Em um momento em que o debate sobre sucessão familiar, permanência no campo e transformações no agronegócio ganha força no Rio Grande do Sul, o olhar sobre as juventudes rurais torna-se essencial. Para compreender como a Geração Z tem vivido no meio rural, ouvimos Victor Nedel, professor do Departamento de Geografia da UFRGS e líder do GEPJUVE – Grupo de Estudos e Pesquisas em Juventudes e Espaço. Na entrevista, ele analisa as múltiplas realidades que atravessam esses jovens, da relação com a terra às ambições profissionais, das desigualdades de gênero à identidade digital. Ele também explica as dificuldades da sucessão no campo gaúcho e as suas transformações.
Confira a entrevista completa com o professor:
Como o senhor caracteriza o perfil dos jovens da Geração Z que vivem ou trabalham na zona rural do Rio Grande do Sul?
Antes de tudo, é importante destacar que “Geração Z”, entendida como pessoas nascidas entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010, é apenas um dos recortes possíveis para pensar juventudes. Quando falamos de jovens rurais, faz mais sentido trabalhar com a ideia de situação juvenil, que considera variáveis como gênero, classe, cor, localização e outros demarcadores. Nenhum jovem vive a juventude da mesma forma, e isso vale também para o meio rural. Muitos jovens contemporâneos que vivem ou trabalham no campo gaúcho são filhos de agricultores familiares, inseridos em unidades produtivas pequenas ou médias. Há um peso importante da escolaridade, já que o maior nível de educação (especialmente formação técnica ou agrária) tende a favorecer a permanência e a sucessão familiar. Também são jovens que valorizam autonomia: desejam participar das decisões da propriedade, gerir processos, empreender e inovar. O recorte de gênero é central. As jovens mulheres do meio rural no RS ainda enfrentam menos autonomia, menor participação nas decisões e menos incentivo para permanecer como sucessoras.
Quais valores, expectativas e formas de sociabilidade diferenciam essa geração de gerações anteriores no campo?
Os jovens rurais contemporâneos combinam, de maneira muito própria, vínculo com a terra e desejo de desenvolvimento pessoal. Eles valorizam a permanência no campo, mas não por obrigação: muitos querem transformar a propriedade, modernizar processos, incorporar tecnologia, agregar valor e profissionalizar a gestão. A sucessão, portanto, vai além de “herdar o campo”: passa a ser entendida como possibilidade de renovação. As formas de sociabilidade também mudaram. Esses jovens mantêm laços comunitários e familiares fortes, característicos do rural, mas articulam isso com redes mais amplas regionais, nacionais e digitais. Têm acesso a tecnologias, educação e circulação de informações que não estavam disponíveis para gerações anteriores, o que amplia horizontes e expectativas. A permanência no campo é pensada de maneira condicional: depende de infraestrutura adequada (estradas, internet), políticas públicas, crédito, apoio extensionista e oportunidades de formação. Há também maior valorização da autonomia: eles querem participar das decisões e não apenas “ajudar” na propriedade. Em relação às gerações anteriores, há menos fatalismo e mais percepção de possibilidades dentro do rural, seja por meio da agroindústria, de tecnologias, do turismo rural ou mesmo da participação política.
Quais as diferenças entre jovens rurais e urbanos dentro da Geração Z, especialmente no RS?
Os jovens urbanos, de forma geral, têm acesso mais amplo a serviços, educação, transporte, cultura digital e oportunidades de trabalho. Isso lhes permite projetar futuros mais diversos fora do lugar de origem. Já os jovens rurais lidam com limitações estruturais, especialmente infraestrutura, mobilidade, conectividade e oferta educacional, e com vínculos familiares mais fortes com a propriedade. Para muitos jovens rurais, o projeto de vida inclui a possibilidade de sucessão, que carrega um peso emocional, simbólico e identitário inexistente para a maior parte dos jovens urbanos. Porém, não se pode generalizar: há jovens rurais que desejam sair do campo e jovens urbanos que aspiram ao rural. As desigualdades de gênero também se manifestam com força: jovens homens rurais tendem a ter mais voz na gestão das propriedades, enquanto jovens mulheres enfrentam mais barreiras para serem reconhecidas como sucessoras. Ambas as juventudes (cidade e campo) compartilham a cultura digital, mas os usos
divergem. No urbano, tende a estar mais associada à mobilidade, consumo cultural ou redes de sociabilidade mais amplas. No rural, além dos motivos já colocados, a tecnologia também é frequentemente usada como ferramenta de trabalho, comercialização, visibilidade e inovação.
Como esses jovens conciliam identidade rural e identidade global/digital?
A identidade rural e a identidade global/digital não são vividas como opostas, pelo contrário: muitos entendem a tecnologia como aliada para fortalecer seus projetos no campo. O acesso à internet, às redes sociais e à educação formal permite desenvolver conhecimentos técnicos, gerenciais e de marketing aplicáveis à agricultura familiar, ao empreendedorismo rural ou à agroindústria. Assim, esses jovens constroem uma identidade híbrida: mantêm o orgulho das raízes rurais e, ao mesmo tempo, incorporam práticas modernas, conectadas e inovadoras. A conectividade também funciona como forma de resistência simbólica: dá visibilidade às comunidades rurais, amplia redes e cria oportunidades, como o turismo rural a venda direta de produtos. A pedagogia da alternância é um bom exemplo dessa conciliação: ao circular entre escola e propriedade, entre cidade e campo, o jovem vive concretamente essa articulação entre rural, técnico e global.
Quais são hoje os principais obstáculos para a permanência dos jovens no meio rural?
Em 2023, participei como pesquisador convidado da Conferência Estadual de Juventude (em Porto Alegre) e da Conferência Nacional de Juventude (em Brasília), ambas com grupos de trabalho sobre direito ao território. As demandas dos jovens rurais foram muito claras: asfalto nas estradas e desburocratização dos processos de acesso às políticas públicas de sucessão. A falta de infraestrutura adequada aparece, de forma recorrente, como um grande entrave. A burocracia também pesa: muitos jovens encontram enorme dificuldade para acessar crédito, programas de sucessão, assistência técnica ou políticas específicas. Outro obstáculo é a participação limitada nas decisões da propriedade. Quando o jovem não tem voz, diminui seu interesse em assumir a continuidade. As desigualdades de gênero agravam o cenário, já que jovens mulheres têm mais barreiras para permanecer no rural e para serem reconhecidas como sucessoras. Há também um desafio simbólico: para que os jovens permaneçam, o campo precisa ser percebido como espaço de presente e futuro ao mesmo tempo: um lugar onde é possível inovar, empreender, viver com dignidade e ter acesso aos mesmos direitos que no meio urbano.
A sucessão familiar rural no RS está ameaçada, se transformando ou se reinventando?
As três coisas acontecem simultaneamente. Há sinais claros de ameaça: pesquisas da Embrapa e de outras instituições indicam que muitas unidades familiares no RS correm risco de não ter sucessores. No entanto, é igualmente visível um movimento de transformação e reinvenção. A sucessão deixou de ser compreendida apenas como “assumir a fazenda do pai” e passou a ser vista como projeto que envolve modernização, gestão profissional, sustentabilidade e inovação. Centros de formação técnica, escolas agrícolas e pedagogias de alternância têm desempenhado papel importante ao qualificar os jovens e ampliar as possibilidades de reinvenção das propriedades. Também têm emergido pautas juvenis sobre internet no campo, espaços de lazer, extensionismo voltado à juventude e políticas de crédito específicas. Tudo isso sugere uma sucessão em processo de mudança, mais plural e conectada. No entanto, as desigualdades permanecem, como as de gênero, renda, tamanho da propriedade, acesso à infraestrutura e à educação. Isso significa que algumas propriedades têm mais condições de se reinventar do que outras. A sucessão, portanto, está ao mesmo tempo ameaçada e sendo reconstruída, de forma desigual, no Rio Grande do Sul.
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