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Potencial gastronômico do butiá pode ser alternativa para a preservação da espécie

Fruta nativa do Rio Grande do Sul é lembrada pelo seu impacto histórico em data comemorativa

Utilizar frutas nativas na culinária colabora para a valorização de cadeias produtivas locais
Utilizar frutas nativas na culinária colabora para a valorização de cadeias produtivas locais Foto : Paulo Lanzetta / Divulgação / CP

Desde 2022, o dia 13 de março é reconhecido como Dia Estadual do Butiá. Os butiazais são nativos da América Latina e tem um total de 21 espécies presentes na Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. Destas, oito espécies crescem no Rio Grande do Sul. Esta fruta está presente em expressões de fala regionais, no artesanato e na culinária e faz parte da história e cultura do estado. Apesar disso, os butiazais estão ameaçados de extinção. Entender os potenciais usos, como na culinária, pode ser uma forma de incentivar o consumo e valorizar o Butiá, colaborando para a preservação através de práticas de extrativismo adequado.

Os butiazais apresentam potencial de uso do fruto, do caroço, da planta e da palha. A pesquisa “Diagnóstico do extrativismo, processamento e comercialização de produtos oriundos de butiazais no RS”, realizada pela Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), juntamente com a Emater/RS-Ascar, observou que 95% dos que utilizam alguma parte do butiazal fazem uso do fruto, sendo que as produções mais comuns são da polpa, cachaça, licor, suco e geléia.

Possibilidades gastronômicas

O professor de gastronomia da UniRitter Willian Zarpelon explica que o butiá apresenta uma matriz sensorial bastante complexa e que funciona bem em usos com contrastes de acidez e gordura.

“Em termos de sabor, combina acidez com dulçor, criando um equilíbrio que lembra frutas tropicais cítricas. No perfil aromático, destacam-se notas que remetem a abacaxi, damasco, maracujá e cítricos maduros. Isso confere grande identidade ao ingrediente”, explica.

A textura da polpa, que é é fibrosa e suculenta, possibilita a extração e utilização para preparos de bases culinárias que vão desde os líquidos até emulsões, cremes e reduções.

Willian destaca que em comunidades ligadas aos butiazais também há registros de uso da fruta para preparo de sorvetes, mousses, sobremesas caseiras, caldas e fermentação para bebidas artesanais.

“Embora menos frequente, há registros do uso da polpa em molhos agridoce para carnes, sobretudo em cozinhas familiares”, salienta.

Ele observa que, o butiá pode ser utilizado em pratos com proteínas, lácteos, ervas aromáticas, especiarias e oleaginosas. A fruta também harmoniza bem com ingredientes regionais como mel, erva-mate, cachaça artesanal e butiá fermentado.

“Essas aplicações mostram que o butiá pode transitar com facilidade entre cozinha tradicional, gastronomia contemporânea e mixologia, tornando-se um ingrediente extremamente promissor para a culinária do sul do Brasil”, acrescenta Willian.

Utilizar frutas nativas na culinária colabora para a valorização de cadeias produtivas locais, principalmente a de agricultores familiares. De acordo com a pesquisa, 74% dos proprietários rurais com a butiazais estão categorizados como agricultores familiares. O professor da UniRitter aponta que por se tratar de frutas adaptadas ao bioma local, elas exigem menos insumos e geram menos impacto ambiental, o que é positivo para a sustentabilidade.

O uso do butiá na história do Rio Grande do Sul

Entre 1927 e 1950 os butiazais tiveram um papel econômico importante no Rio Grande do Sul. As fibras das folhas eram extraídas e utilizadas para a confecção de colchões e itens de estofaria em diversas regiões.

Já a palha do butiá era utilizada para artesanatos, que eram a fonte de renda de muitas mulheres, especialmente na região do litoral norte. O modo de fazer artesanato com palha de butiá é reconhecido como patrimônio cultural imaterial no Estado desde 2023.

“Os butiazais são ecossistemas importantes e, historicamente, sofreram redução por expansão agrícola e urbana. Ao gerar demanda gastronômica pelo fruto, podemos estimular cadeias produtivas sustentáveis, manejo responsável e conservação das áreas naturais”, conclui Willian Zarpelon.

Receita de sagu de butiá com creme de erva-mate e farofa de noz-pecã

Ingredientes (6 porções)

Sagu de butiá

* 200g de sagu

* 300g de polpa de butiá

* 600ml de água

* 120g de açúcar

* 10 ml de suco de limão

Creme de erva-mate

* 500ml de leite integral

* 15g de erva-mate

* 4 gemas

* 80g de açúcar

* 100ml de creme de leite

Farofa crocante

* 80g de noz-pecã picada

* 40g de açúcar mascavo

* 30g de manteiga

* 40g de farinha de trigo

* 1g de sal (uma pitada de sal)

Modo de preparo

Sagu de butiá

1. Colocar o sagu em água por 30 minutos e escorrer antes do preparo.

2. Aquecer a água com a polpa de butiá e o açúcar.

3. Quando iniciar a fervura, adicionar o sagu hidratado.

4. Cozinhar em fogo médio, mexendo regularmente.

5. Cozinhar por cerca de 20 a 25 minutos, até que o sagu fique translúcido.

6. Ajustar a acidez com o suco de limão.

7. Reservar.

Creme de erva-mate

1. Aquecer o leite.

2. Adicionar a erva-mate e deixar em infusão por 10 minutos.

3. Coar o leite para retirar as folhas.

4. Misturar as gemas com o açúcar.

5. Adicionar o leite infusionado aos poucos, mexendo constantemente.

6. Levar ao fogo baixo, mexendo até o creme engrossar levemente.

7. Finalizar com o creme de leite.

Farofa de noz-pecã

1. Derreter a manteiga em frigideira.

2. Adicionar a farinha e mexer até começar a dourar.

3. Incorporar o açúcar mascavo e a noz-pecã picada.

4. Tostar levemente até formar uma farofa crocante.

5. Finalizar com uma pequena pitada de sal.

Montagem

* Colocar o sagu de butiá em taças ou pratos fundos.

* Adicionar o creme de erva-mate por cima ou ao lado.

* Finalizar com a farofa crocante de noz-pecã.

Observação para extração da polpa de butiá: Lavar bem os frutos e colocá-los em um recipiente com pequena quantidade de água morna. Com as mãos, pressionar e esfregar os butiás para soltar a polpa que envolve o caroço fibroso. Em seguida, passar a mistura por peneira ou coador, pressionando com uma colher para separar a polpa das fibras e sementes. O resultado é uma polpa aromática e ácida, pronta para utilização em preparações culinárias.

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