Quais são primeiras as primeiras propostas a serem implementadas no início da gestão Domingos Velho Lopes?
Primeiro, vamos manter essa linha de atuação baseada na formação e na informação técnico-científica abalizada que tem sido a característica da gestão do presidente Gedeão (Pereira). Ou seja, a diversidade de diretores e técnicos da Federação da Agricultura, dando informações técnico-científicas para o bom diálogo com a sociedade gaúcha e brasileira, em especial com o Legislativo, com os órgãos de controle e com o Executivo. Essa é uma manutenção que faremos na gestão que continua, através das informações científicas. A outra atividade muito forte que marcará a nova gestão dessa diretoria que assume em janeiro será a aproximação junto à população urbana. Retorno do orgulho do setor urbano referindo-se ao setor rural. Porque nisso houve um afastamento, até por uma negligência nossa, do setor produtivo, do meio rural ao meio urbano. Então, nós queremos a retomada desse contato mais próximo para que o meio urbano tenha a realidade do que é essa farta produção de alimentos, a responsabilidade com meio ambiente, em que o Brasil é a maior potência ambiental mundial. E esse novo compromisso que o Brasil vai atender, que é a geração de biocombustíveis para a navegação, para a aviação e também para o transporte terrestre. Então, o contato mais próximo será uma característica muito forte dessa gestão junto à opinião pública urbana e, em especial, aos jovens e às crianças, para mostrar o que o agro faz na verdade, qual é a relação dele, como setor produtivo, com o meio ambiente, com o trabalho, com a responsabilidade na formação ambiental, formação na geração de alimentos e geração de energia. Esta vai ser uma outra característica muito forte.
E como isso vai se dar? Alguma campanha? O que está previsto?
Uma melhora de comunicação. Nós faremos campanhas. Primeiro, a presença maciça de diversos diretores e técnicos da Casa em todo e qualquer evento que for de importância e relevância junto à opinião pública urbana e que se refira ao setor produtivo rural, a presença marcante nos eventos urbanos. A Farsul estará presente para mostrar essa realidade. Uma aproximação muito maior à imprensa para que essa divulgue, de fato, a verdade sobre o setor produtivo, a responsabilidade do produtor e, principalmente, o compromisso às normas do Código Florestal mais rígido que existem no mundo e as regras hídricas mais rígidas que existem no mundo. E mostrar essa responsabilidade e esse compromisso do setor produtivo. Então, comunicação e participação será a forma como nós estaremos presentes para a aproximação ao meio urbano.
E na questão de agricultura, em termos práticos, o que a gestão vai fazer para implementar junto aos produtores para que eles se tornem mais resilientes no enfrentamento dos problemas climáticos, problemas que vieram mesmo para ficar?
Não há dúvida que nós vivemos um momento de mudanças climáticas. E o Rio Grande do Sul, é característica, está dentro desse corredor de alteração. O que nós precisamos fazer para o produtor ser mais resiliente? Primeiro, a questão de irrigação, fomentar a irrigação, a reservação de água para que, no nível da superfície, nós tenhamos a possibilidade do enfrentamento às estiagens. E o segundo, o compromisso com a saúde do solo. Nós temos que trabalhar cada vez mais fortemente a questão de perfil de solo, cobertura vegetal permanente durante todo ano, sistema radicular mais aprofundado, a biologia do solo, ou seja, toda as características físico-química e biológicas do solo para que esse tenha o maior poder de infiltração, menor escorrimento. E fazer com que, desta forma, para os dois extremos, ou seja, estiagens frequentes como enchentes que estão acontecendo, tenhamos uma maior capacidade de infiltração (da água), menor escorrimento. Ou de reserva de água para sustentação, não só das plantas, mas também para evitar as grandes enxurradas que atingem os rios e o transbordamento desses e, consequentemente, as cidades mais ribeirinhas.
Nessa questão da irrigação existe um problema sempre presente que é o custo para a implantação do sistema. O que se pode fazer quanto a isso?
É, de fato, pegaste muito bem esse gancho, porque até 2023, 2024, tínhamos dificuldades quanto ao cumprimento do arcabouço da legislação. Ou seja, havia regras que não eram alinhadas com o setor, com a legislação federal, ou dificuldades por falta de entendimento entre o setor produtivo, os órgãos de controle, algumas alterações legislativas que tinham que ser feitas. Agora que nós conseguimos uma maturidade muito grande da sociedade gaúcha, no momento que se uniu Executivo, legislativos, entidades e órgãos de controle – aí leia-se o Ministério Público do Estado –, que conseguimos resolver muitos dos entraves legais, enfrentamos essas dificuldades pelas secas recorrentes e que descapitalizaram muito o setor produtivo. Desde a agricultura familiar, a agricultura média e chegando à agricultura empresarial. Então, precisamos montar linhas de crédito, fomentar a união de produtores, isso tanto em nível de Estado, quanto em nível federal. Então, essa é uma dificuldade que teremos que ter muita criatividade para buscar soluções sob ponto de vista de geração de energia, ou seja, a possibilidade de acesso à energia por parte do produtor, e também que as obras para reservação de água ou equipamentos para irrigação se tornem mais acessíveis para a solução. Mas o que precisamos mostrar é que qualquer real colocado em irrigação ou em equipamentos ou estruturas, ele reverte para a sociedade em vários reais em termos de tributo e dinheiro circulando nas demais sequências das cadeias produtivas, seja o serviço, comércio ou indústria. É essa a capacidade e a criatividade que teremos que ter.
Na coletiva de final de ano da Farsul, o senhor mencionou a importância dos produtores gaúchos se tornarem poliprodutores. O que seria exatamente isso e como se implementaria?
Nós temos que analisar uma propriedade hoje como um sistema produtivo. Ou seja, temos que, durante os 365 dias do ano, estar nesta mesma área produzindo o ano todo, seja com atividade pecuária ou agricultura. Então, por isso que temos que ser poliprodutores. Temos que pensar em adubação, realizada em uma época do ano, que ela sirva para as culturas de inverno e de verão. Quando realizarmos as pastagens para a pecuária, essas pastagens já terem um efeito residual para o verão. Ou seja, você tem que ter uma análise de sistema do hectare produzido. Isso vai fazer com que, primeiro, dilua o risco, porque você vai ter mais de um produto distribuído no ano. E as vantagens da policultura, porque tu tem áreas de atuação radicular. Os defensivos, fertilizantes e interações entre pecuária e agricultura que vão trazer benefícios agronômicos veterinários de muita relevância para a produção. Por isso, que um produtor tem que ser hoje poliprodutor, pensando como sistema, ou seja, a produção nos 365 dias do ano, diluindo custos, diminuindo riscos e aumentando a possibilidade de um maior faturamento em relação à sua propriedade.
E diante de todos esses movimentos no Estado para a produção de etanol de trigo e biodiesel de canola, pode-se afirmar que o Rio Grande do Sul se tornará uma potência em biocombustíveis?
Não há dúvida que o Brasil será a maior potência na geração de biocombustíveis do mundo, seja através do biodiesel, de oleaginosas, ou de etanol, proveniente das fibras ou de cereais. No caso, o Rio Grande do Sul está seguindo os passos do que o Brasil já realiza no Brasil-Central e na região Sudeste, se tornando um polo exportador. Nós trataremos de um polo exportador de biocombustíveis. E o mundo demandará esse aumento percentual de biocombustíveis no bunker (fuel), que é o óleo diesel de navegação, ou no SAF de aviação, ou no próprio biodiesel para a locomoção terrestre, que será suprido pelo Brasil. E o Rio Grande do Sul, não resta nossa dúvida, terá um grande protagonismo. E isso, é importante nós sabermos, a grande vantagem nossa em relação às fibras, porque no caso da cana-de-açúcar, que é o principal fornecedor de etanol, você não pode armazenar a cana, ou seja, quando faz o corte, já tem que processar de forma imediata. Por isso, precisa aquelas grandessíssimas destilarias. Ao contrário com os grãos, sejam eles de oleaginosas ou de cereais, que pode fazer uma estrutura menor, porque pode armazenar o grão e ter uma geração de biocombustível no decorrer do ano. Então, facilita cooperativas se unirem, investidores privados a realizar investimentos e tornar viável as destilarias ao redor do Rio Grande do Sul, ao redor de todo o país, porque você tem um investimento, embora grande, não gigantesco quanto são (os investimentos) para a geração de etanol à base de cana.
Os movimentos no Rio Grande do Sul já estão levando para esse futuro, como os investimentos de indústrias? Enfim, o Estado já está indo nessa direção, presidente?
Não há dúvida. Uma visão muito particular minha, eu acredito que entre 10 e 15 anos, estaremos com uma produção de biocombustíveis gigantesca no estado do Rio Grande do Sul, concorrendo fortemente com a produção de alimentos. E isso será um dos norteadores e um dos alicerces para o grande aumento que o mundo prevê na geração de proteína, na geração de cereais e oleaginosas no Brasil. Nós passaríamos dos atuais 355 milhões de toneladas (produção brasileira de grãos) para mais de 600 milhões, e seremos muito beneficiados pelo aumento de mercado. E o mercado que envolve energia ele é crescente e é bom pagador, porque a energia move o mundo. Então, teremos uma grande oportunidade se avizinhando para a produção rural. Será, sem sombra de dúvida, uma mescla na geração de alimentos e na geração de energia, as quais o Rio Grande do Sul e o Brasil terão grandes oportunidades.
O senhor sempre defende que o Rio Grande do Sul é um exemplo para o mundo em agricultura sustentável. Por quê?
É só observar aonde você tem a diversidade de 35 cadeias produtivas como nós temos. Isso só o Rio Grande do Sul possui no mundo. Todas elas produtivas, rentáveis e, principalmente, com sustentabilidade sob o ponto de vista ambiental. Então, esta é uma grande verdade sobre o que o mundo reconhece, a Semana do Clima em Nova Iorque reconhece, a ONU reconhece através da FAO nas COPs. Onde nós somos diversos, sustentáveis e, mais do que isso, temos produção como política de sistema, a qual tem a possibilidade de realizar uma safra e meia, duas ou até duas safras e meia (por ano). Esse é um grande benefício que o Rio Grande do Sul tem, é um ativo comercial que deve ser explorado e, principalmente, muito bem avaliado na hora da comercialização por parte da realização dos produtores em suas propriedades. E aí, mais uma vez, indo na agricultura familiar, através da pecuária leiteira, no fumo, na fruticultura, permeando os médios (produtores) com cereais, grãos e proteína extensiva, e chegando à agricultura empresarial em áreas mais volumosas e também altamente produtivas e resilientes na sua diversificação.
E que mensagem o senhor daria em nome da Farsul para os produtores gaúchos que estão hoje nessa dificuldade bem latente de endividamento, sem capacidade para investimentos? Enfim, o que vai ser possível fazer em 2026 para se resolver isso?
Diminuir a alavancagem, buscar o seu custeio para pagar através do seu caixa que tenha. Se tiver que buscar dinheiro em instituições financeiras que seja para investimentos e que tenha muito rigor quanto à questão da gestão dos seus custos, porque mercado é uma coisa que dificilmente nós conseguimos regular o preço. Agora, custos dentro de uma propriedade é um item que, por boa gestão, conseguimos fazer. Então, diminuição de alavancagem, criatividade quanto à produção, diversidade de produção e se tiver que buscar recursos fora que sejam para investimentos e não para custeio. E muito trabalho, muito foco para resultados em momentos difíceis. Mas me parece que esse ano teremos uma safra normal. Já ultrapassamos dezembro com chuvas, já marca uma chuva agora, na virada do ano, outra ali, entre o dia 7 e o dia 13. Queira Deus que nós tenhamos àqueles que necessitam de precipitações e que não tenham as suas lavouras irrigadas, a sorte e a bênção de Deus com chuvas frequentes que garantam a possibilidade de uma boa produtividade nas lavouras de verão.
Gostaria de acrescentar ou deixar uma mensagem aos nossos leitores?
A mensagem principal é que tenhamos certeza de que o setor produtivo gaúcho e brasileiro é de reconhecimento internacional como sustentável ambientalmente. Que temos a maior preservação do território das áreas e de campos nativos, somos o maior exemplo de agricultura de baixo carbono, que nasceu no estado do Rio Grande do Sul e que o mundo reconhece, seremos a maior fonte de biocombustíveis mundial – e essa será uma grande oportunidade –, e que tenhamos a capacidade de construir pautas coletivas construtivas e não conflituosas. Essa é a mensagem que nós queremos para o estado do Rio Grande do Sul para o Brasil como sociedade, que tenhamos a habilidade de construir em cima das nossas intersecções, soluções e que as nossas diferenças como sociedade sejam para fazer críticas construtivas e jamais para competição entre setores ou entre ideologias. Para construção de uma sociedade mais igualitária, mais justa, fraterna e de oportunidades, calcada em cima da meritocracia, do Estado pequeno, do trabalho, da livre iniciativa e sempre alicerçados em cima da segurança jurídica do direito à propriedade.
Currículo do dirigente no agro
Domingos Velho Lopes, 57 anos, é engenheiro agrônomo formado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) e produtor rural desde 1992, com atividades em Mostardas e Palmares do Sul junto à família. Ele começou sua atividade institucional, em 1997, como presidente do Sindicato Rural de Mostardas. A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) entrou na vida do dirigente em 2003, quando integrou a diretoria da entidade. Desde então, é integrante da Comissão de Arroz da federação. Em 2027, assumiu a Comissão de Meio Ambiente da Farsul e foi conduzido à presidência do Conselho Superior da entidade.
A partir de 2018, desempenhou as funções de integrante titular dos Conselhos Estaduais de Meio Ambiente, de Recursos Hídricos e também de Saneamento do Rio Grande do Sul, além de ser titular da Comissão Nacional de Meio Ambiente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA). Em 2022, foi Secretário de Estado da Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do Rio Grande do Sul, e até a gestão passada era diretor vice-presidente Farsul.
Em 2005, recebeu a distinção de Produtor de Arroz do Ano do Prêmio Senar, e em 2009 foi o Homem do Arroz do Ano pela Federarroz. Em 2016, Lopes ainda foi homenageado com a Medalha Assis Brasil, durante a Expointer, por relevantes serviços prestados à agropecuária gaúcha.
Entre as participações em eventos, Lopes esteve em quatro edições da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, inclusive a mais recente, COP30, em Belém/PA.
Nesses eventos, defende que o agro tropical brasileiro é um importante aliado na preservação ambiental. Argumenta que métricas já apresentadas pelo Brasil à FAO e à ONU demonstram que a agricultura brasileira produz com 15% a 22% a menos de emissão.
“A FAO e a ONU preconizam a agricultura de baixo carbono brasileira, que nasceu no Rio Grande do Sul, como a agricultura que deve ser realizada para todo o mundo como mitigadora e de adaptação para a questão do aquecimento global”, lembra Lopes.