Em 2024, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) calculou que o consumo per capita de frango no mundo foi de 18,5 quilos. A proteína mais consumida no planeta mobiliza milhões de produtores numa cadeia que, além da carne, é representada pelos ovos e a genética. Desde o início dos anos 2020, essa produção de importância econômica inquestionável para inúmeros países, entre os quais o Brasil, vem sendo ameaçada pela Influenza Aviária.
Nações como os Estados Unidos tiveram imensa dificuldade em conter e eliminar a doença em seus plantéis comerciais, e ficando apenas no exemplo norte-americano, foi necessário naquele país o extermínio de quase 170 milhões de aves, o que resultou em prejuízos financeiros de mais de 1,4 bilhão de dólares, conforme levantamento da Associação Médica Veterinária Americana (AMVA).
Até abril de 2025, o Brasil conseguiu, por força de um sistema sanitário bem estruturado e reconhecido internacionalmente, se manter como zona livre de Influenza Aviária (mesmo que com registros espalhados pelos estados de casos entre aves silvestres e criações domésticas). A condição foi interrompida no dia 16 de maio, com a confirmação por parte da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (SEAPI) de um foco da enfermidade em uma granja comercial de reprodução, localizada no município de Montenegro, no Vale do Caí. Foi neste mesmo dia, que a grande diferença entre o controle da doença nos Estados Unidos e no Rio Grande do Sul, se mostrou: um grupo de veterinários concursados e, minuciosamente treinados, entrou em campo com rapidez e com um plano em mente para reverter a situação.
A diretora do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal (DDA) da Seapi, Rosane Collares, lembra que quando a equipe do Serviço Oficial Veterinário do Rio Grande do Sul foi convocado a atuar no foco de Montenegro já havia sido treinada nos eventos de gripe aviária na Região do Taim (em animais silvestres e leões marinhos, em 2023) e na ocorrência de um caso de Newcastle, no município de Anta Gorda, em julho de 2024.
"Nos dois eventos nós aproveitamos para executar passo a passo o Plano de Contingência para a Influenza Aviária e Doença de Newcastle definido pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Nosso serviço se consolidou ao longo do tempo como muito maduro, e a experiência e comprometimento foram fundamentais. Quando desafiadas (pela gripe aviária em granja comercial), as equipes estavam totalmente familiarizadas com o que precisava ser feito", contou Rosane.
Esvaziamento e desinfecção da granja atingida, barreiras sanitárias para higienizar veículos nos acessos à propriedade, cerca de 1 mil visitas a estabelecimentos avícolas foram a rotina de cerca 90 servidores da secretaria, entre os quais 35 veterinários. Com a conclusão do período de 28 dias (o chamado vazio sanitário), o vírus estava derrotado e a luz voltava para a avicultura do Estado e do Brasil, maior exportador de carne de frango no mundo.
O que pouca gente sabia, naquele momento, era que o quadro de veterinários da Seapi, que completo deveria ter a lotação acima dos 350 profissionais, já operava com um déficit de 79 vagas (entre aposentados e concursados para outros órgãos), mais um grupo de cerca de 20 servidores desligados em atendimento à convocação para vagas no Mapa e na Companhia Integrada de Desenvolvimento Agrícola de Santa Catarina (Cidasc).
"Temos, hoje, um déficit imediato de pelo menos 90 veterinários no Estado. Sempre destacamos que é muito importante manter o serviço abastecido de profissionais, para que se possa responder aos eventos sanitários com a agilidade que aconteceu no foco de Montenegro e para manter, por exemplo, o status de zona livre de febre aftosa sem vacinação, certificação obtida pelo Rio Grande do Sul em 2021", reforçou a diretora, afirmando que está tramitando na Secretaria Estadual de Planejamento e Gestão um pedido de concurso para a carreira.
"Mas sabemos que demora", admitiu.
Entre os muitos reconhecimentos recebidos pela equipe após a vitória contra o vírus H1N1 no Vale do Caí, Rosane destacou o mencionado por um colega do Ministério da Agricultura, que em um grupo de Wattsapp escreveu sobre o SOV: "eles treinam muito, mas jogam ainda melhor." Os aplausos vieram de todos os lados, das granjas às instituições de sanidade animal nacionais e internacionais, passando pela população, que seguiu consumindo as proteínas avícolas, saudáveis também para o bolso.
Programas alinhados apoiam a qualificação
Giuliano Suzin, presidente da Associação dos Fiscais Agropecuários do Rio Grande do Sul (Afagro), afirmou que o episódio de Influenza Aviária exaltou ainda a mais a qualificação e o comprometimento do quadro de servidores da Secretaria da Agricultura gaúcha, que se dedica às ações sanitárias, ao mesmo tempo que escancarou os problemas de valorização que enfrenta a carreira. Suzin recorda que durante a operação realizada em Montenegro, pelo menos 23 profissionais convocados pediram o afastamento para atender outros órgãos, pois o serviço estadual tem trazido esgotamento e desânimo.
"As pessoas deste quadro estão sobrecarregadas e assumindo tarefas de colegas que saíram sem haver reposição", analisa. O dirigente admite que a situação salarial está melhor, depois da reestruturação feita pelo governo do Estado, mas ainda assim há problemas. "É uma atividade de grande responsabilidade, que permite ao servidor, se necessário, embargar empresas e produtores rurais. É preciso o olhar de quem entenda a função, para que as pessoas recebam um salário justo e tenham uma carga horária condizente. Contratar servidores de forma emergencial, fragiliza o sistema sanitário e somos contra", pontua o presidente ao lembrar o anúncio, em setembro, de que o governo estadual estava estudando tal via para recompor o quadro da Seapi.
O benefício econômico decorrente da eficiência da equipe veterinária da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), na gripe aviária de maio e na doença de Newcastle, passou pelas ações organizadas do Programa de Sanidade Avícola do Rio Grande do Sul operado pela pasta. A fiscal agropecuária Alessandra Krein, que atua junto à coordenação do programa, explicou que a secretaria vem incrementado a atenção sobre as ações relacionadas à Influenza Aviária de Alta Patogenicidade (IAAP) desde os primeiros casos, registrados na América do Sul em outubro de 2022.
Segundo ela, o controle de estoques de emergência manteve-se atualizado, houve sensibilização dos participantes da cadeia avícola e aves silvestres e de subsistência, além do estabelecimento de uma rede de comunicação eficiente para notificar suspeitas ao Serviço Veterinário Oficial (SVO).
"Quando a Influenza Aviária chegou ao Estado em maio de 2023 (foco em cisnes-do-pescoço-negro, no Taim), agimos no local como se fosse um foco em aves comerciais. Naquele momento, direcionamos todos os esforços para garantir que aquele foco permanecesse isolado naquele ambiente. Queríamos ter conhecimento sobre o impacto dessa entrada no nosso território e aproveitamos para treinar o corpo técnico nas ações em emergência", disse a veterinária.
A mesma estratégia se repetiu nos focos em aves silvestres de São José do Norte (2023) e em Rio Pardo (2024). "Por isso, quando surgiram os desafios na avicultura comercial, estávamos melhor preparados em relação às ações que deveriam ser executadas", pontuou.
Além da atuação em momentos de emergência como a Influenza ou a doença de Newcastle, o Programa de Sanidade Avícola trabalha na fiscalização das colheitas de monitoramento para a certificação dos plantéis das granjas avícolas de reprodução para manter o status de livres de Salmonelas e Mycoplasmas; cadastramento, credenciamento e fiscalização dos estabelecimentos que comercializam aves vivas; registro e fiscalização das granjas comerciais de corte, postura comercial e demais espécies não classificadas como aves de produção; e vistorias de biosseguridade em granjas avícolas para verificação dos itens de proteção e prevenção à transmissão de doenças, conforme a legislação nacional determina, entre outras ações.
"A preparação contínua do corpo técnico em ações de defesa sanitária animal, a resposta rápida com ações contundentes previstas no Plano de Contingência do MAPA, o comprometimento permanente do Serviço Veterinário Oficial do Rio Grande do Sul, em conjunto com outras instituições, foram, enfim, os fatores que levaram ao sucesso da operação em Montenegro", resumiu Alessandra.
Divulgação de informações auxilia comunidade a entender os eventos
A fiscalização sanitária no foco de Infuenza Aviária em Montenegro teve também um braço educacional. Foi preciso esclarecer a identificação da doença para a comunidade do Vale do Caí, no sentido de vencer o medo dos avicultores da região e dos cidadãos urbanos acerca do consumo de ovos e carne de frango e do possível contágio do vírus H5N1 em humanos. Lotado na inspetoria de Lajeado, Felipe Lopes Campos é o coordenador da Seção de Educação Sanitária da Seapi. Segundo ele, repassar informações durante o episódio de Montenegro (ou em outras situações de emergência) é uma questão estratégica, que acompanha as ações tomadas pelas as equipes que faziam o trabalho de campo.
"Nós visitamos 59 escolas da região, com alunos de todas as faixas etárias, como forma de multiplicar conhecimentos e trazer segurança. A parte mais importante deste trabalho é levar às pessoas informações que facilitem o reconhecimento da doença", afirmou Campos, que também visitou granjas onde o vírus não havia sido detectado. "Informamos sobre tudo que estava sendo feito, com o objetivo de dissipar o medo, e, principalmente, aproximar as pessoas dos canais de comunicação onde poderiam ser apresentadas eventuais suspeitas da enfermidade", explica.
Campos salientou ainda que o setor de educação sanitária atua em consonância com todos os setores da Secretaria de Agricultura, nas 15 inspetorias regionais que atendem os 497 municípios do Rio Grande do Sul, trazendo informações corretas que auxiliem na contenção de qualquer evento sanitário. Somente em 2024, a seção realizou 3,77 mil ações, conforme registro no site da Seapi.
Boa formação acadêmica tem papel determinante
CRMV reclama de cursos à distância e diz que prática tem gerado processos éticos
A especificidade das atividades de um médico veterinário, que lida com a anatomia e fisiologia de um sem número de seres vivos, exige formação acadêmica cuidadosa e, sobretudo, presencial. Essa é uma das principais bandeiras do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) do Rio Grande do Sul e de outros estados, assim como do órgão federal da categoria. A determinação do Ministério da Educação que permite a abertura de cursos de graduação que comportem carga horária de aulas remotas é avaliada pelo pelo presidente do CRMV do Estado, Mauro Antônio Correia Moreira, como, no mínimo, um desserviço à profissão e à sociedade. O dirigente elogia a atuação dos servidores da carreira que trabalharam na gripe aviária e no evento da doença de Newcastle e que evitaram a grande perda econômica cuja expansão das moléstias traria à avicultura gaúcha e nacional.
Para Moreira, mostrou-se nos dois episódios, assim como outros que já ocorreram no Estado e em outras cadeias produtivas, a importância de um corpo funcional qualificado para atender eventos que envolvem a saúde não apenas animal, mas da comunidade como um todo. "Fiscais agropecuários são a barreira para conter as doenças que se apresentam e evitar que atinjam nossos rebanhos, nossa economia e nossa população. Atuam em fronteiras e aeroportos, precisam ser capacitados", comentou.
Mauro Moreira ressalta que a Medicina Veterinária é uma ciência e como tal exige formação detalhada. De acordo com o levantamento do próprio conselho, apenas no Rio Grande do Sul, hoje, existem nada menos que 32 escolas de Medicina Veterinária, das quais somente quatro estão em universidades federais (UFRGS, UFSM, FURG e UFPel). Entre as particulares, uma boa parte oferece conteúdo em aulas virtuais o que, lamenta o presidente do CRMV, tem resultado na formação de profissionais de baixa qualidade e num acúmulo de processos éticos.
"Por isso, temos insistido em instituir no Brasil a prova de proficiência em Medicina Veterinária para que o graduado conquiste o registro profissional que o habilita ao exercício. Como já faz há muito tempo a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB)", destaca.
O dirigente também salienta que a Medicina Veterinária não tem sua importância reconhecida apenas na evolução da cadeia produtiva de origem animal, mas também como um elemento vital para as famílias da sociedade atual, onde os animais de pequeno porte fazem parte do convívio e recebem cuidados de saúde significativos. Para Moreira, o cuidado com os pets deram à profissão um caráter também afetivo.
Asgav e Fundesa defendem investimento nos profissionais
O presidente da Associação Gaúcha de Avicultores (Asgav), José Eduardo dos Santos, ressalta que o impacto do foco de Influenza Aviária em Montenegro e a rapidez com que foi revertido são a prova de que os governos, mais do que precisarem, devem manter seus quadros de fiscais veterinários sempre atualizados. "Não é apenas a gripe aviária que exige isso, mas também a febre aftosa, a peste suína ou outras doenças que atingem os rebanhos. É fundamental para o mundo que essas equipes sejam preparadas, alinhadas com a tecnologia e especialmente comprometidas", diz.
Santos ressalta que, no Rio Grande do Sul, apesar das contingências de pessoal, o Serviço Veterinário Oficial deu conta com precisão dos eventos de doença de da doença de Newcastle e gripe aviária por ser um corpo profissional atento e responsável com o bem-estar de toda a comunidade gaúcha, não apenas com seu caráter empresarial e econômico. Para o dirigente, estabilizar os quadros funcionais da fiscalização e valorizar a carreira é uma atitude inteligente de qualquer governo.
"Porque o gasto de manter funcionários qualificados é muito menor do que o que pode ser despendido com um evento sanitário sem uma resposta rápida e eficiente", adverte.
Segundo o presidente da Asgav, a conquista de mercados e a adaptação a padrões internacionais de produção passam pela fiscalização segura dos veterinários concursados, que trabalham pelo interesse de todos, produtor, indústria e população.
O presidente do Fundo de Desenvolvimento e Defesa Sanitária Animal (Fundesa), Rogério Kerber, lembra que o Rio Grande do Sul passou por diversos avanços nos últimos anos, quando o assunto é defesa sanitária animal. A incorporação de sistemas informatizados, ferramentas digitais e parceria com instituições como a Universidade da Carolina do Norte e a Universidade Federal de Santa Maria contribuíram para a definição de estratégias inteligentes e mais eficientes, que resultaram em avanços como as conquistas de Certificados Internacionais como Área Livre de Peste Suína Clássica (2015) e Febre Aftosa sem Vacinação (2021).
Além dos avanços de status, também é indispensável considerar a condução ágil e com excelência dos diversos desafios sanitários que o Rio Grande do Sul enfrentou nos últimos anos, como os casos isolados de Aujesky (São Gabriel, 2022), Newcastle (Anta Gorda, 2024) e Influenza Aviária em Granja Comercial (Montenegro, 2025), e as ações emergenciais em áreas de vida silvestre, com os casos de influenza em 2023, 2024 e 2025, quando foram realizados milhares de testes, orientação da população e produtores no entorno dos locais.
“O Fundesa muito se orgulha por ter sido, além de financiador, apoiador, interlocutor e incentivador dos treinamentos, desenvolvimento de ferramentas e da capacitação dos servidores. Entretanto, nada disso teria efeito tão robusto caso não encontrasse no Serviço Veterinário Oficial técnicos tão engajados, interessados, responsáveis e comprometidos, que demonstraram força de organização e superação inequívoca”, afirma Kerber.
Segundo ele, com suporte financeiro e apoio do Fundesa, vencendo desafios dos tempos modernos e das necessidades do serviço público, os técnicos da defesa animal foram construindo um sistema robusto, diferenciado e que vem sendo reconhecido como referência até para o Ministério da Agricultura.
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