Rural

População rural é maior em 169 municípios do RS

Fenômeno ocorre em 34% das cidades do Rio Grande do Sul e é mais notável em administrações estabelecidas a partir dos anos 1990, depois da promulgação da Constituição, que autorizou os estados a criarem novas unidades

Foto : Seapi / Divulgação / CP

De acordo com dados do Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a maioria da população de 169 municípios gaúchos vive na área rural. O número equivale a 34% das cidades do Rio Grande do Sul, sendo mais notável entre as administrações estabelecidas depois da Constituição de 1988. A Carta Magna promulgada em outubro daquele ano previa que a criação de municípios ocorreria por meio de lei estadual. Com isso, cada unidade federativa adotou os próprios critérios para formação de novas cidades, o que provocou um aumento acelerado do número de prefeituras.
Dos 497 municípios do Rio Grande do Sul, 164 são administrações (33%) instituídas depois da promulgação da Constituição. A última foi Pinto Bandeira, na Serra Gaúcha, emancipado de Bento Gonçalves e fundado, depois de longa disputa judicial, em 2013. Em Pinto Bandeira, maior produtor de pêssegos do Brasil, 69,63% da população reside no campo.

Na lista dos dez municípios com maior percentual de moradores no campo (veja o infográfico), cinco datam de 1992, quatro de 1995 e um de 1996. Criado em 1995, Chuvisca, na Região Centro-Sul do RS, lidera a relação. Na localidade distante 150 quilômetros de Porto Alegre, 92,67% (4.260) da população de 4.597 pessoas habita a zona rural. Originado de Camaquã, Chuvisca tem a economia baseada principalmente na lavoura de tabaco.
Na 169ª colocação de cidades onde a população rural supera a metade do total de habitantes, a última da lista, está Brochier, no Vale do Caí, com 50,32% da população domiciliada fora da área urbana. Conhecido como Capital do Carvão Vegetal, Brochier também conta com pequenos produtores de calçados. Sua fundação ocorre em abril de 1988, seis meses antes da promulgação da Constituição de 1988.

O município com menor população no Estado, André da Rocha, na Serra Gaúcha, está fora da lista de maiores concentrações proporcionais em área rural. Mas é por pouco. Dos 1.135 habitantes, 49,69% residem fora da cidade. Junto com a lavoura da soja e a pecuária, o turismo tem forte presença na economia local. Emancipado de Lagoa Vermelha, a fundação de André da Rocha, assim como a de Brochier, antecedeu em cinco meses a promulgação da Constituição de 1988. Canguçu é o mais populoso entre os municípios com maior percentual de habitantes na zona rural (veja matéria na outra página). Dos 49.680 habitantes, 58,07% vivem no campo.

No sentido contrário, Alvorada, Cachoeirinha e Canoas, localizados na Região Metropolitana de Porto Alegre, que juntos somam 671.230 habitantes, não têm registro de moradores em área rural. Não existe tal definição geográfica nessas cidades. A seguir vem Imbé, no Litoral Norte, com apenas duas pessoas na zona rural, o equivalente a 0,01% da população, e Esteio, com 41 pessoas, ou 0,05% do total de habitantes. Em sexto lugar, está Porto Alegre. Embora a Capital tenha 2.417 pessoas na área rural, o número representa apenas 0,18% da população de 1.332.845 cidadãos.

O Censo Agropecuário de 2017 colocou Porto Alegre entre as capitais com maior zona rural consolidada geograficamente, superando os 7 mil hectares. Mais de 80% da atividade agropecuária está concentrada na região do Extremo Sul, formada pelos bairros Belém Novo, Boa Vista do Sul, Chapéu do Sol, Extrema, Lageado, Lami, Ponta Grossa e São Caetano.

Os 169 municípios gaúchos predominantemente rurais somam 626.419 pessoas, equivalente a 46,06% da população rural do RS, e 5,75% da população total. O Censo de 2022 indica que o Estado é a oitava unidade da federação com maior população rural, atrás de Bahia, Minas Gerais, Ceará, Pará, Maranhão, Pernambuco e São Paulo. São 1.359.872 pessoas vivendo no campo, correspondendo a 12,49% da população de 10.882.965 pessoas. O número representa uma redução de 233.766 habitantes (14,7%) em relação ao contabilizado no Censo de 2010.

Naquele ano, 1.593.638 pessoas viviam no campo no RS, ou 14,9% da população gaúcha de então (10.693.929).
A redução demográfica rural ocorre em todo o território nacional, e tende a se tornar mais expressiva. No período de 12 anos, entre um censo e outro, o campo perdeu 4,3 milhões de domiciliados no Brasil, principalmente no Nordeste, de onde partiram 48,13% dos que rumaram para os centros urbanos. “É uma migração social em busca de melhores condições de vida. A tendência é diminuir cada vez mais”, diz Claudio Sant’Anna, coordenador técnico do Censo de 2022 no Estado e dos três últimos censos agropecuários realizados no Rio Grande do Sul.

POPULAÇÃO RURAL | Foto:

Montenegro tem o dobro de moradores no campo

Vista aérea de Montenegro. | Foto: Leandro Utzig / Prefeitura de Montenegro / CP

Entre os censos de 2010 e 2022, município do Vale do Caí passou de 5.786 habitantes para 11.638 habitantes em área rural, 101,14% a mais, situação que alavancou o posicionamento da cidade no ranking estadual

Enquanto a população rural diminui em todo o país, Montenegro, no Vale do Caí, mais do que dobrou o número de habitantes que vivem no campo, na comparação entre os Censos Demográficos de 2010 e de 2022. O levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2010, contabilizou 5.786 pessoas na área rural no município distante 55 quilômetros de Porto Alegre, e ainda mais próximo de outras grandes cidades como Novo Hamburgo, São Leopoldo e Canoas. Em 2022, a soma atingiu 11.638 habitantes rurais, ou seja, 101,14% a mais. O município saltou da 54ª posição para o oitavo colocado no ranking de maior população rural absoluta do Estado.

Para Everaldo Vinicio, extensionista rural da Emater/RS-Ascar de Montenegro, trata-se de um aumento relativo. De acordo com Vinicio, houve uma migração de pessoas de cidades vizinhas para zonas rurais de Montenegro, em busca de sossego, tranqüilidade e segurança, mas sem necessariamente estabelecer vínculo com a atividade agropecuária.

“Montenegro tem uma posição privilegiada. Tem zonas rurais muito próximas da zona urbana e das rodovias que levam à Região Metropolitana. Essas pessoas querem morar num local mais tranquilo, mais seguro, mas com possibilidade de se deslocar facilmente para a Capital ou outras cidades”, explica o extensionista.

Além da migração, há, evidentemente, a produção agrícola de Montenegro. O município é o principal polo da citricultura no Rio Grande do Sul, concentrando indústrias e produtores que cultivam mais de 3 mil hectares de pomares, principalmente de bergamotas. “É uma cultura que exige muita mão de obra”, salienta Vinicio.
Canguçu, na região Centro-Sul do Estado, distante 274 quilômetros de Porto Alegre, é o município gaúcho com maior população rural absoluta. São 28.848 pessoas no campo, ou 58,7% da população de 49.680 habitantes. Em 2010, a oficialmente denominada Capital Nacional da Agricultura Familiar também liderava o ranking, mas tinha 33.565 moradores rurais, 14,05% a mais. “Municípios como Canguçu têm um número muito expressivo de estabelecimentos agropecuários, nos quais as pessoas também moram. O mesmo ocorre em outros municípios da Região Sul, como Pelotas e São Lourenço do Sul”, comenta Claudio Sant’Anna, coordenador técnico do Censo de 2022 no Estado e dos três últimos censos agropecuários realizados no RS.

De fato, Canguçu também reúne o maior número de empreendimentos rurais entre os municípios gaúchos, 8.075, de acordo com o Censo Agropecuário de 2017. Adão Batista, assistente rural da Emater/RS na cidade, destaca que a lavoura de fumo é a que demanda maior número de trabalhadores, embora a de soja ocupe maior extensão. Canguçu oferece ainda leite, frutas, feijão, milho, além da pecuária de corte.

A dobradinha entre população e empreendimentos rurais se repete com exatidão em outros municípios. Venâncio Aires, no Vale do Rio Pardo, segundo colocado em moradores do campo, tem a mesma posição em empreendimentos do setor. A relação, no entanto, nem sempre se confirma com tal precisão. Montenegro, por exemplo, oitava maior população rural, está em 66ª posição no número de estabelecimentos do agro. Piratini, na Região Sul, é o nono município em empreendimentos, mas o 35º em população rural. O gerente regional da Emater/RS, Ronaldo Maciel, lembra que se trata de propriedades rurais com grande extensão, mas que exigem uma força de trabalho menor.