Rural

Juventude Z transforma o campo gaúcho

Confira entrevista com professora que analisa o impacto da escolaridade e do acesso à tecnologia no trabalho e na sucessão nas propriedades

Domínio tecnológico é uma das características que ajudam os mais novos nas atividades
Domínio tecnológico é uma das características que ajudam os mais novos nas atividades Foto : Freepik / CP

A presença da Geração Z no campo tem provocado mudanças na forma de produzir, gerir e projetar o futuro das propriedades rurais. Com maior escolaridade, domínio tecnológico e novas expectativas em relação ao trabalho e à sucessão familiar, esses jovens rompem lógicas tradicionais e redesenham o perfil da juventude rural no Rio Grande do Sul. Para entender como essas transformações têm ocorrido e quais desafios e oportunidades marcam esse novo cenário, conversamos com Rosani Marisa Spanevello, professora do Departamento de Zootecnia e Ciências Biológicas e integrante do Programa de Pós-graduação em Agronegócios da UFSM, campus Palmeira das Missões.

Confira a entrevista completa:

Quais são as principais características que diferenciam a juventude rural da Geração Z da de décadas anteriores?

Esta geração, que tem como marco a primeira década de 2000, certamente tem características distintas das gerações anteriores. Entre as principais características que as diferenciam estão:

a) Maior escolaridade, que acontece pelas maiores possibilidades de acesso ao ensino superior e a cursos profissionalizantes a partir da própria ampliação deste acesso no Rio Grande do Sul, dado o aumento de instituições federais e privadas, inclusive no interior do Estado. Associado a isso, está a própria importância do estudo e da qualificação profissional para exercer a atividade agropecuária. As novas tecnologias e técnicas de precisão no campo necessitam de jovens com maior conhecimento para aplicar e obter resultados satisfatórios na produção agropecuária e na gestão da atividade. Outro fator que motiva a busca pela ampliação dos estudos são os novos negócios não agrícolas que surgem no meio rural, motivados por ideias empreendedoras dos jovens que ao invés de se dedicar a produção agropecuária organizam outros negócios geradores de renda no meio rural ligadas a atividades de lazer, agroindústrias, conversação da natureza, entre outros.

b) Possibilidade de escolhas sobre o projeto profissional: Nas gerações passadas, as propriedades e as famílias tinham certeza da sucessão geracional. Era certo que um filho ficava para tocar a propriedade e amparar os pais na velhice. De modo geral, a lógica era: todo filho de agricultor seria agricultor. No entanto, em especial na Geração Z, a quebra desta lógica é verificada com maior ênfase. Os projetos individuais tem dado lugar ao projeto coletivo familiar e da propriedade. Ou seja, nem todo filho de agricultor será agricultor e vai seguir a lógica de tocar a propriedade. Como resultado, as propriedades tem se deparado com a perspectiva (ou com a concretização) da não sucessão geracional (aquela em que os filhos permanecem no lugar dos pais tocando os negócios e o patrimônio). Os jovens rurais desta geração se questionam sobre a possiblidade de futuro, em especial sobre a renda e as condições de trabalho e de vida possíveis nas propriedades, comparando-os com outras possibilidades urbanas ou até mesmo de trabalho no meio rural (fora da propriedade paterna). Estas escolhas ou comparações são decisivas para a sucessão geracional ou não.

c) Papel das jovens mulheres: tradicionalmente, as mulheres têm um papel secundário no trabalho e a gestão das propriedades rurais. Nas gerações passadas, conforme a literatura sobre gênero no meio rural, as mulheres eram vistas como ajudantes das atividades produtivas das propriedades e como centrais nas atividades domésticas e na manutenção do grupo familiar. Trata-se, sobretudo, de um papel invisível das mulheres no meio rural e nas propriedades. Esta invisibilidade resulta também na preferência pelos filhos homens dentro do processo da sucessão geracional. Dentro desta perspectiva, as jovens mulheres estão entre as que mais saem do meio rural em busca de ocupações urbanas, resultando no que a literatura acadêmica denomina de êxodo rural seletivo. Os resultados deste processo são a maior presença de homens como sucessores ou prováveis sucessores nas propriedades. Dados do Censo Agropecuário do IBGE (2017) mostram que na categoria Agricultura Familiar gaúcha 87% das propriedades são tocadas por homens e 13% por mulheres. Analisando os dados sobre as mulheres verifica-se que a faixa etária das mulheres da agricultura familiar do RS concentra-se (cerca de 35%) na idade acima de 65 anos ou mais, enquanto as jovens (25 a 35 anos) não chegam a 10%.

A jovens mulheres da Geração Z têm ocupado espaços maiores nos bancos universitários. Analisando, por exemplo, a relação de jovens mulheres que fazem graduação em Zootecnia, campus da UFSM, Palmeira das Missões/RS verifica-se uma presença maior de jovens mulheres comparativamente aos jovens homens. Quanto questionadas sobre a sucessão geracional, o que se verifica é que poucas pretendem ocupar o espaço de sucessoras nas propriedades, mas estão estudando para prestar serviços de assistência técnica ao meio rural.

Como a escolarização e o acesso à tecnologia têm influenciado as atividades dos jovens no setor rural?

A escolarização influência no próprio acesso e adoção de tecnologias. O que se observa no campo é que são os mais jovens, em razão até do seu grau de escolaridade ser superior a geração dos pais e dos avós, apresentarem domínio sobre as tecnologias a serem implementadas nas propriedades. É comum vermos os filhos com os aparelhos de celulares mais modernos que os dos pais, também é comum vermos instituições fomentadoras de tecnologias como Cooperativas, empresas privadas de assistência técnica, empresas públicas trabalharem com aplicativos ou outras ferramentas de gestão e organização da atividade produtiva sendo que geralmente estes aplicativos estão instalados e são controlados/alimentados pelos filhos. Esta interação maior do estudo e das tecnologias levam os jovens a aplicarem de forma mais efetiva estes recursos na propriedade e nas atividades produtivas buscando melhorar a gestão, diminuir os efeitos climáticos e comerciais como foco na maior renda.

Que mudanças você tem observado no modo como a Geração Z enxerga a agricultura e o trabalho no campo?

Nas gerações passadas, o trabalho e a produção estavam atrelados não apenas a geração de renda, mas também ao fato do apego moral a terra e a tradição da família em produzir naquele local ao longo das suas gerações. A própria ideia de que todo filho de agricultor seria agricultor reflete este modo de ser e pensar.

A Geração Z abre uma outra perspectiva de olhar a atividade produtiva como um negócio. Com isso, passa a fazer uma atividade produtiva como maior ampliação gerencial com cálculo dos custos e dos riscos, com tomada de investimentos bancários, com responsabilidade ambiental. No trabalho, além da tecnificação com facilitadora da mão de obra, passou a olhar a sucessão geracional como parte do planejamento do futuro da atividade produtiva. Os filhos sucessores imprimem uma racionalidade sobre o que vão produzir (vão seguir produzindo o que a geração anterior produzia ou vão inovar com outros sistemas ou vão introduzir novidades nos sistemas tradicionais), como vão produzir e com que mão de obra. Outro aspecto vinculado a Geração Z é o fato que nem todo o trabalho e geração de renda precisa vir da agricultura e/ou pecuária, podendo também ser de fontes não agrícolas a partir de ações empreendedoras no meio rural.

Quais são as expectativas mais comuns da Geração Z rural em relação ao futuro no campo? Permanência, retorno ou saída?

É difícil falar ou apontar uma perspectiva única ou comum. As três perspectivas podem acontecer, dependendo do cada contexto de cada jovem, de cada família e de cada propriedade.

Que fatores mais influenciam a decisão da Geração Z em permanecer, migrar ou retornar às propriedades rurais?

Dois fatores são fundamentais para os jovens hoje: ter renda e ter autonomia. A renda está vinculada com a questão da capacidade produtiva da propriedade em gerar uma renda satisfatória para a família que permitia atender as suas necessidades básicas, possibilidade de adquirir bens de conforto e fazer investimentos que melhoram a atividade e facilitam o trabalho.

A autonomia diz respeito inclusive ao jovem receber uma renda pelo trabalho executado na propriedade e não ficar depende dos pais. Outra questão relacionada a autonomia é a possibilidade dos pais cederam o espaço da experimentação dos filhos. É comum a resistência dos pais a adoção das novas ideias dos filhos. Para os filhos isso pode ser visto como dúvida dos pais quanto a sua capacidade de gerir os negócios da propriedade. Estudos mostram que as propriedades com sucessão ou maior potencial de sucessão estão naquelas em que os pais “cativam” os sucessores cedendo espaços para os mesmos colocarem suas ideias em ação. O que se visualiza é os pais cedendo parte da área de terra para o filho produzir segundo sua formação, cedendo o tambo de leite para a gestão e trabalho do filho, entre outras experiências.

Quais mitos mais comuns sobre os jovens do campo?

Entender que hoje os jovens estão diversificando seus modos de vida no meio rural e a sucessão geracional não é a única possibilidade. Os jovens estão no campo, mas não vivendo unicamente do campo. Hoje as realidades são distintas: tem jovens no papel de sucessores nas propriedades rurais, tem jovens vivendo no rural trabalhando em outras atividades produtivas como prestadores de serviços em outras propriedades, tem jovens nas propriedades mudando a lógica produtiva da geração anterior implantando, por exemplo, agroindústrias de bebidas, embutidos, entre outras. Tem jovens retornando ao rural depois de ter passado pela experiência de trabalho e modo de vida urbano. Olhar estas diferentes realidades dos jovens do campo é um desafio para as próprias propriedades e para os setores ligados ao desenvolvimento rural do campo.

Leia a reportagem completa sobre a Geração Z no campo