Com o primeiro caso de gripe aviária em granja comercial confirmado no Brasil — em Montenegro (RS), em 16 de maio de 2025 —, a discussão sobre vacinação de aves contra o vírus voltou ao centro do debate sanitário e econômico. A Embrapa Suínos e Aves, referência nacional em biossegurança avícola, afirma que a vacinação, embora praticada em outros países, ainda não é autorizada no Brasil, uma vez que não havia registros anteriores da doença em plantéis comerciais.
A gripe aviária é causada por vírus do tipo A da influenza, com alta capacidade de mutação e recombinação genética. Por conterem um genoma de RNA, esses vírus não corrigem erros durante a replicação, o que gera variações constantes e a necessidade de atualização contínua das cepas vacinais. Segundo a Embrapa, essa característica dificulta a eficácia plena das vacinas disponíveis no mercado e aumenta o custo de aplicação em larga escala.
Vacinas existem, mas não são 100% eficazes
Países como México e Itália utilizaram vacinas para conter surtos causados por vírus H5 e H7 altamente patogênicos. Na Ásia, vacinas contra o subtipo H5N1 vêm sendo aplicadas há anos como tentativa de controle. Ainda assim, a Embrapa ressalta que os resultados são limitados: a vacinação não conseguiu eliminar os focos da doença e surtos continuam a ser relatados, inclusive na China, que mantém a imunização ativa.
É importante destacar que, embora o Instituto Butantan esteja desenvolvendo uma vacina contra gripe aviária voltada para humanos, a vacinação de aves segue proibida no Brasil. As estratégias para controle do vírus em animais continuam focadas na prevenção, vigilância e erradicação de focos, sem imunização preventiva dos plantéis.
Além da eficácia variável, há um fator de preocupação econômica: países que vacinam suas aves contra a gripe aviária enfrentam barreiras comerciais. Isso porque produtos avícolas oriundos de aves vacinadas podem ser rejeitados por mercados internacionais, uma vez que a vacinação dificulta a distinção entre animais infectados e imunizados em testes laboratoriais.
- Gripe aviária: o que você precisa saber sobre a doença e como se proteger
- Gripe aviária no RS: quais os riscos para a saúde?
- Gripe aviária no RS: visitação ao Zoológico de Sapucaia do Sul é suspensa por tempo indeterminado
- Gripe aviária no RS: estoque de ovos pode aumentar e preços podem cair
Por que o Brasil não vacina?
A decisão de não adotar a vacinação é estratégica. O Brasil, maior exportador mundial de carne de frango, adota uma política sanitária rígida baseada na prevenção e erradicação imediata de focos, justamente para preservar o status de país livre da doença em criações comerciais. A vacinação só seria considerada caso a gripe aviária se tornasse endêmica em território nacional, como aconteceu em alguns países asiáticos.
A Embrapa explica que a introdução da vacinação exigiria a criação de um sistema paralelo de controle, monitoramento e rastreabilidade — com alto custo e risco de afetar a imagem sanitária do país perante os importadores.
Vacinação é parte do controle, não a solução
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH) citados pela Embrapa, entre 2005 e 2021, mais de 316 milhões de aves foram mortas ou abatidas no mundo por conta da gripe aviária. O impacto é global e contínuo. No entanto, a vacinação tem sido adotada apenas em contextos específicos, onde o vírus se tornou recorrente ou endêmico, como na Ásia.
Além disso, a gripe aviária é uma zoonose com potencial pandêmico, principalmente os subtipos H5N1 e H7N9. Isso faz com que o controle rígido da doença nas aves seja também uma estratégia de saúde pública, não apenas de defesa agropecuária.
⚠️ Brasil segue apostando na biossegurança e erradicação
Diante do cenário atual, o Brasil mantém a proibição da vacinação de aves comerciais e reforça as medidas de vigilância e contenção, conforme determina o Plano de Contingência do Ministério da Agricultura (Mapa). O país aposta na rápida identificação e eliminação de focos, evitando a circulação do vírus e protegendo sua cadeia produtiva.
A Embrapa alerta que permitir a circulação de vírus H5 ou H7 — mesmo que de baixa patogenicidade — pode levar à mutação e surgimento de variantes mais letais, colocando em risco não apenas a avicultura, mas também a saúde humana.
