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Movimento atípico derruba a exportação de soja no Rio Grande do Sul

Relatório da Farsul revelou uma queda vertiginosa em fevereiro

Por
Cíntia Marchi

Exportação da soja foi prejudicada pelas condições de vendas de 2018

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Relatório da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul), divulgado na última semana, revelou uma queda vertiginosa na exportação de soja no Estado, em fevereiro. Apesar de os gaúchos aguardarem uma boa colheita na safra de 2018/2019, estimada em 18,6 milhões de toneladas pela Conab, há estagnação da comercialização do grão, um cenário diferente do registrado no restante do país.

Alguns fatores que ajudam a explicar esta “calmaria” são os baixos estoques de passagem, a colheita recém iniciada no Estado, a inexpressiva negociação no mercado futuro e cotações não atrativas neste início de ano.Segundo a Farsul, o volume de soja em grão embarcado caiu 99,1% se comparados os meses de fevereiro de 2018 e 2019, de 518,7 mil toneladas para 4,3 mil toneladas.

O fato novo do início deste ano, além das vendas que desandaram, fica por conta do baixo estoque de passagem. Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), o estoque final da soja em grão no país foi contabilizado em 2,8 milhões de toneladas, ao final de 2018, o menor nível dos últimos 13 anos. Em 2017, o estoque final tinha sido de 10,3 milhões de toneladas.

Ao contrário de outros anos, quando a quebra de safra era responsável pelo recuo dos estoques, desta vez a redução foi provocada por vendas muito expressivas em 2018. Foram embarcadas 83 milhões de toneladas. O recorde teve relação direta com o alto apetite dos chineses pela soja brasileira no ano passado, em função da briga comercial com os Estados Unidos.

Em consequência, os preços da commodity se elevaram. “No ano passado, o produtor vendeu mais do que colheu. Embarcou toda a safra e ainda se desfez de parte do estoque que costumava guardar”, constata o gerente comercial de grãos da Cotripal Agropecuária Cooperativa, de Panambi, Jefferson Dias de Almeida. O gerente comercial de grãos da Cotrijal, de Não-Me-Toque, Luís Claudio Gomes, revela que o volume de soja armazenado na cooperativa no início de 2019 foi 30% menor que no início de 2018. 

Além de ter estoques em níveis baixos, os sojicultores gaúchos ainda não colheram grande parte das lavouras deste ciclo. Segundo a Emater, apenas 18% da área de soja já havia sido colhida até quinta-feira. O presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja/RS), Luis Fernando Fucks, diz que o momento da colheita tem que ser considerado para explicar a lentidão da comercialização. Por isso, acredita que a chegada do grão nos terminais portuários vai se intensificar em poucos dias.

O diretor superintendente dos portos do Rio Grande do Sul, Fernando Estima, prevê que os números devem se aquecer em abril. Em consulta aos terminais portuários, ele disse que os estoques de passagem estão mesmo pequenos. Também entende que o grande volume de embarques de 2018 reduziu as operações de agora. 

Embora tenha havido uma destinação muito pequena da soja gaúcha aos compradores neste ano, Fucks estima que cerca de 50% da safra já esteja comprometida, seja com negócios futuros, seja com operações de troca ou com grão que precisa ser vendido para o produtor honrar compromissos neste início de safra. Calcula, ainda, que o produtor vai segurar os outros 50% até que apareçam boas oportunidades de venda ao longo do ano e preços remuneradores para cobrir os altos custos da lavoura. 

País

 Enquanto a movimentação de soja no Rio Grande do Sul foi irrisória em fevereiro, o restante do país andou em alta velocidade. Segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), a quantidade de soja em grão exportada naquele mês foi de 6,1 milhões de toneladas, 112% mais do que no mesmo período de 2018.

Durante a Expodireto Cotrijal, de 11 a 15 de março, em Não-Me-Toque, o sócio-diretor da Agroconsult, André Pessôa, informou que, enquanto os gaúchos tinham comercializado antecipadamente apenas 15% da safra, os demais estados, que colhem antes, já tinham vendido 50%.

A vizinha Santa Catarina embarcou no mês passado 138,9 mil toneladas do complexo soja (grão, farelo e óleo), 152% a mais do que no mesmo período do ano anterior. No entanto, a cooperativa Copercampos, de Campos Novos (SC), diz que a exportação expressiva do Estado está associada à movimentação de empresas que adquirem soja do Paraná e Mato Grosso do Sul e utilizam os portos catarinenses para exportar. “A Copercampos, por exemplo, não movimentou nada além do normal em fevereiro, até porque a safra está sendo colhida agora”, observa o diretor executivo, Clebi Renato Dias, ao apontar que não houve valorização da soja a ponto de atrair o produtor para a venda do que ele tem estocado na cooperativa. 

Preço

Mesmo com a comercialização lenta e o fato de não se descartar possível entendimento entre americanos e chineses, que poderá resultar em menor procura pelo grão brasileiro, o presidente da Aprosoja/RS, Luis Fernando Fucks, diz que não vê muito espaço para o preço da soja se desvalorizar. O dirigente acredita que, mesmo que os Estados Unidos e a China fechem um acordo, a produção mundial está estabilizada e os estoques estão ajustados. “Por mais que os chineses voltem às compras nos Estados Unidos, eles não vão conseguir se abastecer apenas com a soja que tem lá. Eles virão buscar soja aqui”, comenta Fucks.