O Pará, segunda maior unidade federativa do Brasil em territorialidade, com área superior a 1,2 milhão de quilômetros quadrados, vai ser, em 2025, a porta do país para o mundo. Como sede da Conferência das Partes das Nações Unidas (COP 30), que ocorrerá em Belém entre 10 e 25 de novembro do ano que vem, o estado irá demonstrar estratégias da Amazônia Legal − alvo permanente de críticas a práticas consideradas nocivas ao meio ambiente − para manter a sustentabilidade e o cuidado com a natureza. Uma das formas de contribuir está ligada a iniciativas da agropecuária local.
Na pecuária, o Pará é um exemplo de potência. Seu rebanho bovídeo bate os 26 milhões de cabeças, a maioria de zebuínos da raça Nelore. A criação paraense perde em quantidade apenas para o Mato Grosso, com 34 milhões de cabeças, e é um empreendimento para "ganhar dinheiro", conforme admitem fazendeiros da região, como Mauro Lúcio Castro e Ubiratan Novelino Filho. Novelino, proprietário da fazenda Madressilva (visitada por jornalistas que participam de programa de estudos na Fundação Dom Cabral, de Minas Gerais), no município de Benevides, a 30 quilômetros da capital, afirma que o segredo está em equilibrar os cuidados com solo (provedor de pastagens), o número de animais por área e a terminação caprichada.
Filho de tradicional fazendeiro estabelecido no estado − a família veio do Nordeste −, Novelino lembra que no Pará tudo nasce e tudo cresce, graças à combinação de sol e chuvas em grandes volumes alternados. Sua fazenda de 974 hectares tem hoje 50% da área ocupada por 976 zebuínos de corte, com média de 500 quilos cada. Ubiratan garante que não desmatou e que quando chegou à propriedade, em 2000, os campos para a pecuária já estavam abertos. "Esta área tem uns 80 anos já com os campos abertos, porque antigamente era diferente”, diz.
A "diferença" a que o pecuarista faz alusão é quanto às regras ambientais, que hoje limitam o desmatamento e obrigam os produtores a recuperar os terrenos devastados. Dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que até 2022 uma área de 166.774 quilômetros quadrados da Amazônia foi degradada no Pará desde o começo da série histórica, iniciada em 1988.
Novelino reconhece que a prática de desmatar não pode fazer parte do negócio, em especial de um negócio cujo resultado quase que na totalidade é direcionado às exportações. "Se a gente desmatar é visto pelo satélite e bloqueiam na hora", comenta.
A fazenda Madressilva termina os bovinos num grau de excelência, alimentando-os a pasto e com suplementação diária no cocho de três quilos de matéria seca. Os bovinos são distribuídos na proporção de 2,2 exemplares por hectare.
O dono da Madressilva foi acompanhado durante a visita dos jornalistas pelo amigo Mauro Lúcio Castro, liderança reconhecida entre os criadores paraenses, embora seja mineiro. Castro destacou a importância econômica da pecuária no Pará, mas observou que o sucesso não é para qualquer um e sim para o empreendedor focado e que busca capacitação. Ele entende que o solo paraense é vocacionado para a criação e que as iniciativas de agricultura são em escala menor e pressupõem "a compra de um gaúcho", brinca, elogiando a expertise dos agricultores do Rio Grande do Sul.
Óleo de palma é destaque na produção paraense
Com 600 mil toneladas anuais, o Pará é líder nacional no cultivo e beneficiamento do fruto da árvore, o dendê, dentro de padrões ambientais que colocam a segmento como alternativa à recuperação de áreas desmatadas
Está concentrada no estado do Pará a maior produção de óleo de palma do Brasil, matéria-prima para a indústria alimentícia, como a de massas e biscoitos, para utilização como biocombustível e para o desenvolvimento de produtos de perfumaria. Hoje, em todo o país, são produzidas 600 mil toneladas do óleo anualmente, entre 90% a 95% extraídos em solo paraense.
Nativa da África e originalmente cultivada nos estados do Rio de Janeiro e da Bahia, desde o século 17, a palma (de nome científico Elaeis Guineenses) tem seu plantio hoje concentrado na região amazônica, que combina as necessidades de sol e chuva com o potencial do solo. O presidente da Associação Brasileira de Produtores de Óleo de Palma (Abrapalma), Victor Almeida, explica que o cultivo não enfrenta problemas de caráter ambiental. No estado, as plantações da árvore, cujo fruto é o dendê, só podem ser implantadas desde 2007 em áreas degradadas pela pecuária. Além disso, a cultura está submetida ao Zoneamento Agroecológico do Dendê, que protege a produção e a coloca como alternativa de reflorestamento.
A colheita do dendê ainda é manual, com a utilização de equipamentos que auxiliam o trabalhador a retirar o cacho das árvores. Segundo Almeida, no Pará são mobilizados hoje cerca de 22 mil trabalhadores, em média um trabalhador para cada 10 hectares. Neste ano, a colheita de óleo de palma pode ficar abaixo da média anual de 600 mil toneladas. A safra corre riscos diante da seca que atinge a região Norte. “Mas mesmo com a possibilidade de quebra, esta não deve ultrapassar os 20% ou 30%”, assegura o dirigente.
Uma das empresas que se destacam no plantio e extração do óleo de palma no Pará, está nas redondezas da cidade de Tomé Açu, a uma distância de quase 200 quilômetros da capital, Belém, e no município de Tailândia. A Belém Bioenergia do Brasil (BBB) tem hoje 45 mil hectares plantados com palma, sendo 38 mil próprios e 7 mil em parceria com agricultores familiares. Por ano, a produção média é de 190 mil toneladas de óleo, entregues na proporção de 70% à indústria de produtos alimentícios – entre os quais o conhecido macarrão do tipo miojo –, 15% para o uso de biocombustíveis e outros 15% para a fabricação de cosméticos e produtos de higiene. De acordo com Almeida, hoje a BBB tem 42 mil hectares em produção, enquanto que 5 mil hectares dentro da agricultura familiar ainda estão em desenvolvimento.
Meio bilhão de sabonetes
Na cidade de Benevides, a 30 quilômetros de Belém, está estabelecida a fábrica de sabonetes da Natura Brasil. O Ecoparque completou, em 2024, dez anos de operação. No ano passado, a indústria produziu 505 milhões de unidades de sabonetes, e ,em uma década, mais de 3,4 bilhões de unidades. O produto Natura tem como ingrediente principal o óleo de palma, que corresponde a 70% da fórmula. Os restantes 30% são compostos de soda cáustica e outros óleos encontrados na região amazônica, como os de babaçu e andiroba. A distribuição dos sabonetes para o país e para o exterior se dá por vários modais, aéreo, rodoviário e hidroviário.
O chocolate amazônico e o cupulate
Uma fábrica pequenina, na comunidade Colônia Chicano, região metropolitana de Belém do Pará, produz chocolates com a personalidade amazônica que ganham o Brasil e o mundo. O nome dela é Chocolates De Mendes, empresa fundada pelo chocolatier César De Mendes, em 2014, e que seleciona sementes de cacau nativo entre os produtores da região. Os produtos variam em percentual de cacau de 47% até 75% e são preparados numa casa com três ambientes, um para descascamento e torra; outro para depósito de matérias-primas e embalagens; e um terceiro onde a massa de cada doce é preparada, as barras são pesadas, formatadas e embaladas por duas funcionárias.
São, no total, 10 tipos de chocolates em barra e três barras de cupulate, a iguaria produzido a partir das sementes de cupuaçu que permite a quem prova uma experiência gustativa muito diferente. O cupuaçu é uma fruta comum nas regiões Norte e Nordeste, cuja polpa é usada em sorvetes, sucos e outras preparações. No caso do cupulate, são aproveitadas as amêndoas, com sabor semelhante às amêndoas do cacau, mas com composição química diferente. Uma das linhas de cupulate da De Mendes é o Amabela, feita a partir de cupuaçu colhido pela Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do Município de Belterra, no Pará.
Chama a atenção na linha de produtos da empresa o Chocolate Yanomami, com 69% de cacau. A fruta é colhida nas terras indígenas Yanomami, nos estados de Roraima e Amazonas. A variedade não tem identificação e é processada inicialmente pelos próprios povos indígenas. O resultado é um produto saboroso, que, segundo a chocolataria, pode lembrar o sabor da banana.
Além das 13 barras, a De Mendes produz ainda biscoitos de castanha e pixuri (um tipo de noz amazonense), coberto com chocolate e cupulate; castanhas do Pará cobertas e bombons recheados.
Sistema agroflorestal se mantém há cinco décadas
Na região de Tomé-Açu, a cerca de 200 quilômetros de distância da capital do Pará, Belém, a Cooperativa Mista de Tomé-Açu (Camta) é reconhecida pela produção de polpas de frutas variadas, em especial, as da região amazônica. Mas ela é muito mais do que isso para o estado e ocupa um papel importante no reflorestamento, com a prática, há mais de 50 anos, do Sistema Agroflorestal de Tomé-Açu (Safta).
O coordenador do Conselho Fiscal da cooperativa, Orleans Mesquita, dá o exemplo de sua propriedade, localizada no município, onde foi introduzido o sistema em uma área de pastagem degradada, a partir de 2015, com o plantio de pimenta-do-reino e açaí, seguidos dos plantios do cacau clonal e bacuri. "Temos um sistema bastante diverso aqui, onde se está preservando espécies da Amazônia, preservando o solo e sequestrando carbono", conta.
O sistema imita uma floresta, desenhada dentro de critérios agronômicos como o espaçamento das raízes e das copas das árvores. Esses critérios foram herdados dos imigrantes japoneses que chegaram na região há mais de 90 anos. O Safta também oferece ao agricultor a possibilidade de múltiplas rendas, pois quando alguma das safras de frutíferas não satisfaz, outra garante o sustento.
Na propriedade de Mesquita se observa o cacau consorciado com o açaí, o que oferece sombra às plantas, já que são árvores de diferentes alturas. "Pode até ser que este cacau aqui não produza tanto quanto na modalidade 'a pleno sol', mas tem o açaí", comentou. Ele também revela que os sistema já está sendo usado por agricultores que produzem o dendê, o que otimiza a cultura diante de períodos de seca.
Atualmente, a Camta tem 160 cooperados, com propriedades que variam entre 100 e 500 hectares.
Surpresas no processamento da borracha
A empresa Seringô, localizada em Castanhal, nos arredores de Belém do Pará, traduz em peças de artesanato e calçados uma luta pela dignidade dos seringueiros da Amazônia e por uma atividade mais alinhada à natureza
Peças de decoração inspiradas na biodiversidade da Amazônia, bijuterias e um modelo de tênis com solado de borracha, cabedal em juta, cadarços de algodão orgânico e pintura feita a mão de acordo com as técnicas marajoaras, são algumas das surpresas guardadas dentro da Seringô, empresa localizada no município de Castanhal que trabalha para elevar a extração e processamento da borracha no Pará a outro nível. O empreendimento familiar reúne o paranaense Francisco Samonek, presente na Amazônia desde 1980, o filho, Lauro, e a esposa, Maria Zélia, num projeto que modifica a vida de 75 comunidades de seringueiros.
O extrativismo da borracha no Brasil remonta do final do século 19. Até o início do século 20, o látex que é retirado das seringueiras, árvores que chegam a durar 200 anos, foi um produto economicamente muito importante. Em 2022, conforme o IBGE, foram coletadas 416,9 mil toneladas de borracha natural no país, com um valor de R$ 1,8 bilhão. A quantidade é menor que 50% da necessidade que o país tem da matéria-prima e o preço pago por quilo aos seringueiros fica em torno dos R$ 4.
Francisco explica que a Seringô remunera aos seringueiros parceiros cerca de R$ 10 pelo quilo da borracha, mas exige que entreguem um produto com menos umidade e impurezas. Desta forma, a empresa conseguiu desenvolver um processo de vulcanização artesanal que permite processar a borracha sem a necessidade de uso da água para limpar o produto e, consequentemente, sem a necessidade de soltar dejetos na natureza. Na pequena fábrica, onde são produzidos os tênis sustentáveis, também são feitos fardos de borracha de 25 quilos que são vendidos para o uso, por exemplo, pela indústria pneumática. O empresário afirma que a opção pelos calçados, como carro-chefe, se deu pelo fato de que, hoje, tanto no Brasil quanto no mundo, os solados de borracha perderam espaço para os produzidos com substâncias sintéticas.
Samonek ressalta o papel da esposa, Zélia, como assessora pedagógica nas comunidades. “Nós conseguimos empoderar as mulheres dessas comunidades, que, muitas vezes, tinham apenas a oportunidade de trabalhar como debulhadoras de açaí, complementando o trabalho do marido. Hoje, com o artesanato, conseguem comprar coisas para elas ou para os filhos como resultado desse trabalho”, enaltece.
Maria Zélia Damasceno lembra que desde que começou o trabalho nas comunidades os conceitos de uso da borracha de forma artesanal chegaram a 200 multiplicadores, que hoje atuam especialmente no Marajó e em Santarém. Uma destas multiplicadoras é Daiane Dourado, colaboradora da empresa há quase uma década e que hoje ensina as técnicas de pintura aplicadas no tênis sustentável, vendido no mercado nacional por cerca de R$ 300 e para a Europa por volta dos 60 euros.
O governo do Pará tem um projeto para reativar a produção de borracha, o Marajó Sustentável, que está em execução desde 2022 e deve se estender até 2026, atendendo 10 mil famílias de extrativistas.