A casca de arroz deixou de ser um resíduo descartado no meio ambiente para se tornar fonte de energia na indústria de beneficiamento do grão no Rio Grande do Sul. Atualmente, o Estado concentra oito das 11 usinas brasileiras movidas pelo insumo, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Alguns desses empreendimentos atendem toda a demanda energética da própria indústria de beneficiamento do arroz e geram excedentes para venda ao mercado. Os que não chegam a esse ponto economizam recursos suprindo parte da demanda interna e, com isso, reduzem a compra das distribuidoras. As duas principais vantagens são a destinação sustentável à casca e a redução dos custos com energia.
O investimento é considerado alto, mas retornável, e o processo é relativamente simples. “A casca de arroz é queimada numa caldeira para aquecer água até virar vapor; esse vapor é direcionado a uma turbina que movimenta um gerador, que produz energia elétrica”, resume Paulo Roberto Franzner, gerente industrial da Urbano Alimentos, de São Gabriel, a primeira a investir na tecnologia na América Latina, em 1994. “Queríamos reduzir custos operacionais e melhorar a qualidade da nossa energia”, resume Franzner.
Hoje, a usina mantém a potência outorgada inicial de 2,2 Megawatts (MW) e consome 1,4 tonelada de casca, produzida pela própria indústria, para cada Megawatt-hora (MWh) gerado. No ano passado, a produção anual foi de 12,6 mil toneladas de casca, convertidas em 9 mil MWh, totalmente direcionados ao abastecimento energético da planta industrial. O projeto deu tão certo que, atualmente, a Urbano tem mais duas usinas, uma em Jaraguá do Sul, em Santa Catarina, e outra em Sinop, no Mato Grosso.
A segunda empresa do Estado a apostar no uso da casca de arroz para gerar energia foi a Camil Alimentos, de Itaqui. Sua primeira usina tem potência instalada de 5,2 MW. Como o resultado foi positivo, a empresa partiu para a segunda, em Capão do Leão, com potência de 5,6 MW. Hoje, considerando as duas, gera 0,53 MWh por tonelada de casca e admite que há estudos para novos empreendimentos.
Em 2008, a usina do Grupo Pilecco Nobre Alimentos, de Alegrete, foi inaugurada. Desde então, colhe os resultados. Além de tornar a indústria autossuficiente, acumula um excedente mensal de 2,5 MWh médios, vendidos no mercado livre. A potência instalada é de 5 MW, que propicia a geração de 1 MWh de energia elétrica a cada 1,5 tonelada de casca. Esta é resultante dos processos de beneficiamento de arroz da própria empresa e completada por fornecedores da região.
Em 2009 foi a vez da Cooperativa Agroindustrial de Alegrete (Caal) aderir ao modelo de negócio. A potência outorgada é de 3,8 MW, com geração de 1 MWh de energia a cada 1,5 tonelada de casca.
Em 2011, o Engenho Coradini, de Dom Pedrito, também apostou em sua usina, que converte 1,75 tonelada de casca em 1 MWh de energia. A potência outorgada é de 1,2 MW.
A usina movida a casca de arroz mais recente do Estado é a São Sepé, que iniciou suas atividades em 2018, no município de mesmo nome. O empreendimento é cooperativo. As indústrias arrozeiras da região doam o resíduo. A energia é vendida ao mercado. Para tanto, a usina se habilitou, em leilão, a fornecer energia para 28 distribuidoras de todo o país por 20 anos, em 2015.
Com potência instalada de 8 MW, a São Sepé tem capacidade para gerar 56 mil MWh por ano, o suficiente para abastecer uma cidade com 100 mil habitantes, a partir da queima de 73 mil toneladas de casca de arroz, segundo João Alderi do Prado, presidente de uma das cooperativas associadas ao projeto, a Creral. A energia gerada é entregue, por meio da subestação Formigueiro, ao Sistema Interligado Nacional. Já as cinzas são destinadas gratuitamente a uma empresa que fabrica cal mista.
“Ampliamos a oferta regional de energia de qualidade, vinda de fonte alternativa, limpa e sustentável, ao mesmo tempo que resolvemos a destinação de resíduos de indústrias”, orgulha-se Prado. Além da Creral, Ceriluz, Erechim Energia, BR Energia, Minozzo Participações e Energia 203 também participam da sociedade.
Os investimentos feitos em cada usina termoelétrica do Estado ficaram entre R$ 5 milhões e R$ 7,5 milhões por MW, em valores aproximados e corrigidos para os dias atuais.
Indústrias movidas a resíduos
Algumas das principais empresas e cooperativas da área de alimentos do Estado apostaram na geração a partir da queima da casca do arroz e conseguiram reduzir o consumo e até vender excedentes de energia elétrica
