Apesar das conquistas das últimas décadas, a distribuição da liderança no setor privado reflete desigualdades de gênero. No segmento cooperativista, as mulheres representam 42% dos mais de 25,8 milhões de cooperados no país, mas apenas 22% dos cargos de gestão, segundo o AnuárioCoop 2025 do Sistema de Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). Para a advogada Michele de Fátima Guimarães Fernandes, desde o mês passado integrante do Conselho Administrativo da Organização das Cooperativas do Estado do Rio Grande do Sul (Ocergs) para o período 2026-2030, é preciso avançar mais para reduzir esse abismo, especialmente quando se considera a representatividade racial.
Presidente da Federação das Cooperativas de Trabalho do Rio Grande do Sul (Fetrabalho-RS) e vice-presidente da Cootravipa, Michele, 46 anos, é a primeira mulher negra na direção da Ocergs. Pós-graduada em gestão de cooperativas, ela chegou ao posto após uma trajetória de sucesso de 10 anos no ramo do trabalho, no qual, além de passar pela área jurídica, atuou em recursos humanos, desenvolvimento de equipes e inclusão social. “É um novo desafio, porque sou minoria em gênero, em etnia e idade. Mas é um desafio bacana. Me vejo nesse lugar de aprendizado para depois trazer um resultado”, afirma.
Filha de uma mulher branca que sofreu violência doméstica e conseguiu a independência financeira, Michele diz que a mãe é sua grande referência no mundo dos negócios. Foi ela que a incentivou a buscar um curso superior e qualificação constante para abraçar futuras oportunidades de crescimento. “Ela não tinha muito estudo. Era auxiliar de serviços gerais e foi galgando postos, isso me inspira”, conta.
Nesta entrevista, Michele revela como sua presença no comando da Ocergs pode contribuir para um maior protagonismo feminino no setor. Confira:
O cooperativismo, por ser um modelo de organização baseado em gestão participativa, é mais aberto à inclusão, comparado às empresas privadas?
Quando a gente pensa na liderança da mulher, acredito que sim. Porque, para tu entrares em qualquer cooperativa, não importa gênero. Para ingressares nela, o que a gente chama de livre adesão, eles não classificam o teu gênero, não classificam a tua etnia. Então, sim, abre mais espaço. A nossa cooperativa (Cootravipa), por exemplo, se tu queres trabalhar, para nós não importa se tu és do sistema prisional. O que importa é que tu queres o trabalho. O que eu acho que a gente tem que trabalhar muito ainda é essa questão das mulheres na liderança.
A participação das mulheres nas cooperativas é muito expressiva. Mas na liderança ainda é muito pequena. Onde estão as principais barreiras?
Como se compôs (a direção com) muito homens nesses conselhos, acabaram perpetuando (a predominância masculina). Eu acho que se tornou muito estrutural isso, a cultura fez isso. E quebrar essa barreira é o desafio. A Ocergs, por exemplo, tem projetos muito bacanas, e um deles é um comitê de mulheres. E aí elas trabalham muito a questão do desenvolvimento da mulher e a conscientização de que essas mulheres têm de ocupar esses espaços. O Darci (Hartmann, presidente do Sistema Ocergs) é muito engajado nisso. Mas eu ainda vejo uma barreira nas demais cooperativas quando se fala em inclusão, de liderança feminina.
Em quais setores do cooperativismo essas barreiras são mais fortes?
A impressão que eu tenho, pelo comitê e pelas reuniões a que eu já fui em outros lugares, acho que o agro é muito engessado na questão de liderança feminina. Eu participei de um evento em São Paulo (de mulheres do agro) e tudo que se falava ali parecia, para mim, muito óbvio. Mas eu comecei a ouvir as mulheres atrás falando (nas palestras e debates): “Eu trabalho, mas é para a família; eu trabalho no campo, mas a questão financeira está com outras pessoas”.
E o que você considera “muito óbvio” nesses debates?
A questão da nossa autonomia financeira, de a gente estar capacitada, mas não era só isso. Era (o entendimento de) que a gente tinha de tomar partido e estar à frente dos negócios, estar à frente de algumas lideranças, se falava muito nisso. Coisas que nos outros setores já estavam mais consolidadas e eu achei que ali tinha de ser reforçado, porque elas não se viam nesses lugares. Elas se viam num campo, trabalhando, executando, mas eu não vi elas se percebendo nesses lugares de liderança. Outro ramo que é muito masculino é o transporte. Quando as mulheres eram de cooperativas de transporte, a sensação que eu tinha é que nem ouvidas elas eram. Então, quando eu vou num lugar, numa reunião dessas e tomo a frente, elas ficam encantadas.
O que o setor, representado pela Ocergs, pode fazer para que as mulheres tenham mais protagonismo?
Acho que é trabalhar essa “socialização”, assim como continuar com o que eles estão fazendo. Conscientizar, trabalhar a sucessão — e como hipótese de ser uma sucessão feminina. Trabalhar a questão de que essa estratégia de inclusão é uma estratégia de negócio, nem é uma questão de ESG (práticas ambientais, sociais e de governança de uma organização). A mulher traz resultado. As mulheres em liderança trazem mais resultados e mais inovação. Então, a gente conscientizar sobre o quanto isso é rentável para o negócio. A gente não está falando só de mulher, está falando de mulheres negras, de jovens também. Essa diversidade traz rentabilidade. Então, a gente (precisa) também divulgar e trabalhar mais estrategicamente isso.
Quando falamos no agro, é predominante a presença masculina e é muito difícil encontrar mulheres negras. O que a tua liderança pode fazer para mudar esse quadro?
Eu acho que também trabalhar essa conscientização. O agro é mais difícil porque não é um espaço que os negros ocupam, independentemente de se ter propriedade (rural) ou não. Eles também não se veem nesse lugar. Se as cooperativas desenvolvessem programas de inclusão, seria uma chance de sucesso maior. (Na Cootravipa), participei de um projeto, que é o “Escuta e Acolhe”. A gente tinha umas 20 mulheres que sofriam violência doméstica. A gente queria despertar a independência financeira delas, trouxe psicóloga, trouxe uma série de profissionais, e o que eu percebi é que elas não se viam nesse lugar. Elas eram auxiliares de serviços gerais. Duas tinham faculdade, subsidiada pela cooperativa. Dois anos depois, viraram líderes de equipe. Então, nesse programa, a gente saiu com quatro mulheres supervisoras que conseguiram entender que poderiam crescer.
Hoje estamos muito atentos às questões de violência contra a mulher, misoginia e racismo. Alguma experiência dolorosa do tipo te marcou ao longo da tua carreira?
Em reuniões (...), tu tens um homem que fala a mesma coisa que tu, e aí todo mundo ouve e é a “melhor ideia do mundo”. É algo que me incomodava demais, assim como as falas machistas. Eles têm falas machistas como se nós, mulheres, não estivéssemos na sala. Já ocorreram brincadeiras de cunho racista, como se eu não fosse negra. Geralmente, eu corrijo, digo: “Não é adequada a tua fala”. É a falta de conscientização. E é algo com que eu tenho esse compromisso na federação. Meu filho sofreu racismo muito forte na escola. Então hoje eu percebo que algumas pessoas são muito reativas porque bateu demais nelas.
Você acha que a sua liderança pode inspirar outras mulheres e negras a também ocupar mais espaço?
Com certeza. Acho que é realmente quebrar um paradigma. As mulheres, quando te veem lá, veem que esses espaços também são delas. Acho que os conselheiros que estão lá também vão ter um olhar diferente, um olhar de que faz a diferença uma mulher junto com eles. A Ocergs está dando um grande avanço e espero que eu não seja a única. E que também tenham mais espaço para as mulheres negras e para homens negros. Pretendo levar projetos para o serviço nesse sentido. É uma questão de negócio, de estratégia, de trazer resultado financeiro para as nossas cooperativas.