Rural

Feira de Agricultores Ecologistas comemora 33 anos

Proposta de concessão do Parque Farroupilha trouxe incertezas quanto à permanência da iniciativa no local, dizem produtores

Primeira feira de produtos orgânicos criada no Brasil e referência para outras ações do tipo no Rio Grande do Sul e em outros estados, a Feira de Agricultores Ecologistas (FAE) de Porto Alegre completa 33 anos neste sábado. Instalada na primeira quadra da Avenida José Bonifácio, no Parque Farroupilha, a atividade ocorre todos os sábados, das 7h às 13h, apresentando 44 bancas que expõem alimentos cultivados por mais de 500 famílias de agricultores.

Participante da feira desde os primeiros anos, o casal de agricultores Edson Marcelo Gonçalves Garcia e Claudia Bos Wolff conta que a iniciativa nasceu de uma parceria entre produtores familiares e moradores de Porto Alegre interessados em alimentos saudáveis, por meio da extinta Cooperativa Coolméia. Na época, ainda não havia no Brasil uma legislação específica para a produção e venda de produtos orgânicos, o que só ocorreu em 2003, com a Lei nº 10.831, regulamentada em 2007. “As regras, o regimento da feira, tudo foi criado pelo próprio de grupo de produtores e consumidores ligado à Coolméia”, lembra Claudia.

Em 2019, a FAE foi reconhecida pela Lei nº 15.296 como ação de “relevante interesse cultural do Estado do Rio Grande do Sul”. Segundo Claudia, um dos pilares da longevidade da feira está no modelo de autogestão. A atividade é organizada por uma comissão, formada por representantes das bancas e dos consumidores, e as decisões são tomadas coletivamente. Além disso, a troca de informações entre a população urbana e os agricultores criou um vínculo que fortaleceu a iniciativa, avalia Garcia. “Nestes 33 anos, isso fez com que várias famílias não deixassem suas propriedades para vir para os grandes centros”, observa.

Apresentadas nesta semana pela Prefeitura de Porto Alegre, porém, as propostas de qualificação do uso de espaços públicos, que preveem a concessão de parques como o Farroupilha, trouxeram dúvidas quanto à permanência da feira no local. A consulta pública sobre o assunto está aberta e prossegue até 24 de novembro pelo site https://www2.portoalegre.rs.gov.br/ppp/. “Falta clareza sobre o que vai ser realizado no parque, então isso está dando uma certa insegurança”, afirma Garcia. O agricultor Ricardo Hattori, de Viamão, também está apreensivo. “Não sabemos como vai ser no futuro, se (o local) vai ser modificado, se vai fechar a rua”, diz.

Integrante da Comissão da FAE, Hattori participa há 21 anos da feira, onde vende brotos de alfafa, rabanete, linhaça, feijão, cebola e girassol – ele também é pioneiro na produção de missô e shoyu orgânico no país. “No início, a gente entrou porque ainda não existia mercado de produtos orgânicos estabelecido no Brasil. A feira para nós é uma forma de mostrar e trabalhar direto com o consumidor”, destaca.