O governo federal foi alvo de críticas generalizadas em reunião promovida pela Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) com parlamentares gaúchos, a partir das 12h desta quinta-feira, 6. Participaram do encontro 27 representantes do Legislativo estadual, da Câmara dos Deputados e do Senado, 21 deles de forma presencial e seis por meio virtual. Críticas ao primeiro leilão para compra pública de arroz importado e à atuação do Palácio do Planalto dominaram as manifestações durante as duas horas e meia de duração do evento.
- Conab compra 263 mil toneladas de arroz importado
- Justiça Federal revoga liminar que suspendia leilão do arroz
- STF rejeita pedido de suspensão de leilão do arroz
O presidente da Farsul, Gedeão Pereira, abriu a reunião relembrando as dificuldades enfrentadas por produtores gaúchos nos últimos anos, em razão de estiagens e do excesso de chuva ocorrido no mês de maio. Na sequência, Gedeão logo abordou o tema da importação do arroz, determinada pelo Palácio do Planalto para enfrentar eventual desabastecimento do cereal e decorrente aumento especulativo de preços, em razão da devastação sofrida pelo Rio Grande do Sul. “Temos arroz de sobra para o próximo ano”, disse Gedeão, classificando a iniciativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), como “uma intervenção gravíssima”. A empresa estatal deverá comercializar o estoque adquirido com preço tabelado em R$ 4 o quilo.
“A Conab vai colocar arroz no mercado abaixo do custo de produção que temos no Estado”, afirmou Gedeão Pereira.
Gedeão lamentou que o ministro da Agricultura e Pecuária, Carlos Fávaro, tenha “cortado o diálogo” com produtores gaúchos “depois que fomos à imprensa contestar a importação do arroz”. O presidente salientou que Fávaro tomou a iniciativa de procurar a Farsul nos primeiros momentos da crise ambiental, inclusive participando de reuniões promovidas pela entidade. Em abordagem também contemplada pelo economista-chefe da Farsul, Antonio da Luz, Gedeão destacou o endividamento dos empreendedores do agronegócio regional.
Na avaliação da Farsul, medidas anunciadas de imediato pelo Planalto beneficiaram prioritariamente pequenos produtores, sem oferecer apoio “aos demais, que muita gente confunde com os grandes produtores”, como definiu da Luz. “Para esses, não foi anunciado nada. O único público que não teve qualquer anúncio são os produtores que têm interlocução com o governo federal”, disse o economista. Gedeão enfatizou esforços desenvolvidos pelo Senar, integrante do Sistema Farsul, em apoio aos pequenos produtores, “que tudo perderam”.
Alheias ao setor
As críticas ao primeiro leilão de arroz, ocorrido na manhã desta quinta-feira, com a aquisição de 263 mil toneladas do cereal, destacaram que as empresas vencedoras da licitação não atuam no setor.
“Uma única empresa vendeu quantidade suficiente para alimentar 4 milhões de brasileiros. Quem é do ramo do arroz não conseguiu participar por não atender exigências [do edital]”, afirmou Guilherme Gadret, da Expoente Agronegócios, de Pelotas, que produz e comercializa arroz e soja.
De acordo com o deputado federal Marcel Van Hattem (Novo), uma sorveteria e uma locadora de automóveis estariam entre os empreendimentos habilitados. “A participação merece investigação”, disse da Luz, lembrando que, dependendo do país fornecedor, o arroz pode ter sido cultivado com defensivos agrícolas proibidos no Brasil.
“Ideologização” foi, provavelmente, a palavra mais empregada nos ataques ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A suposta característica da atual administração federal estaria comprometendo as relações institucionais e inclusive as ações para a recuperação do Estado. “A Farsul não se sente à vontade para sentar com o ministro Paulo Pimenta. Ele já manifestou interesse em vir à Casa, mas, num momento de polarização ideológica, nos traz desconforto”, disse Gedeão, referindo-se ao titular da Secretaria Extraordinária da Presidência da República de Apoio à Reconstrução do Rio Grande do Sul. “O governador [Eduardo Leite] deverá chamar o ministro para uma conversa com as três federações [Farsul, Federasul e Fecomércio]”, antecipou.
Os três senadores do Estado participaram do encontro ou se fizeram representar. Hamilton Mourão (Republicanos) compareceu pessoalmente. Ireneu Orth (PP), em recuperação de problemas de saúde, acompanhou virtualmente. Paulo Paim (PT), hospitalizado, enviou representante. Encerrada a reunião, os parlamentares presentes foram convidados para um almoço na sede da Farsul.
