais destinos no continente africano África do Sul, Zimbábue, Moçambique, Zâmbia, Quênia, Egito, Congo, Tanzânia, Etiópia, Nigéria e Senegal.
As demandas são, principalmente, por itens como carretas graneleiras, distribuidores de calcário e fertilizantes, plantadeiras e semeadeiras, plataformas de milho, subsoladores e pulverizadores, montadas nos próprios países importadores em boa parte das exportações. Em períodos de maior procura, entre os anos de 2010 e 2013, a Jan direcionava cerca de 40% de seu volume de exportações para o continente.
Em 2023, foram cerca de 20% do total embarcado. A queda seria reflexo do cenário global de guerras, por exemplo, que encaminham recursos para outros focos, explica Heitor Kunzler, que atua na área de comércio exterior da empresa. “O continente é extremamente dependente de financiamentos e recursos estrangeiros, e foi afetado pelos conflitos mundiais, que reorientam o fluxo internacional de dinheiro. Em 2024, porém, o destravamento de projetos em Angola deu um novo fôlego ao mercado”, diz Kunzler.
Apesar da redução das vendas ao longo dos anos, a permanência da Jan no continente é considerada estratégica, especialmente pela perspectiva, ainda que de longo prazo, de que o continente venha a ser o novo “celeiro do mundo”. Esse esperado salto de produção é que tem levando empresas a adequar ou criar produtos específicos para atender as demandas de produtores e dos governos africanos e manterem suas posições e parceiros locais.
Para ter sua bandeira fixada nos países da região por duas décadas, a indústria do Rio Grande do Sul aponta como fundamentais a rede de parceiros, de representantes, de importadores e de revendedores, tanto em momentos de alta demanda quanto em períodos de menores volumes exportados. Essas conexões, diz Kunzler, mantém a confiança dos compradores na aquisição dos produtos brasileiros, com suporte adequado e constante.
A necessidade africana por máquinas e implementos brasileiros, porém, desacelerou com a redução de alguns diferenciais que foram marca forte do produtos “Made in Brazil”: robustez e de adequação ao solo africano. Kunzler explica que para exportar ao continente africano, com solo semelhante ao que é semeado no Brasil, os fabricantes europeus precisavam fazer adaptações, com custos que nem sempre compensavam. “Foi esta característica que favoreceu o Brasil como fornecedor de equipamentos agrícolas aos países africanos, há mais de 20 anos. Porém, fabricantes europeus passaram a produzir máquinas e implementos mais resistentes e adaptados às necessidades africanas, tornando-se importantes players no mercado africano”, afirma Kunzler.
Além de uma maior e recente competição com a produção europeia mais adequada às condições do solo africano, o Brasil enfrenta, atualmente, a melhoria da qualidade da produção chinesa. “As máquinas brasileiras chegavam a custar 40% acima das chinesas, mas pela qualidade e pela resistência se tornavam competitivas e mais procuradas pelos africanos”, analisa o executivo. Mas, segundo ele, houve forte avanço na produção chinesa e turca. Os dois países melhoraram a qualidade de maquinário, assim como a China”, ressalta.
Vence Tudo aposta no suporte pós-venda
Entre o grupo de fabricantes gaúchos com presença consolidada há duas décadas no continente africano, a Vence Tudo, localizada em Ibirubá (RS), deu início a sua trajetória nesse mercado em 2001, durante a Nampo Show, a maior feira do agronegócio africano, realizada na África do Sul.
“Naquele ano, a empresa firmou sua primeira parceria local com um importador na África do Sul, que foi o pioneiro no continente. Posteriormente, esse importador passou a distribuir máquinas e implementos da fabricante para países vizinhos, como Lesoto e Moçambique, além de abrir novas parcerias em países como Zimbábue, Sudão e Quênia, entre 2004 e 2005”, diz Jair Bottega, gerente de exportações da empresa. Atualmente, a lista de países africanos com os quais a Vence Tudo mantém relacionamento inclui Gana, Senegal, Angola, Eritreia, Etiópia, entre outros.
Dentro do Programa Mais Alimentos Internacional, a fabricante gaúcha realizou, em 2014, o embarque de 120 plantadeiras, um marco na história da empresa. Em 2023, o mercado africano representou cerca de 20% do faturamento em exportações, o equivalente a aproximadamente 5% do total dos negócios fechados pela Vence Tudo. Em 2024, a empresa participou novamente da Nampo Show, retomando a feira em que havia estreado no mercado e ainda em parceria com o primeiro importador.
Bottega explica que a manutenção da marca própria (Vence Tudo) tem sido uma prioridade, sem tradução do nome ou adoção de marcas locais por revendedores, como ocorre com outros fabricantes. A empresa também tem priorizado a expansão no continente, com foco no pós-venda. Representantes da Vence
Tudo estão frequentemente presentes na África, promovendo o treinamento de trabalhadores locais para melhor atender os produtores.
Mesmo em mercados onde as vendas reduziram ou cessaram devido à concorrência, a empresa acredita que manter o suporte técnico é essencial para preservar sua reputação como fornecedora confiável e retomar espaços no futuro. A estratégia da Vence Tudo de valorizar o pós-venda como diferencial competitivo está alinhada com uma das maiores demandas dos agricultores locais. Diferentes pesquisas mostram que os produtores africanos se dizem insatisfeitos com a falta de suporte técnico e apoio no uso dos equipamentos em campo, o que resulta em utilização inadequada e maior desgaste das máquinas.
A empresa de Ibirubá trabalha com a meta de dobrar a representatividade das vendas para o continente em cinco anos. Entre as estratégias de expansão está a introdução de novos modelos de equipamentos, mais adequados às condições africanas, predominantemente de plantio convencional, além da manutenção do pós-venda como um diferencial competitivo. Isso inclui manter visitas regulares aos parceiros e oferecer treinamentos a trabalhadores locais.
O ano de 2024, avalia Bottega, foi desafiador para as exportações africanas. Além de fatores climáticos adversos e a queda no preço das commodities, os elevados custos logísticos no setor marítimo impactaram negativamente os negócios. Neste ano, a empresa aposta na superação dos problemas portuários e na melhoria da organização das companhias marítimas para escoar melhor a produção e com menos custos.