Rural

Geração Z é a aposta para renovação do campo gaúcho

Jovens nascidos entre 1997 e 2012 reúnem características que ajudam no desenvolvimento rural a partir do conhecimento de novas tecnologias e inovação

Eduardo John pretende aplicar conhecimento para incrementar a propriedade familiar
Eduardo John pretende aplicar conhecimento para incrementar a propriedade familiar Foto : Jenifer Souza / Divulgação / CP

Criativos, hiperconectados e mais familiarizados com tecnologia, os jovens nascidos entre 1997 e 2012 – a chamada Geração Z – surgem como a principal aposta para renovar a produção rural no Brasil. Em um cenário de esvaziamento contínuo do campo, esse movimento é visto como uma necessidade estratégica para os próximos anos. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a população rural caiu 14,7% desde 2010 e hoje representa apenas 12,49% dos habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE.

Em razão da necessidade de domínio de novas técnicas de precisão no campo para obter resultados na produção e na gestão da atividade, os mais jovens assumem importância fundamental neste meio, na avaliação da professora do Departamento de Zootecnia e Ciências Biológicas e do Programa de Pós-graduação em Agronegócios/UFSM/PM Rosani Marisa Spanevello. Entre as principais características que diferenciam este grupo, segundo ela, está a maior escolaridade por causa do acesso facilitado ao ensino superior e a cursos profissionalizantes.

“O que se observa no campo é que são os jovens, em razão até do seu grau de escolaridade ser superior à geração dos pais e dos avós, apresentarem domínio sobre as tecnologias a serem implementadas nas propriedades.”

Leia a entrevista completa com a professora da UFSM

Ela lembra que é comum cooperativas, assistências técnicas e empresas trabalharem com aplicativos ou outras ferramentas de organização. “Geralmente estes aplicativos estão instalados e são controlados/alimentados pelos filhos”, explica. A interação entre estudo e tecnologias leva os jovens a aplicarem, de forma mais efetiva, esses recursos na propriedade, na opinião dela, e nas atividades produtivas buscando melhorar o trabalho e diminuir os efeitos climáticos com foco no incremento da renda.

“Nas gerações passadas, o trabalho e a produção estavam atrelados não apenas à geração de renda, mas também ao fato do apego moral à terra e à tradição da família em produzir naquele local, ao longo das suas gerações. A própria ideia de que todo filho de agricultor seria agricultor reflete este modo de ser e pensar”, destaca. No entanto, a Geração Z abre uma outra perspectiva de olhar a atividade produtiva como um negócio. “Com isso, passa a fazer uma atividade produtiva com ampliação gerencial, com cálculo dos custos e dos riscos, com tomada de investimentos bancários, com responsabilidade ambiental.”

Mais possibilidades

Representante da Geração Z no meio rural, Eduardo John, de 19 anos, cursa o primeiro semestre de Agronomia e pretende atuar com tecnologia e estudar fora do país. Criado em meio à lavoura e à pecuária em Cerro Largo, chegou a considerar outras profissões, mas acabou pensando as alternativas e priorizando a atividade no campo. “A ideia é integrar lavoura e o máximo de tecnologia possível.” Com o conhecimento, ele espera incrementar a propriedade familiar, que será uma garantia para a aposentadoria dos pais. “Acredito que nossa geração pode contribuir muito pela facilidade de acesso ao conhecimento. Por enquanto, quero aplicar em casa o uso de biológicos via inoculação”, explica.

O caso dele é um exemplo de que, mesmo criado no meio, a opção de ficar no campo foi uma escolha, não um caminho pré-determinado. Conforme a professora da UFSM, a atual geração trabalha com um leque de possibilidades, diferente dos mais velhos. “Na Geração Z, a quebra desta lógica é verificada com maior ênfase. Ou seja, nem todo filho de agricultor será agricultor e vai seguir a lógica de tocar a propriedade. Os jovens rurais desta geração se questionam sobre a possibilidade de futuro, em especial, sobre a renda e as condições de trabalho e de vida possíveis nas propriedades, comparando com outras possibilidades urbanas ou até mesmo de trabalho no meio rural (fora da propriedade paterna). Estas escolhas ou comparações são decisivas para a sucessão geracional ou não”, salienta. Dessa forma, os sucessores racionalizam se seguirão produzindo o mesmo que os pais ou se vão inovar.

O coordenador-geral da Fetraf-RS, Douglas Cenci, concorda que, nos últimos anos, os jovens passaram a ter possibilidade de escolher e os fatores para ficar no campo melhoraram, como acesso o à internet e a valorização do produtor. Porém, o endividamento rural é um dos entraves. “Muitos pegam a propriedade comprometida, ou os pais precisam continuar trabalhando para quitar aquelas dívidas”, diz. Para a 1ª Secretária e Coordenadora de Juventude Rural e Educação do Campo da Fetag, Camila Rode, são necessárias políticas públicas que dialoguem com o meio rural e considerem o envelhecimento da população. “A juventude consegue unir a tradição com a inovação. A discussão da sucessão é da sociedade.”

Mulheres na sucessão das propriedades

A agricultura familiar no Rio Grande do Sul é predominantemente comandada por homens, que estão à frente de 87% das propriedades, enquanto as mulheres respondem por 13%, conforme apontou o Censo Agropecuário do IBGE (2017). Em relação à idade, cerca de 35% das produtoras têm 65 anos ou mais, e menos de 10% estão na faixa de 25 a 35 anos.

A presença deles é explicada pelo papel secundário que tradicionalmente as mulheres mantinham nesses espaços, resultando no êxodo rural feminino, como uma forma de fuga da invisibilidade em busca de ocupações urbanas, como observa a professora da UFSM Rosani Marisa Spanevello. Em contrapartida, ela tem percebido que as “jovens mulheres da Geração Z têm ocupado espaços maiores nos bancos universitários”. No contato com as alunas de graduação de Zootecnia, em Palmeira das Missões, ela observa a presença maior dessas meninas. “Quando questionadas sobre a sucessão geracional, o que se verifica é que poucas pretendem ocupar o espaço de sucessoras nas propriedades, mas estão estudando para prestar serviços de assistência técnica ao meio rural”, salienta ela.

Contrariando essa tendência, Gianna Mielke, 20 anos, deve assumir, no futuro, o negócio da geração anterior à dela. “Meu objetivo é dar continuidade ao trabalho da minha família. Gosto muito da área de bovinos de corte e, como já estamos inseridos nesse meio, é nisso que pretendo atuar”, planeja. “Temos uma granja e, além da produção de grãos, como soja e aveia, atuamos com recria e confinamento de gado de corte, além da fase de terminação de suínos, ambos voltados para a produção de carne”, explica.

Gianna Mielke se prepara para assumir os negócios da família em Salvador das Missões | Foto: Camila Kessler / Divulgação / CP

Natural de Salvador das Missões, município do Noroeste gaúcho de economia voltada basicamente para a agricultura familiar, Gianna sempre sonhou em ser médica veterinária. No entanto, durante a pandemia, a estudante passou a acompanhar o pai, com mais frequência, na lavoura e no cuidado com aos animais. Assim, surgiu também o interesse pela Agronomia. “No final do Ensino Médio, fiquei um pouco dividida entre seguir meu sonho ou escolher o que poderia ser mais estratégico para o nosso negócio, mas meu pai sempre me incentivou a cursar os dois”, conta. No entanto, a Medicina Veterinária é a prioridade. “Na Agronomia, vou fazendo as disciplinas conforme tenho disponibilidade, então sei que provavelmente não vou me formar junto com os colegas que começaram comigo em 2024. Hoje, ao longo do processo, percebo que me identifico mais com a Veterinária. Ainda não tenho certeza se vou concluir Agronomia”, pondera, explicando que ela a irmã, diferente de muitas mulheres, se preparam para suceder a propriedade nos próximos anos.

Jovens compartilham vivências tanto no rural quanto no urbano

Há jovens rurais que desejam sair do campo e jovens urbanos que aspiram ao rural. Por isso, o professor do Departamento de Geografia da UFRGS e líder do Grupo de Estudos e Pesquisas em Juventudes e Espaço (GEPJUVE), Victor Nedel, afirma que não é possível generalizar. “Ambas as juventudes (cidade e campo) compartilham a cultura digital, mas os usos divergem. No urbano, tende a estar mais associada à mobilidade, consumo cultural ou redes de sociabilidade mais amplas. No rural, além dos motivos já colocados, a tecnologia também é frequentemente usada como ferramenta de trabalho, comercialização, visibilidade e inovação”, explica.

sonho de tratar cavalos deve levar Ana da cidade para o campo | Foto: Ana Carolina da Silva / Arquivo Pessoal / CP

No caso da estudante de Veterinária Ana Carolina Leal da Silva, 21 anos, o objetivo é sair de Cachoeirinha para tratar de animais de produção no campo. “Atualmente, eu tenho uma vida urbana, mas durante minha infância tive a vida rural, porque morava em um sítio com meus pais”, recorda.

A paixão pelos cavalos ajudou a traçar os planos profissionais. “Minhas expectativas são poder ser uma boa veterinária e conseguir ter uma clientela boa, porque, infelizmente, tem muito preconceito com o fato de mulheres estarem na parte da veterinária com animais de produção, vacas, bois, ovelhas e equinos, por serem animais grandes. Pretendo conseguir quebrar este preconceito e conseguir trabalhar bem com produtores”, projeta.

Nedel avalia que o recorte de gênero é central na discussão do tema e acrescenta problemas enfrentados pelas mulheres nas famílias do interior. “As jovens mulheres do meio rural no Rio Grande do Sul ainda enfrentam menos autonomia, menor participação nas decisões e menos incentivo para permanecer como sucessoras”, salienta.

Leia a entrevista completa do professor da UFRGS

Para ele, as jovens mulheres enfrentam mais barreiras para serem reconhecidas neste meio para e terem mais voz no trabalho e também na gestão.

Sustentabilidade e renovação do campo

As mudanças climáticas têm acelerado as transformações do trabalho no campo. Cada vez mais frequentes, problemas como estiagens e enchentes exigem adaptações de técnicas e de manejo. Nesse contexto, os jovens têm mostrado mais preocupação com o meio ambiente. É o que o professor da Escola Técnica Estadual Cruzeiro do Sul, em São Luiz Gonzaga, Ayrton Ávila da Cruz nota como uma das características da Geração Z, ao recordar seus mais de 30 anos na área pedagógica rural.

“É uma geração mais preocupada com a sustentabilidade, com a preservação ambiental”, destaca. Segundo ele, os jovens têm demonstrando, de forma aguçada, a valorização e o cuidado com solo, com água e com o bem-estar animal. “Eles são mais preocupados que os animais se sintam bem também na propriedade rural.”

Outro aspecto é a facilidade com a mecanização das atividades rurais, que ganha cada vez mais espaço. Porém, o professor alerta para a necessidade de um processo formativo que inclua, além da tecnologia, o foco no pensar e no planejar essas ferramentas, sempre incluindo a responsabilidade e a ética. “Por exemplo, uma técnica é aprendida em um curso rápido. Mas pensar e planejar exige mais estudo. Exige mais dedicação e a presença do professor para ser o mediador desse processo nesse mundo das tecnologias”, analisa Cruz, ponderando que o mundo digital traz muitas possibilidades de ensino e conhecimento, mas os alunos não podem confundir com dependência digital, por exemplo, como ele tem visto na sala de aula.

Na sua experiência, viu muitas pessoas de origem agrícola quererem que seus descendentes saíssem desse meio para estudar e ter uma vida mais confortável. Contudo, atualmente, é comum o caminho inverso, em que os netos entendem que empreender no agronegócio é, muitas vezes, mais rentável do que trabalhar para uma empresa, como CLT, por exemplo.

Além disso, a lida do campo não é tão penosa como já foi, justamente em função da mecanização, como destaca Cruz. “Hoje o trator e a sala de ordenha, por exemplo, têm ar-condicionado. Então, muitas coisas estão mais fáceis.”

Desenvolvimento

Coordenador da Comissão Jovem da Associação Brasileira dos Criadores de Ovinos (ARCO), Lucas Garcia é um dos que tem, na geração dos avós, sua inspiração. Ele lida com as dificuldades e expectativas de jovens como ele. Aos 27 anos, planeja, organiza e acompanha todas as atividades da entidade, conciliando com a rotina de produtor em Santa Vitória do Palmar. Desde cedo é envolvido com a pecuária, especialmente com a criação de bovinos, seguindo o exemplo do avô, que atuava na área. Em 2017, motivado pelo desejo de profissionalizar e diversificar a produção, o jovem deu início à Cabanha Vô Garcia, voltada para a criação de ovinos da raça Corriedale. “Esse projeto nasceu como uma forma de homenagear meu avô e, ao mesmo tempo, consolidar uma nova etapa na propriedade, buscando genética de qualidade, manejo adequado e um desenvolvimento dentro da ovinocultura”, conta.

Lucas Garcia segue o exemplo do avô na criação de animais para construir um caminho no setor | Foto: Cristina Soares Ribeiro / Arquivo Pessoal / CP

Para ele, assumir a propriedade significa manter viva a história construída pelos que vieram antes, mas também imprimir a própria visão de futuro. Para isso, ele procura incorporar novas técnicas. “A atividade no campo não é apenas uma profissão, mas uma forma de vida que carrega tradição, responsabilidade e o desejo de contribuir para o crescimento sustentável da pecuária.” Isso vem ao encontro da ideia colocada pelo professor Victor Nedel de que muitos querem transformar a propriedade, modernizar processos, incorporar tecnologia, agregar valor e profissionalizar a gestão. “Os jovens rurais contemporâneos combinam, de maneira muito própria, vínculo com a terra e desejo de desenvolvimento pessoal”, define. Assim, ele diz que a sucessão vai além de herança.

“Passa a ser entendida como possibilidade de renovação. As formas de sociabilidade também mudaram. Esses jovens mantêm laços comunitários e familiares fortes, característicos do rural, mas articulam isso com redes mais amplas regionais, nacionais e digitais. Têm acesso a tecnologias, educação e circulação de informações que não estavam disponíveis para gerações anteriores, o que amplia horizontes e expectativas”, acrescenta, lembrando que a permanência no campo é pensada de maneira condicional, porque depende de fatores, como infraestrutura, políticas públicas, crédito, apoio extensionista e oportunidades de formação. “Há também maior valorização da autonomia: eles querem participar das decisões e não apenas ‘ajudar’ na propriedade.” Diante de todas as questões envolvidas, os jovens enfrentam menos fatalismo e mais possibilidades diante das adversidades que estão por aí.

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