A Superintendência do Ministério da Agricultura e Pecuária no Rio Grande do Sul reuniu, por meio de reunião virtual em sua sede em Porto Alegre, especialistas da Embrapa em boas práticas agrícolas para apresentar um diagnóstico do clima para a safra de verão 2024/25. E, sobretudo, prestar orientações aos produtores rurais gaúchos para melhor enfrentarem e mitigarem as prováveis consequências dos problemas climáticos que vão atingir as lavouras de grãos.
As plantações já estão em desenvolvimento, com o milho implantado em mais de 80% da área estimada no Estado, e por ora sem problemas com as chuvas, que foram abundantes em outubro, enquanto a soja ocupa menos de 20% da extensão.
Também entre os participantes do encontro que teve a presença da imprensa, Glauber Ferreira, meteorologista do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), que descreveu como deverá ser o comportamento do clima sob o regime do fenômeno La Niña.
Segundo ele, a temperatura na maior parte da Região Sul entre novembro e janeiro deverá ser de 1 grau acima da média, e a precipitação até 50 milímetros abaixo da média na região centro-norte do Rio Grande do Sul, além de Oeste do Paraná e na maior parte de Santa Catarina. Inclusive, em dezembro a previsão é de 75 milímetros a menos que o normal.
Perdas recentes
O agrometeorologista da Embrapa Trigo Gilberto Cunha esclareceu que estiagens são recorrentes no Estado, com 17 ocorrências nos últimos 55 anos, inclusive em safras recentes: 2004/05, 2011/12, 2019/20 e 2021/22. E provocando perdas significativas, como mais de 40 milhões de toneladas de soja, milho, trigo e arroz entre 2020 e 2024, e 50% do PIB gaúcho em 2023.
Conforme análise dele, o prognóstico para esta safra não é de “tragédia pré-anunciada”, mas também não de “otimismo”, mas lembrou que, pela previsão de menos chuvas e temperatura elevada, a demanda de consumo de água pelas plantas sempre aumenta. “É um sinal de alerta aos produtores”, advertiu.
E o especialista mencionou ações a serem empreendidas pelos produtores para enfrentar situações que deverão ocorrer. A começar, fazer um escalonamento do plantio, ainda que seja uma possibilidade mais difícil aos gaúchos que, em sua maioria, cultivam pequenas áreas.
Além disso, sugeriu a utilização do seguro agrícola, mas que para isso seja fundamental o apoio governamental na subvenção ao prêmio. Da mesma forma, alertou Cunha, jamais o agricultor deve ignorar os cuidados com o solo, como formação do seu perfil para evitar a compactação, assim como manter os terraços. “O impacto (da estiagem) é muito atrelado também ao esmero, à gestão da produção”, resumiu.
Safra de verão inicia no inverno
O chefe-geral da Embrapa Trigo, Jorge Lemainski, igualmente citou tradicionais práticas agrícolas recomendadas que deixam as plantações mais resilientes aos momentos críticos de déficit hídrico. “As melhores safras de verão são preparadas no inverno”, exemplificou, ao esclarecer que o plantio na resteva de trigo e triticale tende a dar respostas melhores em produtividade.
Além disso, explicou que o agricultor deve ter claro o diagnóstico da condição do seu solo quanto a acidez e ao nível nutricional. Da mesma forma, explicou, precisa saber o estoque de nutrientes presentes, para pensar no investimento em adubação, assim como fazer o plantio em épocas de presença de umidade no solo e utilizar sementes de qualidade.
Solo coberto
Já Giovani Theisen, pesquisador da Embrapa Clima Temperado, descreveu a situação enfrentada pelos produtores de grãos da Metade Sul do Estado, atingidos por três estiagens e uma enchente nos últimos cinco anos. Ele condenou situações em que os produtores ainda fazem a preparação do solo, o que deixa o ambiente ainda mais vulnerável ao clima, assim como disse ser fundamental manter o solo coberto para diminuir a evapotranspiração.
E, ainda, para diminuir os custos de produção, implemnetar o controle sanitário da lavoura de acordo com as ameaças de danos, jamais de maneira preventiva. “Utilizar o fertilizante de acordo com a análise de solo. Não é um ano para esbanjar fertilizante”, acrescentou.
O superintendente do Ministério da Agricultura no Rio Grande do Sul, José Cleber de Souza, lembrou que pelo exposto pelos especialistas há um problema estrutural em relação ao manejo dos cultivos, deixando os solos numa condição aquém do que poderiam caso se adotassem as práticas recomendadas.
“Me parece que a recomendação mais geral seria de atenção, de cautela e de procurar se informar adequadamente dos prognósticos climáticos e, acima de tudo, de uma assistência técnica descomprometida com a venda, vamos dizer assim, uma assistência orientada pela técnica”, afirmou.