Na Expointer, em Esteio, no início do mês, entre tantas atrações que encantaram o público, esteve o nascimento de cordeirinhos trigêmeos, rebentos muito fotografados juntos, principalmente, de crianças. A ovelha Três Coxilhas Doblechapa 863, da cabanha Três Coxilhas, do bairro Lami, em Porto Alegre, ainda ganhou destaque como campeã da categoria “Ovino Jovem” da raça Texel, julgamento em que esteve acompanhada dos três filhotes, e também ficou com o título de terceira melhor fêmea no geral da raça. O proprietário da cabanha, Eduardo Silveira de Carvalho, contou que foi apenas a segunda vez que um animal de sua propriedade deu cria na Expointer.
Apesar do inusitado na feira, casos de gêmeos, trigêmeos, quadrigêmeos e até quíntuplos em ovinos têm ocorrido com mais frequência no Rio Grande do Sul e em outros estados. O que antes era excepcional está se tornando mais corriqueiro. E não há nenhuma coincidência ou fenômeno raro: a justificativa é a mais pura evolução técnica da atividade. Avanços genéticos, protocolos de reprodução e manejo nutricional justificam a multiplicação.
Segundo a Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco), houve registros recentes em municípios como São Sepé, Quevedos, Pinheiro Machado, Xangri-lá e Ronda Alta, no Rio Grande do Sul, assim como em Castro (Paraná e Quixeramobim (Ceará), até de quadrigêmeos e quíntuplos. Certamente, em muitos outros lugares, pois não existem estatísticas apuradas para este perfil de nascimento, ainda que o normal seja que 20% dos partos em ovelhas sejam gemelares, esclarece o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul José Ferrugem. Ou seja, num rebanho de 100 matrizes prenhes o esperado é que nasçam 120 cordeiros.
Segundo o pesquisador, a incidência se explica pela disseminação de genes que favorecem a situação de múltiplos nascimentos.
“Triplos, quádruplos e quíntuplos são raros, mas aumentam quando há genes de prolificidade como Booroola e Vacaria. A identificação de partos quádruplos e quíntuplos mesmo incomum, normalmente, vai estar associado a estes genes peculiares que determinam uma taxa de ovulação maior. Hoje estes genes estão espalhados pela população (ovina)”, justifica o especialista.
Ferrugem conta que o gene Booroola foi introduzido naturalmente no Brasil nos anos 1980, então restrito por muito tempo ao rebanho da unidade Embrapa Pecuária Sul, mas a partir dos anos 2000 foi repassado para diversos produtores. Foi encontrado inicialmente em carneiros (reprodutores) da raça Merino Australianos. No caso das raças Corriedale e Texel a frequência é alta, com animais portadores em todos os rebanhos. “Então existem diversos produtores que hoje têm o gene na população”, acrescenta. O pesquisador tem uma estatística do Registro Genealógico da Arco que, de 1990 a 2024, houve a incidência de 9% de duplo nascimento e 0,1% de trigêmeos na raça Corriedale; 14% e 0,2% na Texel; 20% e 0,5% na Ile-de-France; e 30% e 0,7% na Lacaune.
Portanto, o nascimento em dupla não é surpresa para ele. “Como notícia, o fato é raro, mas ele existe sempre que houver a presença desses genes peculiares”, explica. Além do Booroola e Vacaria, na unidade de Bagé também está presente o gene Embrapa. “Então, no nosso rebanho é possível acontecer com muita frequência esse tipo de parto múltiplo sempre que tivermos os três genes juntos nos mesmos animais”, afirma. O gene Vacaria, identificado em alguns rebanhos da raça Ile-de-France, leva esse nome por ter sido observado primeiramente no município gaúcho. E o gene Embrapa é encontrado naturalmente nas raças deslanadas Santa Inês e Morada Nova.
A seleção genética pode ser feita de forma simples, por meio de exames de DNA que identificam os portadores. “Um carneiro homozigoto para o gene transmite a característica a todas as filhas. Basta introduzi-lo no rebanho para, já no primeiro ano, observar aumento nas taxas de natalidade”, conta Ferrugem. O laboratório da Embrapa oferece o serviço de identificação do gene, e ainda não há estrutura privada para isso.
Segundo o médico veterinário e técnico da Arco Fabricio Wilke, a genética pode ser determinante para a gemelaridade, visto os genes facilitadores, mas o ambiente e o manejo nutricional da ovelha matriz também influenciam a taxa de ovulação. “Animais portadores desses genes, independentemente das condições ambientais e nutricionais, tendem a ter ovulações múltiplas, resultando em parições com mais de um cordeiro”, argumenta. Da mesma forma, a oferta de alimento de alto valor energético antes e durante a etapa de acasalamento pode elevar a ocorrência de partos múltiplos.
Para Wilke, a situação observada na ovinocultura brasileira de partos múltiplos acompanha uma tendência global de buscar mais eficiência na produção. “A Nova Zelândia trabalha com partos múltiplos dos seus rebanhos de criatórios na produção de cordeiros. Então, hoje é uma realidade mundial, a eficiência dentro da propriedade. Tanto que a incidência de animais com partos múltiplos é praticamente total dentro das propriedades da Nova Zelândia. Nem existem praticamente mais animais que não produzam partos gemelares em função da eficiência visando o mercado mundial de carne ovina”, conta. “A Nova Zelândia, hoje, é o nosso espelho nessa produção, e nós temos que caminhar para esse trabalho de ter animais de alta produção”, encerra.
Cuidados com cordeiros devem ser redobrados
Filhotes de partos gemelares costumam nascer com o peso inferior ao normal de um ovino de gestação única, por isso, necessitam de complementação alimentar em mamadeiras, mães de leite e consumo precoce de concentrados
Mas apesar da bela imagem de uma turminha de cordeiros recém-nascidos em torno na mãe, o pesquisador da Embrapa Pecuária Sul José Ferrugem lembra que, na prática, a mortalidade é alta e a criação desses cordeiros múltiplos exige muito cuidado, pois os animaizinhos normalmente nascem com o peso inferior ao habitual. E, além disso, se sabe, a mãe possui dois tetos para a amamentação, o que impõe um manejo específico ao criador para alimentar os famintos. A dedicação pode incluir mamadeiras, uso de mães de leite ou oferta de concentrados precocemente.
Assim, explica o estudioso, a mortalidade é um risco costumeiro, pois cordeiros múltiplos tendem a nascer mais frágeis, exigindo vigilância diária, ambiente protegido e boa nutrição materna. Por isso, do ponto de vista produtivo, o ideal é estimular partos duplos ou no máximo triplos, que aumentam a produção sem comprometer o desenvolvimento dos animais.
“Esses partos de gemelaridade mais alta normalmente estão associados com uma taxa de mortalidade maior. Esses cordeiros morrem mais do que aqueles de partos simples e partos duplos. Então, por isso o ideal são partos duplos ou triplos em casos de sistemas mais intensivo”, descreve.
“É muito difícil criar estes cordeirinhos”, completa.
Surpresa quádrupla em Pinheiro Machado
Em Pinheiro Machado, na Fazenda do Açude, uma mãe da raça Texel pariu quatro filhotes de uma vez: três machos e uma fêmea (foto da capa). “Foi um caso que nos surpreendeu, sim. Porque não é comum o nascimento de cordeiros quádruplos. Bem raro o que aconteceu. Nos ovinos os nascimentos gemelares de dois cordeiros por gestação ocorrem com alguma frequência, em torno de 7% a 13% das ovelhas tendem a parir gemelares. Mas já os partos trigêmeos são bem raros”, descreve o zootecnista Pablo Tavares Costa, do Escritório Municipal da Emater/RS-Ascar.
Segundo o técnico, os quatro nasceram grandes e saudáveis.
Costa relata que a propriedade já teve dois casos de gêmeos, mas nunca além disso. O curioso, conforme ele, é que na região há duas outras propriedades de animais com o gene Booroola, mas pode não ser o caso da propriedade dos quadrigêmeos, a menos que não tenha sido feita no local a identificação do gene. Costa entende que no caso o bom manejo nutricional da fêmea acabou por incrementar a possibilidade do parto múltiplo, pois com alimento de maior valor nutricional nas semanas que antecederam o acasalamento se conseguiu estimular a ovulação e aumentar a possibilidade de gêmeos.
Muitas propriedades no Rio Grande do Sul têm adotado o manejo nutricional para aumentar o número de cordeiros por parto. “Milho, milho com farelo de soja, aveia em grão para melhorar o nível nutricional dos rebanhos. Normalmente são alimentados com base em pastagens em campos nativos na região”, descreve.
O reforço nutricional foi feito na propriedade (em Pinheiro Machado) e potencializou a ovulação. “Logo após o parto é preciso dar um reforço de leite para os cordeiros porque a ovelha normalmente não vai conseguir suprir a demanda para mais de dois cordeiros. Não vai ter produção de leite suficiente para alimentar de maneira satisfatória mais do que dois cordeiros”, sugere.
Trigêmeos em universidade da Serra
Em agosto, na Área Experimental e Fazenda Escola da Universidade de Caxias do Sul/RS, após vários partos duplos, ocorreu, pela primeira vez, o nascimento triplo de duas fêmeas e um macho. A UCS não informou a raça do ovino. “É importante garantir que todos os neonatos façam a ingestão adequada de colostro e que recebam suplementação alimentar na mamadeira, em função da maior demanda de leite para o trio, e que a mãe receba uma dieta especial, garantindo a produção de leite”, lembrou a professora da Veterinária, Marcele Sousa Vilanova.